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novo mundo
FUTURO

Poesia nômade
Por Mirna Feitoza

A webartista e crítica Giselle Beiguelman discute o futuro da escrita em exposição e livro

Que novas possibilidades de leitura e escritura são possíveis pela interação com os dispositivos e redes de comunicação remota? Os aparatos de comunicação “nomádica”, tais como celulares, Palms, Pocket PCs, que remetem para um indivíduo em constante deslocamento no espaço, podem interferir nas percepções e usos que fazemos da cidade? E, se a cidade é informação, os elementos físicos que a constituem podem ser convertidos em nodos das redes?

São questionamentos dessa ordem que permeiam a exposição “3 Teses e 1 Hipótese”, em cartaz até 8 de novembro na Galeria Vermelho, em São Paulo. Não é à-toa. Mais do que experimentos em arte, design, mídia e tecnologia, os trabalhos nela reunidos espelham algumas das inquietações que têm pautado o debate acadêmico acerca dos processos de comunicação engendrados pela conexão do humano com os dispositivos e redes de comunicação à distância.

As três teses em questão -“o espaço é a mídia”, trabalhada por Vera Bighetti, em “Cadeira”; “a mídia é a cidade”, defendida por André Teruya Eichemberg, em “Emergent_Water_Scapes”, e “a cidade é a interface”, refletida em “Paisagens Tipográficas”, de Marcelo Bicudo- são resultado das pesquisas de mestrado desenvolvidas pelos três sob orientação de Giselle Beiguelman na pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, onde a artista e editora de “Novo Mundo” de Trópico é professora e pesquisadora.

A hipótese -“no tempo do nomadismo wireless, a interface é a mensagem”- é da própria Giselle e pode ser aferida em “Poétrica” (www.poetrica.net), terceira tele-intervenção em que a artista explora os contextos de leitura e escritura possibilitados pela conexão com os dispositivos e redes de comunicação remota. Contudo, diferentemente de “Egoscópio” e “Leste o Leste”, ambos de 2002, desta vez a artista se volta especialmente para a elaboração das mensagens no contexto da comunicação nomádica.


Horizontes da cultura cíbrida

Pensando a arquitetura no ambiente da “cultura cíbrida” (como Giselle Beiguelman tem definido a série de transformações culturais desenhadas pela linkagem do humano aos dispositivos e às redes de comunicação on line e off line), André Teruya Eichemberg dá indícios de como os arquitetos podem se apropriar da interação dos citadinos com ambientes simulados para implementar novas soluções urbanísticas.

A proposta do arquiteto está sistematizada em “Emergent_Water_Scapes”. Na versão montada na galeria, um DVD mostra um auditório simulado sobre o lago do parque Ibirapuera, em São Paulo, cuja arquitetura se ergue de acordo com as informações geradas pelo fluxo de interação dos visitantes imersos no suposto ambiente.

O espaço e a arquitetura da cidade também são o tema de Marcelo Bicudo. Contudo, seu interesse é antes explorar os contextos de legibilidade e a possibilidade do design em uma cidade congestionada de informação. Num processo em que a entropia se organiza como mensagem, Marcelo projeta suas “Paisagens Tipográficas” diluindo a cidade em dígitos para recompô-la com fontes fonéticas e não-fonéticas (tais como Old Style, Grotescas e Dingbats).

O resultado é uma plotagem de 1400 dpi, impressa em papel fosco, de laminação igualmente fosca, afixada em uma das paredes da galeria, e outros desenhos que funcionam como janelas que revelam ângulos da cidade tipográfica composta pelo arquiteto e designer.

A confusão entre real e virtual é investigada por Vera Bighetti em “Cadeira”. Trata-se de um ambiente imersivo, montado em uma sala escura, no qual o visitante explora o espaço utilizando óculos 3D. Conforme interage com o sistema, ele produz uma escritura visual não-fonética, que se atualiza a cada movimentação e que parece saltar da tela afixada no fundo sala, em razão da ilusão dos óculos 3D.


A entropia como mensagem

Como já dissemos, em “Poétrica”, Giselle Beiguelman explora os novos contextos de leitura e escritura possibilitados pela conectividade com as redes. O sistema envolve uma série de poemas visuais compostos pela artista com fontes não-fonéticas e uma tele-intervenção urbana que veicula, em três painéis eletrônicos da cidade de São Paulo, mensagens feitas pelos visitantes de “Poétrica” a partir dos mesmos recursos usados pela artista na confecção dos poemas nômades.

Do ponto de vista da tele-intervenção que provoca no espaço público, “Poétrica” não difere muito de “Egoscópio” e “Leste o Leste”. Contudo, ao que parece, desta vez a artista radicaliza na exploração daquilo que de fato lhe interessa: os processos entrópicos de comunicação, se é que é possível falar nesses termos.

Como ensinaram os cibernéticos, no âmbito da comunicação entre máquinas, a entropia é justamente aquilo que a comunicação tem de controlar para se efetivar como mensagem. Contudo, isto é o que as mensagens de “Poétrica” ironizam, senão no que se refere à mecânica cibernética que garante o acesso aos poemas nômades, pelo menos no que diz respeito aos processos de leitura que efetivam a escritura de tais poemas.

A ironia está em efetivar um processo de comunicação, no ambiente cibernético da rede, em que o artista não tem controle sequer sobre o suporte em que sua mensagem se inscreve, uma vez que esta, por só existir no fluxo da Web, se realiza de acordo com os parâmetros permitidos pela interface que o leitor estabelece com a rede. Esta depende da conexão, do dispositivo por meio do qual ele se conecta, de seu repertório de leitura, dentre outros aspectos que remetem para um texto que está vinculado integralmente ao contexto da leitura. Daí, Giselle pontuar que, no âmbito da comunicação em rede, a interface é a mensagem.

Se é no contexto de leitura que essa escritura se realiza, é para ele que a artista volta seus experimentos. Em razão disso, os poemas nômades mais significativos de “Poétrica”, do ponto de vista das possibilidades de escritura no ambiente da comunicação em rede, não são os elaborados por ela, artista, disponíveis no menu de abertura do site.

São os elaborados à revelia de seu controle, especialmente os compostos em situações de trânsito pelos leitores/escritores andarilhos de “Poétrica”: aqueles que acessam o sistema por meio de celulares, Palms, computadores de bolso, enquanto deslocam-se pela cidade. O que remete para indivíduos imersos em ambientes ruidosos, congestionados, que minam qualquer possibilidade de fruição artística de padrão contemplativo. Contudo, é desse ambiente que emerge a escritura de "Poétrica", num processo em que a entropia se efetiva como mensagem.

Com isso, “Poétrica” testa a emergência de um padrão de vida pautado pela conectividade do corpo às redes de telecomunicação em situações de trânsito, permitida pelos aparatos de comunicação sem fio que acessam à internet, aquilo que William Mitchell (2003) tem chamado de “nomadismo eletrônico”.

Como Beiguelman tem acentuado, são várias as transformações culturais engendradas por uma cultura como essa: ciborguização do corpo, processos de subjetivação de um eu que não é mais em relação a si mesmo, mas à sua capacidade de conectividade, novas possibilidades de escritura e novos contextos de leitura, etc.


Retorno à literatura

No que diz respeito ao gênero, “Poétrica” marca o retorno de Giselle Beiguelman à literatura (se é que um dia ela deixou a literatura de lado). Com isso, como tão bem acentuou Lucia Santaella -durante discussão sobre o projeto na Galeria Vermelho-, revela qual é o objeto primordial de sua investigação: a escritura.

Nesse sentido, não dá para falar do experimento sem destacar a influência de Derrida sobre o pensamento da artista. É com ele que Beiguelman mais dialoga neste projeto: “A escritura não-fonética quebra o nome”, diz o filósofo.

Ao converter as mensagens de texto de seus leitores em poemas visuais quase ideogramáticos, usando fontes não-fonéticas para isso, a escritura de “Poétrica” quebra nomes, rebelando-se contra os fundamentos lingüísticos fonológicos que legaram à escritura a condição de função estrita e derivada da fala.

Coincidência ou não, no mesmo ano em que os poemas nômades marcam o retorno da artista à investigação da escrita literária sai a versão impressa de “O Livro Depois do Livro” (Peirópolis, 2003), projeto lançado primeiramente em site, em 1999, no ZKM (Museu de Arte e Mídia, da Alemanha), que inaugurou a incursão da artista no campo da ciberliteratura, projetando-a no cenário internacional da webarte.

Diferentemente do que o nome pode sugerir, “O Livro Depois do Livro” não é uma discussão sobre o fim do livro. É um ensaio sobre leitura, literatura e internet, em versão on line (www.desvirtual.com/thebook) e impressa.

Se no site a artista se inspira em “O Livro de Areia”, de Borges, para testar os caminhos da literatura no ciberespaço, a análise que ela faz no livro confirma aquilo que já havia assinalado no formato anterior: o rompimento das ligações entre texto e suporte no ambiente da ciberliteratura aponta, afinal, para a possibilidade de um livro líquido, fluido, tal qual um livro de areia.

Contudo, conforme destaca a autora, essa especificidade da escritura em rede se faz sobre um paradoxo: “Ao mesmo tempo em que se confunde com um espaço construído de memória, (ela) desenha uma arquitetura do esquecimento”. Tal fenômeno é ilustrado por meio da abertura do código fonte “”, codificado em qualquer página da internet, que quer dizer: “apague da memória do computador do receptor desta página a versão que acessou antes”.

Estaríamos então diante de um tempo sem lugar para a memória? “Não, se pensarmos que as tecnologias de produção de texto são também tecnologias de produção de outras possibilidades estéticas e de outras formas de memorização”, apazigua.

“O Livro Depois do Livro” poderia se chamar “a escritura depois da escritura”, “o leitor depois do leitor”, “a literatura depois da literatura”, “a memória depois da memória”, pois o que o volume anuncia são novos paradigmas de uma escritura que se realiza no fluxo. Na busca de descobrir quais são esses novos parâmetros, esta artista gramatologista deixa os rastros de seu pensamento fluido.

A tele-intervenção “Poétrica”, com direito à exibição dos poemas nômades dos visitantes em três painéis eletrônicos da cidade de São Paulo (localizados na Paulista, Consolação e Rebouças), vai até 8 de novembro. Em fevereiro de 2004, o projeto ganha as ruas de Berlim.

link-se
Poétrica - http://www.poetrica.net
Emergent Water - http://www.geocities.com/emergentwater
Artzero - http://www.artzero.net
O Livro Depois do Livro - http://www.desvirtual.com/thebook

Mirna Feitoza
é jornalista e pesquisadora da semiótica das mídias e da cognição. Atualmente investiga a relação da criança com as linguagens eletrônicas, em pesquisa de doutoramento desenvolvida na Comunicação e Semiótica da PUC-SP.

 
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