|
busca
nos arquivos
|
Nessa época eu morava num quarto. Então, o meu caderno era o meu ateliê. Tudo em escala mínima. Já com 17 anos, eu escrevia muito. Histórias, poesias, esse caderno-ateliê vem um pouco daí. Eu tinha muitos cadernos daquela época, mas perdi. Os que eu consegui segurar, vendi ao Gilberto Chateaubriand. Ele, como colecionador, guardou-os. Se não, eu iria perdê-los nesse vai-e-vem, sem lugar fixo. Aí surge, pouco a pouco, a idéia de usar o espaço expositivo como local de germinação das idéias, experimentação real. E usar aquilo como uma coisa que não esteja determinada. Isso é o que configura uma “situação”? Barrio: Para mim é. Qualquer situação em que você não sabe plenamente o que fará, é uma “situação”. Um ponto de interrogação, que eu chamo de “situação”. Na Bienal de São Paulo de 96 fui convidado pelo Agnaldo Farias para a Mostra Universal. Achei a proposta muito forte. Com grandes artistas e impactante. Eu, naquela época, já queria chegar com essas propostas, participando de uma bienal sem um projeto e decidindo o que criar na hora. Então, mandei fazer uma caixa semi-fechada, uma espécie de galpão, para criar lá dentro. Mas eles começaram a ficar meio desesperados. Entendi que para certas instituições, certos acontecimentos, você precisa dizer mais ou menos como se comportará. E cumprir. Barrio: E cumprir, e cumprir (risos). Eu entendi que era nessa brecha que eu tinha que atuar. Só que isso implica numa luta cotidiana. Fico aqui, sendo observado pelos outros, mas tudo bem… Bem ou mal, você tem se relacionado com as instituições. Barrio: Tenho. E, eles, bem ou mal, estão deixando a coisa ir acontecendo. Acho que esse é um potencial que eles gostam. Mesmo não gostando tanto quanto gostariam de gostar. Mas eles aceitam. E eu acho isso bacana. Isso seria possível algumas décadas atrás? Essa relação é uma aquisição recente? Barrio: Completamente. Isso começa a germinar nos anos 80. É aquela coisa… Tenho uma idéia, mas na hora em que estou fazendo… Meu trabalho sempre teve um pouco esse lance de ir se transformando. Quando você sai de um mundo exterior para um mundo interior, um mundo objetivo, que é uma instituição, o mundo subjetivo precisa dialogar com aquele mundo objetivo, mas não se curvar. Em geral, a arte é apresentada não como algo que foi criado no momento, mas como algo que veio do ateliê, ou de um estudo prolongado, e entra quase como uma estrutura arquitetônica. As instalações do Hélio Oiticica e do Cildo Meireles têm uma conotação arquitetônica, ou seja, são montadas obedecendo a certas regras próprias e são desmontadas, encaixotadas e remontadas em outro lugar. Eu saí um pouquinho disso, meu trabalho não dá para… …remontar? Barrio: Há aquela anedota: eu fiz uma exposição numa pequena galeria no Rio de Janeiro e os marchands, no final, estavam… varrendo o chão, ensacando aquele pó de café, ou umas cabeças de peixe com sal grosso. Umas gambiarras, juntando tudo, porque estavam achando que a partir dali eles poderiam talvez vender, não sei. Mas aí se deram conta de que ninguém vai comprar aquilo, não é? Porque não é mais o todo, aquilo é um objeto. Mas poderiam comprar fotografias que registram a situação. Barrio: É, mas aí entra outro senão, porque a fotografia é secundária. O registro não poderia ser visto como obra? Barrio: Não, de jeito nenhum, a fotografia é secundária. É feita a posteriori, já é outra coisa. Há museus que compraram alguns registros, só que eles não têm direito ao registro único, ao negativo, a uma tiragem de cinco. Não há nada disso. O trabalho tem tiragem ilimitadíssima, os originais eu já não sei onde estão, estão se transformando em cópias. E a fotografia nasceu para ter milhares de exemplares. Eu deixei de trabalhar com uma galeria na Califórnia por isso, porque o marchand queria que eu trabalhasse com registros e queria os negativos originais para fazer tiragem de cinco. De jeito nenhum, eu não trabalho assim. Se alguém quiser comprar, eu vendo. Mas eu tenho os negativos e vou reproduzindo sem remorsos. E você tem vontade de voltar a fazer trabalhos fora da instituição? Barrio: Tenho e estou fazendo. Mandei construir um veleiro aqui em Triunfo, no Rio Grande do Sul. Fui fazendo aos pouquinhos, com meu esforço, demorou dois anos e meio e agora ficou pronto. Fizemos uma viagem em fevereiro até o Rio. Lá no Rio eu fiz várias saídas, fiz uma viagem com Cristina, minha mulher, até Búzios, enfrentamos um vento leste, forte, de proa. Ela registrou com fotos, eu também fiz algumas. Então há a idéia de fazer um trabalho com todo esse percurso, eu escrevo lá minhas coisinhas… Um diário de bordo? Barrio: Não seria bem um diário de bordo, mas há a idéia de fazer um trabalho fora de todos os contextos, fora da terra, na água. Já está sendo feito, mas não acho que já tenha chegado a uma síntese, àquela fagulha. Mas vamos vivendo, a idéia está acontecendo. Essa veia de marinheiro, de onde vem? Barrio: Eu adoro mergulhar e fazer fotografia submarina. Sou português, acho que é um pouco isso também. Sempre morei em Copacabana, com o mar ali em frente, maravilhoso. Isso me afasta um pouco do mundo da arte, que é algo que preocupa, esse dia-a-dia do mundo da arte, nhenhenhém, uma chatice… O papo não tem fim… Os espaços entre as palavras vão se prolongando e a noite cai sobre o rio Guaíba. Paula Alzugaray |