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cosmópolis
ENOGASTRONOMIA

O vinho e a sua pós-modernidade
Por Carlos Alberto Dória



Sede da bodega de Nicolás Catena, em Mendoza/Carlos Alberto Dória

A Argentina, com suas bodegas, está no centro das novas estratégias das companhias vinícolas

A pirâmide no deserto

Ao fundo, atrás da névoa seca, como pentimento, desenha-se ao largo de toda a estrada a cordilheira dos Andes. Nos cumes, as neves eternas resistem ao calor e à secura abrasadores. Os jornais noticiam a morte pela seca de mais de 20 mil civitos (caprinos). Há mais de seis meses não chove. Somente as videiras apreciam a situação, exibindo os seus primeiros brotos primaveris após a longa hibernação.

De repente, do outro lado da estrada, por uma fresta na fileira compacta de álamos, surge ao longe a imponente pirâmide de inspiração maia. Finalmente chegamos. Nenhuma sinalização nas estradas indicava o caminho, mas, com determinação, estávamos diante do monumento que é sede da bodega de Nicolás Catena Zapata, em Mendoza, Argentina. Aquele monumento, aquele senhor e aquelas vinhas tecem um novo destino para a cidade e o país. Não morrerão como os civitos.

Como há o Senhor dos Anéis, na mitologia enológica Nicolás Catena é o Senhor do Vinho. Além daquela bodega que mandou construir, controla várias outras, detentoras de mais história e tradição, às quais teve o cuidado de respeitar o nome original. O império de Catena Zapata tem várias caras.

O carro pára, e o segurança põe a sua alegre cara de índio mapuche perto da janela para indagar o que queremos. Eu e meu companheiro de viagem queremos visitar a bodega. "Lamentavelmente não vai ser possível. É preciso marcar com 48 horas de antecedência".

O "lamentavelmente", além de polido, parece sincero. Insistimos, como peregrinos da fé: viemos de longe, partiremos amanhã, não teremos outra chance... Ele se comove. "Verei o que é possível fazer." Afasta-se. Conferencia com algum superior através do walk-talk, e a autorização vem. "Os senhores sigam pela alameda entre os vinhedos, até a pirâmide. Contornem todos os cotovelos e se dirijam à casa da guarda atrás da pirâmide." É indisfarçável que ficamos felizes. O guarda se anima e acrescenta gratuitamente: "Se quiserem, podem parar no caminho para tirar fotos da pirâmide...".

Seguimos por cerca de mil metros pelo leito de pedregulhos em meio ao mar de videiras. Não identificamos nenhuma casa da guarda. Esperamos um pouco no carro. Ninguém vem nos receber. Saímos, andamos pelo chão de brita em torno da pirâmide, imponente no silêncio dos seus três patamares que se afinam em direção ao céu para sustentar, lá no alto, a seção de um cone envidraçado, como um observatório do qual inequivocamente se pode ler os astros nas noites frias dos Andes. Subimos as escadas, empurramos a porta e entramos. Novamente ninguém para nos receber.

Por dentro, a pirâmide revela-se cônica. Um imenso fosso é circundado por corredores circulares em quatro andares: um abaixo do nível em que entramos e dois acima. O espaço é cortado por escadas em aço que se entrecruzam no espaço, ligando os vários andares.

Aço carbono, negro e brilhante; latão dourado e reluzente; pedras vulcânicas, cuidadosamente cortadas e sobrepostas, e uma luz que se insinua por todos os lados a partir do cone de vidro no topo da pirâmide e das várias portas e janelas. Tudo confere solenidade incomum ao silêncio que nos acolhe. Recordo imagens da "Prosa do Observatório", de Cortázar, ainda que não haja enguias no local... Ao longe, num dos nichos que se abrem como frestas nos corredores, ouve-se o cochichar de alguns homens sentados em torno de uma mesa que ostenta finas taças de vinho.

Surgida não se sabe de onde, pelas nossas costas, ouvimos uma voz: "Os senhores não me procuraram na casa da guarda!". Um tipo bonachão, como o sargento Garcia dos velhos seriados do Zorro, mostra-se visivelmente contrariado. Buscamos nos explicar e acrescentamos o nosso propósito. Entre muxoxos, seu estado de espírito vai se transformando. Finalmente, está do "nosso lado"... "Vou ver o que é possível fazer. Vou consultar o Pablo", diz magnânimo.

Quem seria Pablo? Manda que nos sentemos numa saleta de espera enquanto, reverente, tenta se aproximar do pequeno grupo que cochicha e degusta vinhos. Pablo não lhe dá a mínima. Sinto-me como o agrimensor K., ansioso por ser recebido pelo senhor conde Westwest em seu castelo.

Depois de algum tempo, volta o nosso sargento Garcia com o veredicto: "Es imposible, señores! Imposíble!". Tentamos protestar, mas como não há instância de recurso, logo o protesto se transforma em lamentação, e o gentil guarda em nosso consolador. Desdobra-se em explicações: o senhor Pablo é muito ocupado e precisa almoçar depois da conferência que desenvolve. Em seguida, terá novas reuniões. É preciso marcar com 48 horas de antecedência e, além do senhor Pablo, não há quem possa atender visitantes.

De volta à estrada, seguindo pela alameda em meio aos vinhedos geometricamente ordenados por quilômetros em todas as direções, lembro-me, naquele ambiente pós-moderno, das terras do Marquês na singela estória do gato de botas.

Pirâmides. Mapuches. São passados longínquos a evocar. Outras bodegas apóiam-se em outros simbolismos. Como o Museu do Vinho da Bodega Rutini, que aposta pesado na tradição. Afinal, lá estão a fazer vinhos desde o último quartel do século XIX. Seus vinhos são considerados bons, mas tradicionais.

A bodega Escoriuhela, também um must da região, ancora um excelente restaurante comandado pelo papa da nova cozinha argentina, o celebrado Francis Mallmann. A família Zucardi aposta na "transparência" (nenhum "segredo" deixa de ser mostrado aos visitantes, mesmo os vinhos "em experiência" na sua sala de micro-vinificação...), num atendimento hiperatencioso e num restaurante bem razoável.

Todo esses cenários, concebidos para envolver os visitantes, compõem uma floresta de símbolos que busca desesperadamente refundar uma tradição Argentina -a produção vinícola-, projetando-a como um negócio moderno, com presente e futuro mundiais.

É nesse ambiente de refundação que cresce a figura de Nicolás Catena Zapata. Há um célebre perfil seu, feito por um jornalista australiano, que o apresenta como um homem tímido e discreto, mas sem nada que possa lembrar um caipira empreendedor. Ao contrário: ele é desenhado como um "aiatolá graduado em Cambridge" (na verdade fez macroeconomia na Columbia University), alguém que é a terceira geração de uma família de italianos e que soube, compreendendo o que se passava na Califórnia, enfrentar o desafio de também colocar a Argentina na rota da revolução da vinicultura.

Nicolás Catena Zapata se tornou um importante negociante de vinhos já nos anos 70, ao revolucionar o sistema de distribuição, levando o seu vinho diretamente ao varejo e dispensando as pesadas e caras estruturas intermediárias.

Em meados dos anos 80 (quando os argentinos ainda consumiam, em média, 90 litros de vinho por ano, bem mais que os atuais 33,67 litros), Catena já controlava 36% do mercado. No final dos anos 80, deixou para trás o mercado de vinhos comuns para concentrar seus investimentos na busca de vinhos de melhor qualidade, seguindo o exemplo de Robert Mondalvi, da Califórnia.

Já nos anos 90 a prestigiosa revista "Wine Spectator" considerava dez vinícolas da América do Sul como detentoras de qualidade internacional, sendo que, nove, eram chilenas e uma argentina -a de Catena. Ela é um orgulho nacional que expressa a boa trajetória de renovação da vinicultura argentina, e ele é o argentino que conseguiu atravessar as tormentas, compreender o momento histórico, se preparar e aparelhar para ser um vencedor. Nicolas Catena Zapata é, decididamente, o Senhor do Vinho argentino.


A montagem da máquina

Lembro-me de uma remota e curiosa entrevista do general Vernon Walters, então vice-diretor da CIA. Esse homem, tão tristemente célebre entre nós, brasileiros, expunha em riqueza de detalhes o plano do governo norte-americano para, de um lado, reduzir o consumo de cigarros em todo o mundo e, de outro, levar a população norte-americana a beber como os franceses, isto é, vinho todos os dias e destilados apenas em ocasiões festivas, invertendo o que então ocorria nos EUA: vinho de vez em quando, uísque sempre.

Sempre imaginei que a bebida da pós-modernidade fosse a vodka: um álcool despersonalizado e ao mesmo tempo versátil, capaz de se combinar com toda sorte de preferências locais. Ledo engano. Razão assistia mesmo ao general Vernon Walters, a julgar pela coqueluche mundial em torno do vinho e pela histeria que cerca o cigarro nos países influenciados pelos EUA. Pior para Cuba, melhor para a Argentina -parece dizer, agora, o fantasma do general macabro.

Mais do que "sadio" (este é o novo marketing do vinho), ele vem se convertendo mundialmente num big business, e a Argentina está no centro das novas estratégias. Vinho do "novo mundo" passou a ser sinônimo da fronteira de expansão capitalista neste segmento industrial. África do Sul, Nova Zelândia, EUA, Argentina, Austrália são os novos integrantes do time antes impenetrável e liderado pela França.

Além disso, se julgarmos pela expansão dos vinhedos e pelo desembarque em suas terras de dois gigantes argentinos, logo veremos a China a bater à porta deste seleto clube de países onde o clima, o solo, as novas tecnologias e as velhas tradições propiciaram o boom moderno da vinicultura. Definitivamente, será o fim do império europeu.

O velho Nicolas Catena Zapata sempre foi fascinado por história, seguindo os passos de sua mãe, Angélica, diretora da escola local. Para ele, os maias foram o exemplo mais grandioso da arquitetura pré-colombiana e a pirâmide Tikal -assim batizada em homenagem ao neto do mesmo nome- "deve simbolizar tanto as raízes quanto a singularidade de Mendoza como região produtora de vinhos".

Os primeiros ensaios da vinicultura mendoncina datam de 1534 e foram empreendidos pelos fundadores da cidade, nas terras dos índios Huarpes, a partir da observação de como os nativos cultivavam naquele clima desértico. Por sua vez, a irrigação artificial copiada dos Incas permitiu que os colonizadores desenvolvessem um sistema sofisticado de provisão de água, apoiado no degelo da cordilheira dos Andes. Eles construíram uma ampla rede de diques e canais para conduzir a água e providenciar irrigação, conforme ainda hoje se vê por toda a cidade e sua zona rural.

No século XIX a vinicultura se expandiu, graças aos italianos e espanhóis que chegaram à Argentina. Um sólido mercado interno se formou, ainda que os vinhos tenham mantido sua estrutura simples, firmando-se a tradição de tomá-los com água gasosa (soda) para mascarar seus defeitos. Eram os chamados "vinhos de mesa", sendo que os melhores deles foram denominados "vinhos finos".

Foi, porém, o suficiente para que a Argentina ocupasse uma posição de destaque entre os maiores produtores e consumidores de vinhos do mundo, e as primeiras grandes bodegas se consolidassem.

Como Nicolas Catena Zapata, vários outros "bodegueiros" procuraram se aprimorar na França e na Califórnia, modernizaram suas instalações e souberam promover mundialmente um vinho produzido a partir de uma única variedade de uvas (a Malbec) como expressão do terroir argentino.

A uva Malbec trazida de Cahors, na França, onde até hoje comparece com 70% das uvas que entram na vinificação dos vinhos D.O.C. (Denominação de Origem Controlada), adaptou-se extraordinariamente bem na Argentina. Sobre o Malbec e uma outra uva branca (a Torrontés) apóiam-se os prósperos impérios industriais mendoncinos, já suficientemente confortáveis para se apresentarem também como excelentes produtores de vinho de outras castas.

Este ambiente favorável funciona, hoje, como um eficientíssimo chamariz de grandes capitais. Norte-americanos, franceses, holandeses, alemães -gente endinheirada de todo canto, beneficiando-se da crise Argentina- dispõem-se a apostar seu dinheiro na loteria do vinho. Galpões se armam da noite para o dia.

Equipamentos franceses e italianos de última geração recheiam as bodegas. Fala-se em valores em torno de US$ 50 mil o hectare de terra própria para cultivo de vinhas. Butiques de vinho (wineries) pululam por Mendoza e Buenos Aires. Como a pirâmide de Catena, outras construções espetaculosas surgem na paisagem mendoncina: é o caso das bodegas Norton e Salentein (esta de capitais holandeses).

1 - Colaborou nesta reportagem Abelardo Blanco Falgueiras.


2 - A partir de julho de 2004, quando o mercado conhecer o resultado da última colheita, as etiquetas dos vinhos já não levarão mais a denominação “fino” ou “de mesa”, por resolução do Instituto Nacional de Vitivinicultura argentino, quando só poderão ser anunciadas as características cromáticas. Além disso, os vinhos de cepas varietais só poderão ser assim designados se contiverem, no mínimo, 85% de uma mesma cepa (até o presente o percentual exigido é de 80%).


3 - Para o “elogio” do Malbec, ver: Gustavo Choren, "El Gran Libro Del Malbec", Editorial Planeta, Buenos Aires, 2003.

 
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