Nome de maior destaque no "boom" do conto dos anos 70, Fonseca ocupa até hoje papel de relevo no campo literário brasileiro –basta dizer que em 2003 foi premiado com o Camões, láurea mais importante concedida a um autor de língua portuguesa. Embora sua produção de maior importância se concentre nos textos de início de carreira, ele continua publicando com certa regularidade e assumiu o papel de mentor de um grupo de novos escritores e artistas com vasto acesso à mídia. "Por sua posição seminal e patriarcal de longo prazo, pode-se dizer que Rubem Fonseca representa para a ficção urbana o mesmo que Jorge Amado representou para a regional", lembra a crítica Walnice Nogueira Galvão.
Presente desde sempre na tradição literária brasileira e tendo como ponto de maior destaque a obra de Machado de Assis, essa vertente urbana se caracteriza hoje por um adensamento da temática da violência e da marginalização, verificável tanto na recente profusão de romances policiais, como em textos em que a narrativa "soa do interior das próprias populações marginalizadas", na expressão de Vilma Arêas, cujo ponto alto foram os contos de João Antônio, nos anos 70 e 80, e o mais visível o romance de Paulo Lins, "Cidade de Deus", de 1997.
Este último pode ter sua relevância mais bem compreendida se levado em conta o papel de Roberto Schwarz, influente crítico brasileiro que deu legitimidade ao livro ao indicá-lo para uma editora de prestígio, a Companhia das Letras, e ao publicar resenhas favoráveis a respeito. Com isso, contribuiu para livrar a obra do destino "marginal" que poderia estar reservado a ela e pavimentou o caminho para a adaptação cinematográfica feita por Fernando Meirelles em 2002. O filme foi visto por mais de três milhões de espectadores e se transformou num dos maiores fenômenos de público do cinema nacional dos últimos anos.
O estilo narrativo de Fonseca, que combina a objetividade da escrita jornalística com a agilidade de roteiros cinematográficos, fez escola a ponto de se tornar um maneirismo. É o que se verifica, por exemplo, nos três romances de Patrícia Melo, autora surgida em meados dos anos 90 cujo estilo se revelou uma diluição desses preceitos. Mesmo uma parcela do cinema nacional incorporou a estética difundida pela obra de Fonseca, como se pode notar nas filmagens de seus livros ("Bufo & Spallanzani", "A Grande Arte").
Sua opção por não conceder entrevistas, posar para fotos ou escrever para a imprensa não impediu que se transformasse numa figura atuante no meio. Pelo contrário: resultou num trabalho bem feito de construção de sua imagem e contribuiu para que se criasse em torno de sua obra uma aura de qualidade que nem sempre tem contrapartida em sua produção recente. Com tudo isso, Fonseca fornece bom exemplo de como um tipo de expressão literária que nasce com pontos de contato com um imaginário de protesto se transformou numa das vertentes de maior visibilidade do meio editorial.
Na virada dos anos 70 para os 80, entre os diversos livros que contribuíram para expressar esse aspecto problemático da expressão literária da "contracultura", entendida aqui, frise-se, no sentido mais amplo possível, conviria destacar dois. São eles "O Que É Isso, Companheiro?", de Fernando Gabeira, e "Feliz Ano Velho", de Marcelo Rubens Paiva, publicados em 1979 e 1983, respectivamente.
O livro de Gabeira, como se sabe, cobre o período entre 1964 e 1970, do golpe militar até o momento do exílio do autor-narrador. O foco é sua participação no seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick e o tom, expresso desde o título, é de revisão irônica das inconsistências do projeto da guerrilha urbana. Existe no livro uma intenção aberta de ridicularizar o processo de idealização da imagem do guerrilheiro e de sua fabricação como celebridade pelo sistema. Por um paradoxo perverso, no entanto, e isso foi notado por um crítico americano, Gabeira reforça o fenômeno que pretende criticar ao projetá-lo na sua própria imagem.
O livro foi um sucesso de mídia e de vendas –e o próprio autor viu sua condição de militante-celebridade ser trabalhada de modo bastante eficiente. O desenlace desse processo só foi se dar em 1997, quando foi lançado o filme homônimo de Bruno Barreto. Cineasta da família mais influente no meio cinematográfico nacional e com trânsito nos estúdios de cinema americanos, Barreto conseguiu articular para que o filme fosse indicado ao Oscar de melhor produção estrangeira. Desse modo, levou a história de um bicho-grilo militante dos anos 60 para o coração do mais poderoso sistema mundial de fabricação de celebridades.
O livro de Marcelo Rubens Paiva é igualmente memorialístico. Depois de um acidente que o deixa paraplégico, o autor-narrador tenta elaborar a experiência e fala de suas reminiscências de infância e adolescência. Na história de seu pai, preso político morto pelo regime militar, na sua vivência universitária, na referência freqüente ao sexo e à maconha e na linguagem informal aparecem diversos elementos que permitem que em sua trajetória se cristalize o "espírito de época" dos anos 60 e 70.
Além disso, aproxima-o de Gabeira o fato de seu livro também ter tido ressonância estrondosa na mídia. (Em seu panorama sobre a literatura do período, o crítico Malcolm Silverman lembra que, em termos de sucesso comercial, só Marcelo Paiva pode se comparar a Gabeira). A particularidade que por ora torna esse exemplo oportuno é a necessidade de equacionar os registros de um ideário de contestação, por um lado, e de viabilidade no mercado, por outro, enfrentada pela editora pela qual o livro foi publicado, a Brasiliense.
Fundada em 1943 e associada desde o início a uma produção intelectual consistente e de esquerda, a editora foi a mais importante divulgadora de livros de conteúdo com inclinação "contracultural" na virada dos anos 70 para os 80. E conseguiu ótimos resultados comerciais com as coleções "Cantadas Literárias", que lançou autores como Caio Fernando Abreu e Reinaldo Moraes, "Primeiros Passos", de apresentação de temas para o público leigo, a "Encanto Radical", de perfis ensaísticos, e ainda com a obra poética de autores associados à produção "marginal", como Ana Cristina César e Francisco Alvim. O seguinte trecho do romance "Tanto Faz" (1981), de Reinaldo Moraes, sintetiza um espírito comum a boa parte desses livros e também reflete certas transformações por que passou a prosa de ficção produzida no país.
"Shot: uma garota sentada na minha frente, um pé sobre a almofada do sofá, coxas abertas, um copo de tinto encaixado no cavalo do jeans, e os dedos longos tamborilando distraidamente nas bordas do copo. As multi-Marilyns do Warhol me piscam cúmplices, as safadas.
Alguém comentando do meu lado que a fulana é tão chata que devia ser expulsa do sexo feminino. Trata-se de uma bicha que me cotuca o tempo todo com seus olhares. Todo mundo fofoca, em várias línguas. A bicha puxa um assunto qualquer comigo. É um travesti brasileiro amigo da Syl que faz a vida em Pigalle, mas que está à paisana agora. Me explica que dá pra tirar até 600 francos por dia, uma moleza. Pô, comento, tem muito bolsista por aí que se soubesse disso largaria a comedida masturbação acadêmica pelo franco meretrício. O travelô me pergunta in cold blood:
– E você, meu bem? – pondo a mão no meu joelho – Afinal de contas, és bofe ou boneca?
– Syl me olha sorrindo. Ofereço como resposta a primeira coisa que me passa pela cabeça:
– Eu? Sei lá... acho que sou apenas um modesto funcionário do meu desejo."
Narrado por um jovem paulistano que consegue uma bolsa para estudar em Paris, o livro é uma espécie de diário de viagem narcisista. As duas preocupações centrais do protagonista –entregar-se a um hedonismo irrefreável e escrever romances– são indicativas de um deslocamento de foco temático que também aparece nos livros de Paiva e Gabeira: nos três, em maior ou menor grau, nota-se uma relação menos combativa com o regime militar, uma presença maior de auto-ironia, expressa numa espécie de consciência das possibilidades limitadas de intervenção política do escritor, e uma informalidade de linguagem que não se assume como experimental, mas que, em contrapartida, possibilita arranjos bastante ricos, como se pode no convívio entre oralidade, referências cultas e terminologia estrangeira presente no trecho acima.
O traço definido pela linha editorial da Brasiliense consolida-se a partir de 1986, quando é fundada a Companhia das Letras, editora que se tornou detentora de um poder de legitimação intelectual sem equivalente entre seus pares no país. Em 17 anos de atividade, estabeleceu uma linha de ação que a transformou numa empresa geradora de transformações importantes na indústria do livro no Brasil nas décadas de 80 e 90.
Por investir na qualidade do texto (tanto do título publicado quanto na maneira de trabalhá-lo, aí incluídos os cuidados com tradução, preparação e revisão), no projeto gráfico e no próprio autor, que em muitos casos passa a receber adiantamento de direitos autorais, a empresa instituiu um novo padrão para o mercado editorial. Esse trabalho contribuiu para uma aceitação quase irrestrita de seus livros por certa parcela da imprensa cultural e a tornou um modelo de produtora de cultura que, nas palavras do sociólogo francês Pierre Bourdieu, tira proveitos temporais do capital simbólico que acumulou à custa de uma submissão exemplar às exigências da produção "pura".
É igualmente impossível entender a particularidade do processo de profissionalização do mercado editorial brasileiro sem lembrar o nome de Paulo Coelho.
Desde que lançou seu primeiro livro, "O Diário de Um Mago", em 1987, já vendeu quase 54 milhões de exemplares em 150 países, segundo dados da editora Rocco. Seja por "fornecer uma resposta em meio à crise de valores da virada de milênio", por ser um "gênio do marketing" ou por ter encontrado um meio termo entre ficção e auto-ajuda, entre a liberdade da fabulação e a facilidade das mensagens de claro teor moralizante, ele trouxe para o mercado nacional um imenso grupo de leitores que se encontrava fora dele, estabeleceu novo patamar de relação entre autor e editor e tornou a atividade editorial um negócio atraente para grupos maiores ao sinalizar o potencial de mercado dos livros de auto-ajuda.
Sua trajetória pessoal, além de tudo, é também ilustrativa das metamorfoses por que passou a contracultura no Brasil: ex-entusiasta da sociedade alternativa ao lado de Raul Seixas, hoje vive assediado por estúdios de Hollywood. Além do quê, ao ser eleito para a Academia Brasileira de Letras, ao ser convidado a escrever artigos em jornais importantes, ao fazer palestras em eventos de grande projeção, foi aos poucos sendo aceito nos círculos ditos sérios da cultura, como se pode notar na mudança de tom da mídia ao se referir a ele nos últimos anos. Com isso, tornou mais embaçados os contornos do que seria um establishment literário nacional.
Nos anos 90, importa ainda ressaltar que a inclinação antitotalitária, a inserção obrigatória na esfera política característica dos anos 60 e 70, parece ter se diluído completamente. Em seu lugar, é possível identificar um processo de despolitização, em grande medida derivado do restabelecimento de um regime liberal-democrático no país a partir da segunda metade da década de 80. "Depois da aplicação sistemática de programas de estabilização econômica, sustentados pelo continuísmo político, pela busca de consensos partidários e pela globalização passiva da economia, passa-se a viver, mesmo entre os setores mais críticos da sociedade brasileira, sob uma despolitização generalizada", lembra a crítica Flora Süssekind.
Aliado à financeirização que tomou conta da economia brasileira nos anos FHC, esse contexto, segundo Flora, dá origem a uma situação de instabilidade de parâmetros e desmaterialização de valores que pode ser contraposta, no plano da cultura, ao que ela chamou de "crise de escala". Na prosa de ficção, o fenômeno estaria visível numa tendência à miniaturização e principalmente na revalorização de um formato que esteve em baixa nos anos 80: o conto.