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ensaio
LITERATURA

Ficção contracultural brasileira
Por Flavio Moura

A prosa de contestação seguiu um tortuoso e persistente caminho dos anos 60 até hoje

As considerações a seguir pretendem trazer elementos que permitam enxergar parte da história da literatura brasileira recente, notadamente no campo da prosa de ficção, como a história de uma relação problemática entre o establishment cultural do país e obras motivadas por certo espírito de contestação e protesto identificado com a "contracultura".

Em razão da dificuldade de encontrar uma conceituação precisa para o termo, optou-se por abordá-lo em sua acepção mais ampla: a de um conjunto de atitudes fortalecido nos anos 60, ainda que identificável em qualquer época, pela proposta coletiva de negar um sistema político e de valores. Assim, por vezes parecerá pouco preciso o delineamento da literatura de inclinação "contracultural". De todo modo, esse caminho tortuoso pode ser útil à medida que permite um recorte menos restrito da prosa de ficção brasileira nas últimas três décadas.

Nos anos 60, um autor paradigmático para movimentos identificados com a contracultura foi José Agrippino de Paula. Seu livro mais cultuado, "PanAmérica" (1967), foi considerado "uma obra espetacular em todos os sentidos" por Sérgio Sant´Anna e uma experiência literária de radicalidade incomparável por Caetano Veloso, que assina o prefácio da última edição, lançada em 2001.

Os protagonistas da obra são Marilyn Monroe, Che Guevara, Cecil B. de Mille, Marlon Brando, Cary Grant, John Wayne, entre diversos outros ícones da cultura de massa. Em meio a situações que constroem uma atmosfera alucinatória, eles participam de uma filmagem de episódios da Bíblia e interagem com um narrador em primeira pessoa. A composição é feita de cenas isoladas, por vezes sem continuidade aparente, reunidas à semelhança de uma montagem cinematográfica. Abaixo, um trecho do livro:

"Di Maggio puxou o zíper do vestido de Marilyn e ela estava nua na sua frente com o seu corpo branco. Di Maggio ajoelhou e lambeu o ventre branco de Marilyn enquanto olhava extasiado o corpo lindo e os seios pontiagudos. Di Maggio deitou Marilyn entre os escombros, abriu as coxas brancas de Marilyn e introduziu o seu potente falo de dois metros no ventre de Marilyn Monroe. Marilyn soltou um grito e recebeu todos os dois metros do falo de Di Maggio e prendeu fortemente as pernas. Instantes depois Di Maggio atingia o orgasmo e esguichava esperma para todos os lados, que saía de entre as pernas de Marilyn, e instantes depois os cadáveres esquartejados e os escombros do estádio de beisebol flutuavam no esperma de Di Maggio. Os dois amantes se levantaram nus e o herói convidou Marilyn Monroe para dar uma volta na sua arraia gigante. Os dois montaram na arraia voadora e a gigantesca arraia subiu para os céus com um zumbido."

A reiteração dos nomes próprios, que parece mimetizar sua onipresença na mídia, faz ecoar a principal influência do autor: a "pop art" americana. "Ao citar Marilyn Monroe, eu queria fazer como Andy Warhol: criticar os mitos cotidianos criados pela indústria cultural", declarou o autor em entrevista recente. Personagem marginal na cultura brasileira –no início dos anos 80, retirou-se da vida pública por apresentar quadro clínico de esquizofrenia–, José Agrippino de Paula é influência para a prosa "jovem" dos anos 90, como se pode notar nos textos de André Sant´Anna, Marcelo Mirisola e Joca Reiners Terron.

A incorporação temática da realidade da comunicação de massa e a abordagem de uma experiência urbana radical, ambas visíveis no livro de Agrippino, foram traços decisivos da literatura produzida no país a partir de meados da década de 60. Mas é preciso acrescentar mais um elemento: a resistência ao regime militar. É impossível dissociar dessa conduta a produção dos escritores que começam a publicar a partir desse período. Dadas as circunstâncias em que passaram a produzir, o engajamento político tornou-se praticamente um sinônimo do ato de fazer literatura. "Eles se tornaram romancistas compromissados não porque desejavam mudar a sociedade, mas porque escrever romances era, na sociedade, naquele momento, uma atividade comprometida, quase uma atividade subversiva".

A urgência em dar forma e expressão a um contexto político que se mostrava cada vez mais hostil fez com que a literatura adquirisse uma importância como instrumento político que não se via no país desde o fim dos anos 30. Desde a ditadura de Vargas, o romance jamais servira tanto de veículo para disseminar a realidade sórdida na qual estava imerso o país, e onde buscava sua inspiração. "Nisto reside sua importância, pois o romance se desenvolveu de forma vigorosa, enquanto os meios convencionais de comunicação estavam bloqueados".

O crítico literário e brasilianista Malcolm Silverman, autor da citação acima, dedicou um livro inteiro à questão do romance de protesto nos anos 60, 70 e início dos 80 no Brasil. Para facilitar sua exposição, ele elegeu nove categorias diferentes de romance de protesto: o romance jornalístico, o romance memorial, o romance da massificação, o romance de costumes urbanos, o intimista, o regionalista-histórico, o realista-político, o romance da sátira política absurda e o da sátira política surrealista.

Não faria sentido se aprofundar em cada uma dessas categorias, pois isso significaria se distanciar demais do eixo aqui proposto. Mas só a necessidade de criar tantas pastas para encaixar a variedade de formatos que o romance do período assumiu dá a medida da dificuldade que se impõe para quem quiser abordá-los a partir de uma perspectiva genérica.

Romance que ilustra traços significativos da prosa de ficção produzida durante o regime militar é "Zero", de Ignácio de Loyola Brandão, lançado em 1976. Fragmentado, dissonante numa forma que mistura relato jornalístico, depoimento, slogans publicitários, ritmo de roteiro cinematográfico e narração por vezes numa "primeira pessoa brutal", nas palavras do crítico Flávio Aguiar, o livro ilustra de maneira bastante clara o tipo de resposta apresentada pelos ficcionistas do período às dificuldades circunstanciais da censura e à repressão da linguagem que ela impunha.

"O homenzinho girava com fúria a manivela do magneto, fala, fala, fala, conta, comunista filhodaputa, conta dos aparelhos, me dá os endereços, e os endereços dos padres, aqueles padres de merda, bichas, sabia que os padrecos não gostam de mulheres (?. Os fios no meu saco, nas plantas dos pés, fale, conta merdinhadebosta, e eu, frgsthfhtrygrufjutih jur itid narerad mertardstr frsgrtuiok jlo. E agora você vai saber por que me chamam de joão bonzinho disse o coronel enquanto enfiava um fio no canal de minha uretra e ligava o fio direto na tomada e eu sumia no mundo, com tanta dor que nem sentia dor, parece que meu pau tinha sido arrancado e eu não sentia mais ele, pensei que nunca mais ia meter, nem que tivesse mil babacas na minha frente. E o joão bonzinho enfiou um bastão no meu rabo e ligou o fio no magneto e girou a manivela e me caguei todo, a bosta escorreu pelas minhas pernas, eles morreram de rir e disseram que eu devia comer a bosta no chão porque tinha sujado a sala toda e o general comandante não gostava de sala suja. Eu estava cagando pra ter cagado, a dor dos choques, os músculos todos tremendo é que me enchia, ukgitgfyjhtyaaoaoirsgrt groitsgruio gruoatr areasresrea defers degrefregstrfncgui cracrecrecreicrocru, lambe o chão merda de comunista, bandido do caralho, lambe com a língua, limpe a bosta pro general não ver e até que bosta não é tão ruim assim, porque não tinha gosto, nem cheiro, parecia sopinha de criança e um sargento sugeriu que me dessem mijo como bebida pra acompanhar o almoço." Nesse trecho, a experiência da tortura parece dilacerar as sentenças, como se elas não precisassem mais assumir o compromisso de seguir normas da narrativa dada a intensidade do conteúdo que relatam. A primeira pessoa, apresentada numa situação-limite, parece ainda intensificar o coloquialismo e justificar a extensão dos períodos.

Seria pouco prudente, contudo, exagerar no caráter "revolucionário" do livro, visto que ele parte de procedimentos em voga desde décadas anteriores e bastante adotados principalmente por autores estrangeiros naquele momento. Para o que se pretende mostrar, basta que o aceitemos como ilustrativo de um misto entre conduta política e atitude literária que pode até certo ponto ser entendido como marca característica do período.

Concluído em 1969, o livro de Loyola foi recusado por quatro editoras, lançado pela primeira vez na Itália, em 1974, e só em 1975, com ajuda de uma reportagem na revista "Veja", conseguiu espaço para publicação no Brasil, pela editora Brasília/Rio. No ano seguinte, foi apreendido pela censura, e só veio a público novamente em 1979. A desconfiança das editoras que recusaram o original e a consumação do confisco, mesmo depois da legitimação por um grande veículo de imprensa, são indicativos de que a prosa de ficção, já na segunda metade da década de 70, tinha uma ressonância maior do que muitos autores suspeitavam.

Até então, a noção de que o público leitor era escasso contribuiu para que a literatura se constituísse como meio privilegiado de escape, visto que sobre ela a vigilância era menor do que sobre formas de expressão com mais repercussão. (Segundo o crítico Silviano Santiago, em 1977 havia apenas 60 mil leitores de ficção no Brasil, o que equivalia a 0,05% da população de um país de 110 milhões de habitantes, e ainda assim seria preciso considerar que a maioria lia best-sellers internacionais.)

O autor que melhor sintetiza as contradições envolvidas na obtenção de sucesso de vendas com a exposição de uma realidade marginal é Rubem Fonseca. Em outubro do mesmo ano, 1975, ele publicou a coletânea de contos "Feliz Ano Novo". Em dezembro do ano seguinte, quando o livro foi censurado, já tinham sido vendidos mais de 30 mil exemplares. O número era expressivo demais para que as situações que ele apresentava fossem consideradas inofensivas. E também indicava que centrar foco no choque social da vida urbana, no lado avesso do milagre econômico, na insensatez de um cotidiano marcado por violência e exclusão não era sinônimo de insucesso comercial, de "marginalidade" no mercado editorial.

Ao contrário da fragmentação de enredo e da superposição de diversos registros narrativos presentes no romance de Loyola, é a limpidez formal o traço mais característico da obra de Fonseca. Ele obtém boa parte da força de seus textos ao opor uma narração de extrema frieza e precisão a um conteúdo de impacto. Nesse aspecto, contrapõe-se sensivelmente ao trecho que vimos de Zero, em que a contaminação do narrador pela força do tema que narra é total. Pode-se notar esse choque na passagem abaixo, extraída justamente do conto "Feliz Ano Novo".

"Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede?
Ele se encostou na parede.
Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá.
Aí. Muito obrigado.
Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.
Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.
Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, Zequinha disse.
Os caras deitados no chão estavam de olhos fechados, nem se mexiam. Não se ouvia nada, a não ser os arrotos do Pereba.
Você aí, levante-se, disse Zequinha. O sacana tinha escolhido um cara magrinho, de cabelos compridos.
Por favor, o sujeito disse, bem baixinho.
Fica de costas para a parede, disse Zequinha.
Carreguei os dois canos da doze. Atira você, o coice dela machucou o meu ombro. Apóia bem a culatra senão ela te quebra a clavícula.
Vê como esse vai grudar. Zequinha atirou. O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito, como se ele tivesse dado um salto para trás. Bateu com estrondo na porta e ficou ali grudado. Foi pouco tempo, mas o corpo do cara ficou preso pelo chumbo grosso na madeira.
Eu não disse?, Zequinha esfregou o ombro dolorido. Esse canhão é foda."

1 - José Agrippino de Paula, "PanAmérica", São Paulo: Editora Papagaio, 2001, p. 87.


2 - "Sem lenço, sem documento", "Veja", 30 de maio de 2001


3 - Emir Rodriguez Monegal, “Writing Fiction Under Censor´s Eye”, "World Literature Today" (1979), local, v. 53, n.1, p. 19.


4 - Malcolm Silverman, "Protesto e novo romance brasileiro", p.33


5 - “Jornal, realismo, alegoria: o romance brasileiro recente”, em Davi Arrigucci Jr, "Outros Achados e Perdidos", p.91


6 - Ignacio de Loyola Brandão, "Zero", Rio de Janeiro: Codecri, 1979, 3 edição, p. 268.


7 - "Veja", número 299, edição de 29 de maio de 1974


8 - Silviano Santiago, "Vale quanto pesa", Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 25.


9 - Rubem Fonseca, "Feliz ano novo", São Paulo: Companhia das Letras, 1989 p. 19-20.

 
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