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POLÍTICA

11 de Setembro e a guerrilha do espetáculo
Por Esther Hamburger

Disputa pelo controle das representações se tornou ponto estratégico na geopolítica atual

Nos dois anos de 11 de Setembro, evidências históricas sugerem que os atentados ao World Trade Center e ao prédio do Pentágono, transmitidos ao vivo, em tempo real, para o mundo inteiro, resultam de uma longa e paciente experiência de apropriação das técnicas de produção do espetáculo.

“Television”, documentário em seis episódios produzido em 1984 pela Granada Television e exibido anos depois no Brasil pela TV Cultura, contém informações que levam a crer que atentados internacionais contemplam o que poderia ser considerado um “planejamento de mídia”.

O programa mostra conhecidos âncoras das principais emissoras inglesas e americanas em entrevistas sobre eventos que marcaram suas carreiras. Seus depoimentos são ilustrados com imagens das coberturas citadas. Entre eles, surge um caso revelador, contado por Mike Nicholson.

Em 1970 a equipe da ITN foi cobrir o desenlace de uma operação que desviou três aviões para a Jordânia. A libertação dos passageiros tomados como reféns foi televisionada em um “furo” da emissora britânica, que divulgou o evento a milhões de telespectadores do mundo inteiro.

A notícia, convencional, mostrou declarações de passageiros, de língua inglesa, aliviados por serem soltos. Em seus depoimentos os reféns registraram os bons tratos recebidos.

Finda a cerimônia de resgate, a pista do aeroporto se esvaziou. A gravação estava para ser cortada, quando a tela se encheu de novo, desta vez com o espetáculo surpreendente da explosão dos aviões vazios. Cidadãos do mundo inteiro testemunharam uma dupla demonstração de força. O sequestro bem sucedido terminava com uma advertência de que a guerra continuaria.

O fato se passou há 33 anos. Hoje a notícia parece corriqueira. A inexistência de vítimas fatais, suicidas ou ferimentos sangrentos acentua a falta de interesse de um evento fadado ao esquecimento a que mídia condena as notícias que são manchete um dia.

Mas revelações feitas pelo jornalista responsável, 14 anos depois do evento e 17 anos antes do 11 de Setembro, no documentário inglês, explicitam dimensões ocultas da guerrilha internacional.

Mike Nicholson sugere que o registro televisivo das imagens, o suposto “furo”, estava previsto no plano do atentado. Ele lembra que, na época, as transmissões ao vivo, via satélite, ainda não existiam. Gravações in loco tinham que ser enviadas mecanicamente. Ansioso para enviar a fita para a matriz, apressou a equipe a desmontar o equipamento.

O cinegrafista, no entanto, teria pedido alguns minutos, tempo crucial para que as imagens da explosão inusitada fossem devidamente gravadas. O jornalista inglês teria manifestado sua surpresa ao técnico local, contratado como free lancer, pois, afinal, em geral, as câmeras estão desligadas quando o principal acontece. A resposta dada pelo técnico explica inclusive a presença exclusiva da emissora no local: “Sou um deles”, disse. De lá para cá, “eles” aprimoraram suas técnicas e estilos.

Em 2001, 31 anos depois desse evento, o 11 de Setembro pode ser considerado um grandioso espetáculo cinematográfico, feito para a televisão. O roteiro mobilizou ícones do cinema hollywoodiano e da cultura americana em uma atuação calculada para garantir o tempo necessário à chegada da cobertura televisiva.

Atentados replicam as convenções dramáticas consolidadas pelo cinema e pela TV. A disputa pelo controle das representações se tornou elemento estratégico na geopolítica cultural contemporânea. Se não houver uma revisão de critérios, o cinema industrial e as emissoras de TV correm o risco de permanecerem reféns da guerrilha internacional.

Esther Hamburger
Esther Hamburger é antropóloga, professora do departamento de cinema, televisão e rádio da Universidade de São Paulo (USP) e editora de "Trópico".

 
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