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Festivais e eventos de peso, como a Bienal do Whitney Museum, vem destinando categorias específicas em sua programação a projetos produzidos exclusivamente com o software da Macromedia, mesmo antes que Lev Manovich publicasse seu artigo na “Nettime” (www.nettime.org), o que gerou interminável polêmica sobre o endosso de um software comercial e fechado a desenvolvedores -esse seria um excitante capítulo à parte.

Mas, se estamos ou não confundindo um padrão técnico com uma estética, o fato é que nunca um programa foi tão difundido nos meios comerciais, acadêmicos e artísticos ao mesmo tempo, a ponto de se sobrepor inclusive ao conceito vigente de “vídeo”, mesmo em suas possibilidades digitais mais flexíveis, como o padrão Quicktime.

Particularidades típicas do Flash, como a reorganização de gráficos vetoriais, as possibilidades de manipulação a partir de “scripts” de programação e seu potencial de gerar arquivos muito leves ampliou significativamente o horizonte das possibilidades de uso não apenas de gráficos em movimento mas também de imagens figurativas (fotográficas, videográficas e cinematográficas), especialmente a partir da versão MX.

Em termos de programação, não apenas o Flash, mas também recursos em Java, vêm possibilitando também o surgimento de interatividades sonhadas por videomakers e aspirantes a VJ, desde que o vídeo foi para dentro do computador. Vários sites (confira os links, no final deste artigo) disponibilizam ao público verdadeiras máquinas de manipulação de sentido, por meio da edição on-line de fragmentos de áudio e vídeo. Ou seja, o ideal do VJ está agora diante de qualquer usuário da internet, sem que seja necessária nenhuma formação ou conhecimento específico para sua manipulação.

O desejo de “tocar a imagem”, imaginado por Paik e por toda uma geração, que, como eu, sempre esteve flertando com as confluências entre imagem e som, se tornou possível não a partir de técnicas complexas ou máquinas dispendiosas, mas de programas disponíveis na rede.

O KeyWorx (originalmente Keystroke) e o simplérrimo Vernacular (dos artistas Howard Goldkrand e Beth Coleman, disponível gratuitamente no site da Electronic Arts Intermix) permitem que qualquer usuário transforme seus arquivos de texto, imagem ou áudio espalhados pelo computador em elementos cinéticos muito interessantes e convincentes em termos de complexidade visual e interação via objetos.

Apesar da interface se apresentar como estranha, mesmo para quem tem familiaridade com edição em vídeo no computador pessoal, as técnicas exigidas não vão muito além do controle do mouse para o “drag & drop” (“selecionar & arrastar”) e algumas poucas noções de ajustes de cor, luminância, “scalling” (“escala”), efeitos 3D e outros parâmetros típicos do vídeo digital.

As técnicas são frustrantes para aqueles que achavam que dominavam algum segredo valioso, mas liberadoras em termos de expansão das mídias e dos pensamentos a elas associados. Mérito de quem? Do brilhante e desconhecido desenvolvedor do “script”? De quem ousou “copiar & colar” segundo seus próprios parâmetros de autoria? Estamos de fato na era do “ready-made” digital -em outras palavras, o remix. Vale resgatar então a sensibilidade e a técnica do VJ ou de quem quer que esteja diante dos teclados. Valem seu olhar e sua capacidade de gritar algo ao mundo.

link-se
Pianographique http://www.pianographique.com
Whitney Biennial http://www.whitneybiennial.com
FAQ/feitoamãos http://www.feitoamaos.com.br
I Know Where Bruce Lee Lives http://www.skop.com/brucelee
Paisagem0 http://www.sescsp.org.br/sesc/hotsites/paisagem0/linguas.html
Keyworx http://www.keyworx.org
Electronic Arts Intermix http://www.eai.org

Lucas Bambozzi
É diretor de vídeo e cinema e também atua como VJ.

 
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