2

A despeito do ânimo de Washington Luís, então presidente da província de São Paulo, o monumento não foi construído, e sua maquete ficou depositada e esquecida na Pinacoteca do Estado até 1936, quando o governador Armando de Sales Oliveira retomou os esforços para implantá-lo na cidade.

Decidiu-se que o projeto de Brecheret seria implantado no Ibirapuera, num gesto simbólico que pretendia articular o passado e o futuro do Estado, numa conjuntura política importante em que, passada a derrota militar da Revolução Constitucionalista de 1932, marcavam-se as vitórias políticas contra a ditadura Vargas: Assembléia Constituinte (1933) e a presença de um governador paulista (Sales Oliveira), ao invés de um interventor federal.

Homenagem às tradições bandeirantes do Estado, o monumento ficaria em antigo território indígena, mas marchando sempre em frente, na direção do pico do Jaraguá, antiga bússola dos ”calções de couro“, como conta em suas memórias o poeta e crítico Cassiano Ricardo (também secretário de Pedro de Toledo, governador em 32, e de Sales de Oliveira).

Foi em 1951, quando se constituiu uma comissão mista (Estado, município e iniciativa privada), por decisão do governador Lucas Nogueira Garcez, para organizar as comemorações do Quarto Centenário, que se resolveu que o parque do Ibirapuera seria o presente a ser entregue à população da cidade.

A idéia central que norteou a construção era de ”unir a modernidade urbana através de uma arquitetura arrojada, com um projeto paisagístico não menos avançado“, conforme se lê no site da prefeitura de São Paulo.


Enclave de simbolismos

O arquiteto Oscar Niemeyer foi o responsável pelo projeto arquitetônico. O projeto paisagístico foi entregue a Roberto Burle Marx e Augusto Teixeira Mendes. A operação foi capitaneada por Francisco Matarazzo Sobrinho, mentor, também, da Bienal de São Paulo.

A inauguração do parque, entretanto, atrasou ligeiramente. Prevista para 25 de janeiro de 1954, data do aniversário da cidade, aconteceu em 21 de agosto desse mesmo ano.

Poucas semanas antes disso, no dia 9 de julho (data do início dos combates da Revolução de 32), inaugurava-se o Mausoléu do Soldado Constitucionalista de 1932 (Obelisco), só finalizado nos anos 1970.

A paisagem urbana em torno do parque assumia o perfil de um enclave de simbolismos. Mediada pelo passado colonial, bandeirante ”no espírito“ e indígena na ”origem“, celebrava, porém, duas outras datas caras ao calendário oficial da cidade: 1932 e 1954.

Basta olhar o mapa do parque na planta da cidade. A sudeste está a avenida Quarto Centenário e todo um loteamento de alto padrão contemporâneo à inauguração do parque. A nordeste temos a avenida 23 de maio (data da morte dos primeiros mártires de 32, Marcel, Miragaia, Dráusio e Camargo e antiga avenida Itororó).

Contornando o Obelisco, situado mais ao norte, está o viaduto que leva o nome do general Euclides Figueiredo. Mais próximo do prédio da Bienal fica outro viaduto, esse homenageando o general Júlio Marcondes Salgado. Ambos foram figuras célebres da Revolução de 32.

Na porção noroeste, fica o encontro com o passado mais distante, e o parque se derrama sobre marcos da história nacional. Ficam lá as avenidas Pedro Álvares Cabral, Brasil e o próprio Monumento às Bandeiras de Brecheret.

De antiga aldeia indígena e terreno alagadiço, o Ibirapuera convertia-se num jogo de remissões a momentos históricos distintos, em uma paisagem urbana curiosa que espelha 1932 em 1954 para se projetar no passado colonial e vice-versa, enquanto a cidade de São Paulo celebrava sua inserção no mercado de arte, com a consolidação das bienais, e conquistava o posto de maior centro industrial da América Latina.

Um novo elemento deve entrar nesse mapa, de acordo com as expectativas dos organizadores dos 450 anos. Seria a construção do auditório, patrocinada pela TIM, para o qual já se conta com financiamento de R$ 17 milhões e que, eventualmente, poderia projetar 2004 em 1954, aliando agora a presença de novos capitais e novas relações entre a iniciativa privada e a cultura.

Não se trata, portanto, de ser contra ou a favor da construção do auditório projetado por Niemeyer no parque, ou se o projeto da prefeitura é ”para o bem“, como declarou nossa prefeita e ninguém duvida. Tampouco se pode resumir o problema a uma questão jurídica, recorrendo-se ao que foi e o que não foi incluído no tombamento e que se solucionaria apenas com uma questão de boa vontade e mudança de texto.

O que o auditório do Ibirapuera e a (pouca) polêmica em torno da desapropriação do São Vito, assim como a indiferença em relação à situação do Estádio do Pacaembu (exilado do calendário futebolístico por pressões relativas a contratos publicitários), entre outros fatos, trazem à tona é a necessidade de discussão sobre o que se entende por patrimônio urbano e em que medida está garantido nosso direito à memória.

Esse direito à memória passa necessariamente por uma concepção de patrimônio que interroga as condições de produção social do espaço e das obras. Para tanto, levando em consideração nesses estudos, de acordo com o professor Nestor Goulart Reis Filho, ”os investimentos necessários (e seus agentes), as decisões político-administrativas correspondentes, a capacidade técnica de seus idealizadores e da mão-de-obra especializada, a disponibilidade de materiais e componentes locais e importados, as fontes de financiamento, as possibilidades de uso e o retorno financeiro“. Isso, só para começar...

Defender a construção do auditório recorrendo ao projeto original do parque, sacralizando assim uma nova origem mítica da modernidade paulistana, que residiria em 1954, a fim de construir mais uma representação polêmica sobre a história de São Paulo, ou contrapor-se a sua existência porque o tombamento do parque não o incluía, é vetar a possibilidade de discutir os mecanismos de produção desse espaço no passado e no presente e a legitimidade política desse espectro comemorativo.

Como dizia o mestre Ulpiano na entrevista citada, ”a fragilidade da memória é um ingrediente, parece, da fragilidade política da sociedade, que é ainda uma sociedade do patronato e do clientelismo“.

E sabendo que, além do auditório, teremos também ”fontes multimídia“, coloridas, patrocinadas pelo Pão de Açúcar, adornando o mesmo parque versão 450 anos, defendido tenazmente em nome de nossos ”400 anos“, podemos enfim dizer, relendo o mestre: parece que não mudamos muito.


Leia:

Nestor Goulart Reis Filho. “São Paulo e Outras Cidades. Produção Social e Degradação dos Espaços Urbanos”. São Paulo, Hucitec, 1994.

“A Arte de Pensar o Patrimônio Cultural”. Entrevista de Ulpiano Bezerra de Meneses a José Antonio Segatto, Vera Maria de Barros Ferraz e Roniwalter Jatobá. “Memória”, ano IV, nº 13, outubro 91/março 92. São Paulo, Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo.

link-se
Amarflis Lage Marta reforta lobby por auditório no parque Ibirapuera. Folha On Line, 24/06/2002 - http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u77290.shtml
Prefeitura de São Paulo - São Paulo 450 anos - http://portal.prefeitura.sp.gov.br/noticias/especiais/2003/18_especial
São Paulo, 450 anos - http://anhembi.terra.com.br/450anos
Mauro Mug Implodir ou preservar?. O Estado de S. Paulo, 28/06/2003 - http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/06/28/cid016.html
Roberto Fonseca - Pai do São Vito é contra implosão. Jornal da Tarde, 28/06/2003 - http://www.jt.estadao.com.br/editorias/2003/06/28/ger030.html
Mario Cesar Carvalho - Reforma resgata parque Dom Pedro. Folha de S. Paulo, 29/06 2003 - http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u77606.shtml
Mario Cesar Carvalho - Marta vai comprar e reformar o São Vito, Folha de S. Paulo, 13/08/2003 - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1308200301.htm
Simone Iwasso Prefeitura quer indústrias na zona leste. Folha de S. Paulo, 13/08/2003 - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1208200301.htm
Plano de Reconstrução do Centro - http://www2.prefeitura.sp.gov.br/cidadania/portal/cidadania/reconstruir_centro/0002
Gilberto Dimenstein Direito a paisagem. Folha On Line, 18/04/2003 - http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/urbanidade/gd160403.htm
Gilberto Dimenstein Bar das lésbicas entra na história, 26/03/2003 - http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/urbanidade/gd260603.htm
Parque do Ibirapuera - http://www2.prefeitura.sp.gov.br/secretarias/meio_ambiente/parques/ibirapuera/0001
Ibirapuera Histórico - http://www.prodam.sp.gov.br/ibira/historico.htm
Justiça Libera Contrução de Auditório no Ibirapuera - http://portal.prefeitura.sp.gov.br/noticias/sec/comunicacao_e_informacao/2003/07/0094
Ibirapuera terá fonte cibernética. Folha de S. Paulo, 20/08/2003 - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2108200320.htm

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
2