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Sobre Hélio Oiticica, não posso comentar a montagem, pois quando vi a exposição as maquetes ainda não estavam dispostas (a mesa destinada a elas parecia muito baixa). Mas, em se tratando de um artista deste tamanho numa exposição com estes recursos, pergunto-me por que não montar uma obra maior, talvez algum projeto inédito, desses que foram construídos no Brasil com grande interesse. Fica a pergunta.

Cildo Meireles reeditou uma obra gráfica para o catálogo, que já havia aparecido em uma edição da revista “Trans”. “Ética como Estética, Estética como Ética” (2003) parte de uma reportagem de jornal que trazia fotografias de uma chacina acontecida no Rio de Janeiro em 1996.

As imagens dos repórteres fotográficos Alessandro Costa e Léo Corrêa mostram os corpos de traficantes expostos sobre manilhas de concreto, numa espécie de requinte expositivo. Algumas das manilhas, quebradas, estão apoiadas no chão com a ajuda de pedras, que dão sustentação ao fúnebre pedestal. Sobre as fotos, a manchete: "Exposição Macabra". No fundo das cenas, captadas em uma favela, as pessoas passam a um meio caminho entre dar a atenção ao fato bárbaro e dar continuidade a suas vidas.

A peça de Cildo, funcionando apenas no catálogo e como uma espécie de comentário “post-coitum” à Bienal, discute de maneira precisa a tendência de se estetizar fatos políticos e vice-versa, apontando para a fluidez destes limites. Uma tendência que não é tão estranha à arte e à política contemporânea.

PS: Revisado todo o Brasil em Veneza, algo que ficou me incomodando foi a ausência de artistas brasileiros entre os projetos da exposição "Utopia Station", uma das mais interessantes do arquipélago de mostras de Veneza, com curadoria de Hans Ulrich Obrist, Molly Nesbit e do artista Rirkrit Tiravanija.

A exceção era a imagem de uma obra de Lygia Pape em um dos projetos com cartazes de rua. Como quem já experimentou sabe, o ânimo vital brasileiro é uma experiência entre a utopia e heterotopia. Faltou o Brasil onde ele talvez fosse mais necessário.

Rodrigo Moura
É crítico e jornalista; curador assistente do Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte.

 
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