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dossiê
EM OBRAS

Ruído no politicamente correto
Por Laercio Redondo



"Globos", de Rivane Neuenschwander/Divulgação

A Bienal de Veneza aposta no pluralismo e nas contradições das sociedades "glocais"

Chegar em Veneza é sempre um prazer. O avião se aproximando, a Piazza San Marco, os canais... Ilha de ilusão vista de cima. Mas ir embora é também um alívio. Encanto tem tempo marcado, logo desaparece. Veneza nunca esteve tão quente e úmida nos últimos 200 anos, o que tornou a visita à 50ª Bienal mais exaustiva que agradável.

Bienal e Veneza exibem muitos pontos em comum, principalmente durante a histeria que precede a abertura. A atual edição do evento (aberto até o dia 2 de novembro) talvez seja uma das maiores de sua história. Além do Giardini e das mostras no Arsenale do Museo Correr, a cidade foi invadida por mostras paralelas por todos os cantos, como as chamadas Extra 50. Para agravar a desordem, alguns países têm seus respectivos pavilhões espalhados no lado exterior, o que dificulta muito o acesso. Sem contar a maior dificuldade a ser enfrentada: a arte contemporânea pede "algo" mais que mera contemplação.

A experiência é interessante: esta Bienal confunde nossas idéias, não fecha seu significante numa única visada. Depois da Documenta 11 (que acredito ter sido uma das mostras mais importantes dos últimos 10 anos) e vivendo na Europa já há algum tempo, parecia-me que o mundo das artes andava por demasiado às voltas com os "ativismos políticos". Posições excessivamente claras, com pretensões definitivas, branco/preto, bom/ruim, mas isto invariavelmente (ou quase) visto do alto da janela.

A Bienal do curador Francesco Bonami bagunça todos esses valores. Mesmo para quem não compreende o que se pretende com o tema "Sonhos e Conflitos - A Ditadura do Espectador", prevalece uma opção pelo pluralismo e pela contradição, por isso a necessidade de continuarmos discutindo o hibridismo entre global e local (sociedades "glocais").

Apesar de duramente criticada em função da perda de fôlego no debate conceitual, penso que esta Bienal introduz um ruído no discurso do "politicamente correto", discursos que ficavam girando em torno da identidade do outro, seja ele cidadão da África, da América do Sul, de algum país do Leste europeu. Alguém sabe dizer como o artista deveria se comportar na "nova ordem mundial”?

Em contraste com a Bienal anterior, na qual predominavam os vídeos, este ano evidenciou a inclusão massiva da pintura, mesmo nos pavilhões nacionais. Cabe perceber, em paralelo, a revalorização da escultura; perceber também como obras do “star system” permanecem fazendo figura de centro.

É o caso do pavilhão brasileiro, que apostou no certo, trazendo as obras de Rosangela Rennó e Beatriz Milhazes, artistas reconhecidas internacionalmente. Milhazes mostra pinturas e Rennó exibe a série “Vermelha”, vista em São Paulo na abertura do Instituto Tomie Otake. Com uma montagem impecável, o conjunto desperta interesse.


As (boas) supresas

Os prêmios causaram surpresa. Foi o que aconteceu com o Pavilhão de Luxemburgo, cravado fora do Giardini. Até ocorrer a premiação, não havia sinais de visitação. Na manhã seguinte, uma grande fila de pessoas esperava para entrar. Mesmo que isso nos revele os mecanismos de poder da crítica sobre o espectador, o trabalho em si tem lá sua "poesia": na sala, alguns objetos e dois vídeos magistrais da artista Su-Mei Tse, de ascendência chinesa -tempo e silêncio. Afinal, naquela Veneza quente e dispersa, faz diferença passar e ficar um tempo por ali.

Outro susto: dois ingleses, Olivier Payne (23 anos) e Nick Relph (25 anos) conseguiram levarar o Leão de Ouro para jovem artista (isto é, com menos de 35 anos, para os padrões europeus) mesmo que se dizendo nem um pouco voltados para a "nova arte britânica": apresentam um belíssimo filme feito de tomadas de paisagens urbanas, a periferia, Londres, vida e morte.

"The Structure of Survival", com curadoria de Carlos Basualdo, é uma das mostras paralelas mais interessantes. Investiga a produção cultural frente à vivência da crise. Com uma montagem em tom baixo, esse segmento pede uma duração para que os trabalhos se entreguem -e nós a eles. Nela, a participacão brasileira é simultaneamente generosa e certeira, com Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Marepe, Alexandre da Cunha e Fernanda Gomes.

Dos pavilhões nacionais, o da Dinamarca é unanimidade. Olafur Eliasson, impressiona, embora esbarre no excesso. Uma instalação que mistura "instrumentos ópticos" com preocupações ecológicas. O Canadá está maravilhoso. A artista Jana Sterbak tem uma vídeo-instalação com seis projeções exibindo a mesma cena, provocando uma reflexão acerca da multiplicação da imagem. Uma das coisas que fascina é saber que a câmera está acoplada à cabeça de um cachorro e que a narração termina com uma perseguição a um animal estranho.


Os anticlímax

A exposição "Paintings", curada por Bonami no Museo Correr, pretende investigar a pintura a partir do Prêmio de Rauschemberg, da Bienal de 1964 até hoje, chegando a Murakami. Algumas boas pinturas, mas e daí?

Zarina Bimji, uma das participações mais emocionantes da Documenta 11, está na "Fault Lines", com curadoria de Gilana Tawadoros, mas falta-lhe fôlego dessa vez. Filha de indianos, nascida na Uganda, a família foi expulsa do país por Idi Amim em 1972. Este fato vai marcar todo seu trabalho, que fala da memória e de seus apagamentos, exacerbando o confronto com a impossibilidade de contar "o que de fato aconteceu".

Na Documenta 11, o filme "Out of Blue" tinha uma força enorme, apresentado com algumas fotos. Mostrava seu retorno à Uganda após muitos anos, numa paisagem deserta. Fragmentos do que restou deste lugar nos devolvem o abismo, pistas incompletas de história. Já em Veneza, ver somente as imagens montadas em “back light”, soa quase um deslize comercial.

Outra mostra paralela, "Contemporary Arab Representations", com curadoria de Catherine David, é, digamos, "correta”: uma ante-sala para leitura e uma enorme área jogada na penumbra, com vários vídeos projetados em telões presos ao teto. Aqui de novo a escala da Bienal incomoda, com sua inerente pressão do tempo: como ver tanto em poucos dias? Os bons trabalhos se perdem nessa lógica. David oferece um difícil oceano de informações a ser desbravado. Ora, como se entregar à leitura ou ficar horas diante dos telões? Eis um dos problemas que a percepção da arte contemporânea coloca seriamente ao público. Talvez, em um outro contexto, uma mostra dessa natureza ganhe a justa medida.


Revoluções e ziguezagues

O pavilhão oficial da Itália, "Delays and Revolutions", com curadoria de Bonami e de Daniel Birnbaum, oferece um diferencial. A mostra estabelece conexões entre gerações e continentes. Fala das revoluções políticas e artísticas e expõe uma historização não-linear, muito mais um ziguezague de retornos e recorrências do que uma progressão.

Nesse certame, Rivane Neuenschwander apresenta um trabalho simples, no bom sentido. São cerca de 200 bolas de plástico de diversos tamanhos, que ora recebem pintura automotiva, ora adesivos plásticos. O conjunto evoca as bandeiras de 193 países, assim como as bandeiras de alguns territórios e nações que não existem ou que estão por existir.

Com um trabalho de arquitetura/escultura muito preciso, Gabriel Orozco ganha o espectador no mesmo instante. Há um filme imperdível de Andy Warhol, recentemente restaurado, “Outer and Inner Space”. Duas projeções: uma câmera filma uma adolescente ao mesmo tempo que sua imagem é feita por uma outra câmera. Bastante atual e complexo como toda a obra desse pop do underground.

Felix Gmelin (Suécia) mostra “After Gerd Conradt´s Farbtest”. Mesmo formato de apresentação, duas pequenas projeções: numa delas, rodada em Berlim nos anos 60, no qual o pai do artista é um dos participantes, jovens correm pelas ruas. Um a um, vão trocando uma bandeira vermelha até que chegam à prefeitura da cidade e instalam a bandeira na fachada central. No outro vídeo a mesma ação acontece nas ruas de Estocolmo de hoje, só que ao final a bandeira levada à prefeitura desaparece, jamais aparecendo na fachada. O que nos diz estes dois filmes quando apresentados ao mesmo tempo? Vemos estes homens correndo simultaneamente, mas 30 anos se passaram entre eles. O que teria mudado no nosso entendimento da palavra revolução durante estes anos?

"The Everyday Altered", com curadoria do artista Gabriel Orozco, fica "quase invisível" no meio de tudo (talvez tenha sido proposital). Está localizada no galpão anterior à entrada da "Utopia Station", e é ultraconcentrada. Importante dizer que Orozco optou pelo não-uso das paredes, pedestais, vitrines, vídeo ou fotografia, mostrando também ai um grande diferencial do resto da Bienal.

O texto de apresentação no catálogo diz respeito ao papel do artista. Fala da importância do trabalho diário, de uma forma para descobrir novas maneiras de ver a vida e traduzir isto para a arte. Interessante e sensível, especialmente se pensarmos na Bienal como "espetáculo". Orozco abre novas possibilidades, expõe uma vontade de dividir uma dúvida com o outro.

"Clandestini", outra curadoria de Francesco Bonami, traz bons momentos. Exemplo: a vídeo-instalação interativa de Eva Koch. Espanhola de nascimento, que durante a Guerra Civil foi separada de sua família e adotada por dinamarqueses, a artista descreve o retorno depois de muitos anos à sua cidade natal, atrás de pistas de seu passado.

Outro destaque, Shizuka Yokomizo, japonesa radicada em Londres, também mostra uma video-instalação. O filme, protagonizado por pianistas, é composto de duas projeções: em uma delas as senhoras vão se intercalando, tocando sempre a mesma peça, na outra projeção uma câmera estática filma um fragmento de suas casas.


Já a "Utopia Station", curada por Hans Ulrich Obrist, Rirkrit Tiravanija e Molly Nesbit, reúne, como sempre os mesmos adjetivos: muita informação, em meio a uma grande confusão. Difícil saber quem fez o que, mas até que funciona. Parece um imenso laboratório, um “work in progress” de propostas, algumas muito boas, como a de Super Flex (Dinamarca) com uma "fábrica de guaraná", uma cooperativa na Amazônia que produz guaraná e lança seu libelo contra as multinacionais.

Anri Sala e Edi Rama (Albânia) mostram um filme sobre a revitalização de um bairro por meio da pintura das fachadas. Parte dos trabalhos pode ser acessada pela internet (veja endereço no final deste artigo).

Vale a visita virtual, até mesmo para uma complementação. Pois, se o espectador era ponto central da Bienal, qual o seu sentido, se minha estadia de quatro dias não bastou para ver a metade do que está exposto? O chamado "espectador" realmente fica de fora, perdido, no conceito e no tamanho da mostra. Permanece uma velha questão: para quem interessa ainda o formato de megaexposições?

Laercio Redondo
É artista plástico. Vive e trabalha em Estocolmo (Suécia).

 
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