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Em substituição aos dispositivos disciplinares que antes formatavam a subjetividade, surgem, conforme o livro, novas modalidades de controle que atuam por meio de mecanismos de monitoramento mais difusos, “imanentes”, incidindo diretamente sobre os corpos e as mentes, prescindindo das mediações institucionais antes necessárias, que, de qualquer forma entraram aos poucos em colapso. “O novo regime de controle em espaço liso e aberto se exerce através de sistemas de comunicação, redes de informação, atividades de enquadramento, e é como que interiorizado e reativado pelos próprios sujeitos, no que os autores chamam de um estado de alienação autônoma.” O professor afirmou que nessa nova configuração, “biopolítica designa a entrada do corpo e da vida no domínio dos cálculos explícitos do poder. Vida agora inclui a sinergia coletiva, a cooperação social e subjetiva no contexto de produção material e imaterial contemporânea -o intelecto geral- e significa inteligência, afeto, cooperação, desejo”. Ao descolar-se de sua acepção predominantemente biológica, “a vida ganha uma amplitude inesperada”. É o que explica, segundo Pelbart, a inversão do sentido do termo cunhado por Foucault: “Biopolítica não mais como o poder sobre a vida, mas como a potência da vida”. Definir o Império como regime biopolítico implica em duas coisas: “Reconhecer que nele o poder sobre a vida atinge uma dimensão nunca vista, mas por isso mesmo nele a potência da vida se revela de maneira inédita.” Pelbart desenvolveu essa noção de “vida” tomando o “exemplo do trabalho contemporâneo, pós-fordista. Baseado na informação, na ciência, na comunicação, nos serviços, o trabalho contemporâneo, dito “imaterial”, já não produz só sapatos, mas principalmente informação, conhecimento e imagens. Ele confunde tempo de produção e de reprodução, depende da criatividade coletiva, tende a funcionar em rede e se realizar por meio da cooperação intelectual.

“Mais e mais o trabalho contemporâneo aparece como atividade produtiva da multidão (e não do capital), de sua vitalidade. Nem por isso o trabalho deixa de ser explorado. Pelo contrário, o capital encontra nessa força-invenção disseminada, na potência de vida da multidão, a fonte primordial de riqueza do próprio capitalismo. É a Multidão, e não o Império, em última instância, que cria, gera e produz novas fontes de energia e de valor que o Império tenta modular, controlar, capitalizar. O poder do Império é apenas organizativo, não constituinte, ele parasita e vampiriza a riqueza virtual da multidão. ‘O próprio Império não é uma realidade positiva’, dizem os autores, numa inversão que abre uma poderosa linha de escape para pensar a resistência constituinte.”

Pelbart observou que tradicionalmente o termo “multidão” é usado de maneira pejorativa, indicando um agregado disforme que cabe ao governante domar e dominar. “Povo”, por outro lado, é concebido como um corpo público animado por uma vontade única. Segundo ele, Negri e Hardt, contudo, tomam outra perspectiva. “Numa tradição que, por um lado remonta a Espinosa, por outro se baseia na mutação do trabalho contemporâneo, a multidão, por definição, é pura multiplicidade, é plural, heterogênea, centrífuga. Por conseguinte, ela é refratária à unidade política, não assina pactos com o soberano e não delega a ele direitos, seja ele um mulá ou um caubói. Ela inclina-se a formas de democracia não-representativa. A multidão, na sua configuração acentrada e acéfala, é o oposto da massa. Como bem o lembra Elias Canetti, a massa é homogênea, compacta, contínua, unidirecional, todo o contrário da multidão, heterogênea, dispersa, complexa, multidirecional.”

Para Pelbart, “ao recensear as formas de resistência atuais, desde certos modos de deserção e defecção, de evacuação dos lugares de poder, até a explosão de revoltas virulentas, ora incomunicáveis entre si, ora ‘globalizadas’, os autores de ‘Império’ insistem em que se trata de lutas a um só tempo econômicas, políticas, culturais, ‘biopolíticas’ -pois são lutas que têm por objeto a forma de vida, já que o Império é acima de tudo controle de forma de vida”.

“No entanto, apesar de sua intensidade, e por mais que criem novos espaços e novas formas de comunidade, e pensemos na linhagem que vai de Seattle a Gênova, passando por Chiapas, ou mesmo a mobilização planetária contra a guerra do Iraque, essas revoltas ainda parecem obsoletas”, disse o professor. “É que uma exigência maior se impõe a cada dia: a de ir além da recusa, transpôr o Império para ‘sair do outro lado’. Trata-se de construir, no não-lugar que as desconstruções das últimas décadas deixaram e no vazio que o Império produziu, um lugar novo, a partir da sinergia da multidão, tecendo ontologicamente novas determinações do humano, de vida. A utopia que se entrevê nesse tom a um só tempo cáustico e terno não configura um contorno acabado com cores de um outro mundo, mas apenas prolonga as linhas de força já presentes neste mundo, num telos coletivo e experimental da multidão. Ao invés de utopia, seria mais conveniente falar em desutopia.”

Pelbart vê no livro um variada inspiração conceitual que vai de Maquiavel a Guy Debord, Foucault, Deleuze-Guattari passando por Espinosa e Marx e pela experiência da autonomia italiana. Os autores conjugam desconstrução e afirmação num novo estatuto para filosofia, que deixaria “de ser a coruja que levanta vôo depois do fim da história, afim de celebrar seu final feliz, para tornar-se proposição subjetiva e desejo, praxis”.

“Muitas perguntas ficam em aberto ao final da leitura desse livro, e algumas delas são irrespondíveis teoricamente, como se a resposta só pudesse vir precisamente da multidão, na sua heterogeneidade, no seu hibridismo, no seu nomadismo forçado ou voluntário, no sofrimento e miséria que as novas segmentações do Império produzem a cada dia, naquele ponto em que o poder sobre a vida se revela tão total que faz aparecer, afinal, o seu avesso, um meio de pluralidade poderoso em que o Império soa apenas como um espectro, como a organização do medo, como superstição.”

Pelbart finalizou assim sua análise:

“Num conto conhecido, Kafka relata que o imperador da China manda construir uma muralha para se proteger dos bárbaros, mas essa muralha é feita de blocos esparsos, com lacunas quilométricas entre um bloco e outro, que não protegem de nada nem de ninguém. Em todo caso, de nada adiantaria, visto que os bárbaros já estão acampados a céu aberto no coração da capital, diante do palácio do Imperador. O Império contemporâneo não é feito de trincheiras e muralhas para se proteger dos nômades. O próprio império já é nômade, ou melhor, ele é a resposta política e jurídica à nomadização generalizada, de fluxos de toda ordem. Há algo no funcionamento do Império que é puro disfuncionamento. Como diz Kafka num outro contexto: ‘Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado. Tudo racha e estala como no equipamento de um veleiro destroçado.

Talvez seja esta rachadura, que um livro como Império pode nos ajudar a pensar, com todas as reservas que se possa ter a várias das categorias por ele propostas. Ele pode ser útil para pensar a lógica imanente do poder contemporâneo, e nesse contexto concreto, biopolítico, para repensar a relação entre capital e vida, controle e desejo, política e subjetividade, e mais amplamente, a relação sempre problemática e explosiva entre o poder e a potência, entre o constituído e o constituinte, entre a soberania e a imanência.

Foi isso que nele me interessou, e por isso deixei de lado, aqui, todas as possíveis divergências ou reticências, analíticas, doutrinárias ou estilísticas, minhas ou de seus inúmeros críticos, bem como outras vias interessantes nele presentes para pensar a guerra, o estado de excessão, a polícia global, a militarização atual do psiquismo mundial.

Parafraseando Benjamin, é como se a partir de uma redescrição de nosso presente pós-moderno, esse livro tentasse escová-lo a contrapelo, e examinasse as novas possibilidades de reversão vital que se anunciam. Pois no interior dessa megamáquina de produção de subjetividade e de terror a que se chama Império, o livro prospecta a positividade constituinte e antagônica da multidão, que anuncia novas modalidades, talvez pós-humanas, de se agregar, de combater, de trabalhar, de criar sentido, de inventar dispositivos de valorização e de autovalorização capazes de nos fazer ‘sair do outro lado’ do Império. Negri e Hardt flertam com o demônio, mas para transpô-lo”.


Afonso Luz
É critico de arte e estudante de filosofia na USP.

 
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