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FUSÕES CULTURAIS

O ayahuasca na era do neoxamanismo
Por Ilana Goldstein



Divulgação

A pesquisadora Bia Labate analisa os novos modos de consumo do chá nos centros urbanos

Substâncias alucinógenas são aquelas que, quando em contato com nosso sistema nervoso, propiciam estados de alteração da consciência -em maior ou menor grau. Embora elas tenham chegado à mídia associadas a rebeldes e artistas psicodélicos dos anos 60 e 70, seu uso é muito anterior e muito mais complexo do que se pode pensar à primeira vista.

Na natureza, existem cerca de 100 plantas classificadas desta maneira, dentre as quais a iboga, utilizada por aproximadamente 1 milhão de pessoas na África (e supostamente capaz de induzir um coma); o peiote, cacto amplamente consumido no México, cuja substância ativa é a mescalina; os cogumelos, que já apareciam em registros hindus da Antiguidade, e a ayahuasca, chá fabricado em diversas regiões da América do Sul, a partir do cozimento concomitante de um cipó (Banisteriopsis caapi) e de um arbusto (Psychotria viridis).

Nos quatro exemplos citados -mas também no caso da jurema e mesmo da Cannabis, entre os Rastafari- trata-se de plantas utilizadas no âmbito de rituais sagrados, pautados por cosmologias que lhes conferem sentido. É por isso que os pesquisadores deste campo evitam utilizar o termo "droga" -com conotação pejorativa-, preferindo falar em "plantas de poder" ou "enteógenos".

Este último termo engloba grego "teo" (deus), o que revela o papel que muitas sociedades e religiões atribuem a tais preparados vegetais: facilitar a comunicação entre a esfera humana e a divina, propiciar uma experiência de transcendência sensorial caríssima não apenas às culturas xamânicas, como também a vários segmentos das sociedades ocidentais.

No Brasil, existem três religiões criadas no século 20 que se baseiam no uso da ayahuasca. Todas são bastante sincréticas e combinam, em doses diferentes, desde o xamanismo indígena até o kardecismo, passando pelo catolicismo popular e pela umbanda. Nos rituais do Santo Daime, dança-se a noite inteira no embalo dos "hinários" e do efeito da bebida, produzida em sua sede na Amazônia.

A União do Vegetal, que hoje conta com o maior número de fiéis, organiza rituais mais sóbrios, sem os “bailados”, além de impor regras disciplinares rígidas, como a proibição de beber e fumar. Já a Barquinha, a menor dentre as três correntes e a menos espalhada pelo território nacional, é a única em que a entidade do "Preto Velho", típica dos rituais de influência africana, tem papel primordial.

As três religiões, assim como a extensão e a qualidade da influência -na esfera sagrada ou profana- dos psicoativos sobre nossas mentes, representam, por si só, objetos fascinantes para a antropologia. Mas a pesquisadora Bia Labate, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), opta, em seu novo livro, por um recorte particular e original dentro deste novo campo de pesquisas: analisa as novas modalidades de consumo do chá nos centros urbanos, mais especificamente em São Paulo.

Seu interesse é perceber como práticas e valores "tradicionais", oriundos da Floresta Amazônica, se ressignificam e se adaptam em novos contextos, junto a novos públicos. Não para mostrar como tais práticas estão sendo "desvirtuadas", mas para explicitar os mecanismos da dinâmica cultural -especialmente acelerados e plásticos em nossos dias.

Beatriz Labate é uma das pessoas mais ativas nesta área de pesquisa. Coordenou o Primeiro Congresso sobre o Uso Ritual da Ayahuasca (Iº Cura), em 1997, na Unicamp, uma parceria do Departamento de Antropologia com o Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da mesma universidade. É co-organizadora de duas coletâneas: “O Uso Ritual da Ayahuasca”, com Wladimyr Sena Araújo, publicada em 2002, e “O Uso Ritual das Plantas de Poder”, com Sandra Goulart, no prelo, ambas publicadas pela editora Mercado de Letras.

Em 2001, Beatriz Labate recebeu o prêmio da Anpocs (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais) pela melhor dissertação de mestrado. É sobre este trabalho, que será lançado em breve sob o título “A Reinvenção do Uso da Ayahuasca nos Centros Urbanos”, que a autora conversou com Trópico.

Para além da discussão da experiência profunda propiciada pela ayahuasca e do pastiche simbólico que caracteriza a alta modernidade, um dos maiores interesses do trabalho é sua sinceridade em explicitar dilemas éticos e metodológicos, devidos ao fato de a própria pesquisadora consumir a ayahuasca.


Na introdução de seu livro, você menciona que é “fardada” no Santo Daime, mas optou por estudar novos usos da ayahuasca em “centros terapêuticos” da metrópole. Isso foi uma maneira de driblar o risco de uma identificação total com o seu objeto? Acha que teria tido maior dificuldade para analisar uma religião à qual você mesma é filiada?

Beatriz Labate: Optei por estudar outros grupos ayahuasqueiros devido ao fato de já existir uma razoável bibliografia sobre o Santo Daime e porque a União do Vegetal é um grupo de difícil acesso. Achei que valia a pena abordar algo sobre o qual, até então, nenhum pesquisador havia detido seu olhar: aquilo que denominei "novas modalidades urbanas de consumo da ayahuasca".

Trata-se de pequenos grupos experimentais que utilizam a bebida em atendimento psicoterapêutico, por meio de vivências típicas do universo new age, em contextos relacionado à criação artística -teatral ou musical, por exemplo- e até em atividades com moradores de rua.

Mas esta escolha se deve também ao fato de, naquele momento, eu ter preferido não investigar o próprio Santo Daime, para permitir uma maior liberdade de interpretação em relação a minhas observações e descobertas. Acho que estudar uma prática na qual você toma parte -seja ela o movimento gay, o Santo Daime, a capoeira ou qualquer outra coisa- implica sempre em ocupar um lugar de fala arriscado, que pode trazer vantagens e desvantagens em termos da pesquisa, mas também no plano existencial.

Nunca fui uma daimista muito ortodoxa; desde o início, minha trajetória foi marcada por algumas restrições à instituição, pelo trânsito entre diversos grupos e pela alternância de pesquisa e participação. De qualquer forma, acredito que minha participação foi útil e positiva para a etnografia e tento explicitar por que ao longo do livro.

Você insiste na pertinência de pesquisas interdisciplinares sobre as “plantas de poder”, para que sejam contemplados também aspectos jurídicos e farmacológicos. Poderia contar um pouco sobre o tipo de pesquisa e de polêmica que o uso da ayahuasca suscita nestes dois campos, o do direito e o da medicina?

Labate: Do ponto de vista legal, a DMT, substância presente na folha do arbusto que compõe a ayahuasca, foi proibida pela Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas da ONU, firmada em Viena em 1971, da qual o Brasil é signatário. No entanto, temos uma situação particular, pois houve a compreensão, por parte do governo brasileiro, de que as práticas ayahuasqueiras fazem parte da “cultura amazônica”.

Assim, por meio de um parecer emitido pelo extinto Confen, em 1986, elas deixaram de ser proibidas, ganhando uma relativa legitimidade. Só que esta legitimidade é frágil -no momento, aliás, a disussão foi relançada pela criação de um novo grupo de estudos que analisará o tema. Há ainda outros pontos espinhosos, como a participação dos menores de idade nas cerimônias religiosas. Seria esta uma questão de pátrio poder ou o Estado tem o direito de interferir na decisão?

No que diz respeito à dimensão médica, vale lembrar que, até a década de 50, o discurso psiquiátrico predominante classificava o xamã como um psicótico. As décadas de 50 e 60 foram marcadas por um enorme avanço nas pesquisas científicas sobre os alucinógenos, projeto abortado com a proibição do LSD, em 1966. Houve toda uma série de experimentações com relação a potencialidade das plantas “psicointegradoras” (termo que veio substituir o preconceituoso rótulo “alucinógeno”) no tratamento de diversas enfermidades e males.

Alguns exemplos clássicos na literatura especializada são as experiências oficiais com LSD realizadas pelo psicólogo Timothy Leary, em Harvard, e pelo psiquiatra Humphry Osmond, no Canadá, que reportaram êxito na recuperação de dependentes de álcool e de delinqüentes; Stanislav Grof, por sua vez, realizou vivências de regressão aos estados perinatais através de psicoativos. Enfim, as virtudes médicas e terapêuticas de algumas substâncias permanecem um campo fértil a ser explorado.

Em nossa coletânea “O Uso Ritual da Ayahuasca”, publicamos uma pesquisa interessante, analisando as consequências bioquímicas e psíquicas do consumo da ayahuasca entre membros antigos da União do Vegetal.

Na representação etnográfica, usando suas próprias palavras, “uns têm o poder de observar e falar sobre os outros”. Por isso mesmo, a troca entre sujeito e objeto da pesquisa é fundamental. Você poderia dar alguns exemplos concretos nesse sentido?

Labate: Desenvolvi uma relação de pesquisa muito rica com o Janderson, o principal informante da tese, líder de um grupo new age que é uma dissidência do Santo Daime. Apesar de eu não me identificar pessoalmente com seu trabalho, ele me permitiu viver a minha “jornada iniciática” como antropóloga, a experiência do campo e do estabelecimento de uma relação de pesquisa.

Além do ganho profissional (não fosse a sua generosidade não teria recebido o prêmio), foi um belo laboratório sobre como se relacionar com o outro, o diferente, uma relação pautada pelo reconhecimento das nossas diferenças, pelo respeito e sobretudo pelo diálogo. É interessante mencionar, por exemplo, que dei meu texto final para ele ler e incorporei várias de suas sugestões.

No sentido inverso, acho que minha pesquisa permitiu a ele uma genuína reflexão sobre a sua própria trajetória, o sentido de suas práticas espirituais e profissionais. Minhas perguntas insistentes terminaram por estimulá-lo a elaborar melhor para si mesmo e para seu grupo as suas próprias crenças e práticas. Outra consequência evidente da minha investigação foi a institucionalização e a legalização de suas atividades. Além disso, sendo um homem místico, Janderson afirma que tive um importante papel espiritual na sua vida, mas caberia a ele falar sobre isto.

Um dos aspectos mais fascinantes do neoxamanismo é a questão da “autenticidade”. Enquanto alguns afirmam que se trata de “comerciantes do exotismo”, outros acreditam que a autenticidade simplesmente não existe e que a idéia de “nativo” seria uma invenção da antropologia. Partindo de seu conhecimento, tanto dos usos mais tradicionais, quanto dos mais “pós-modernos” da ayahuasca, o que teria a dizer sobre isso?

Labate: Não se trata de descobrir o "autêntico", nem o "verdadeiro". Esta não é a tarefa do antropólogo. Mesmo porque, se olharmos de perto os universos indígenas e vegetalistas, veremos como é difícil estabelecer o que é "original" -diga-se de passagem, grande parte das religiões já nasce sincrética. A antropologia tem procurado justamente refutar a visão essencialista da cultura. Ela olha a cultura como algo dinâmico, em constante movimento. Mais interessante, portanto, é tentar entender porque todo mundo reivindicar ser o "original", o "autêntico"? Procurei mostrar, em meu trabalho, como há uma rixa de legitimidade, um campo de forças em que se disputam bens materiais e capital simbólico.

Isto posto, o neoxamanismo é aquela porção da Nova Era que faz releituras específicas das tradições xamânicas ao redor do globo, criando uma espécie de "xamanismo universal", muitas vezes com cunho cristão. Esta recriação está fundamentada na apropriação livre e particular que os líderes fazem da literatura antropológica especializada e das publicações esotéricas sobre o mundo indígena.

O neoxamanismo é controverso, por tentar, na opinião de alguns autores, criar uma religião ameríndia única e homogênea, por meio da não-referência às comunidades e etnias e, sobretudo, da ausência de contato com os aspectos obscuros e conflitantes presentes no xamanismo. No outro pólo, "a favor" do neoxamanismo, argumenta-se que esta seria uma forma de colocar os brancos de classe média, ocidentais, em contato com tradições milenares, autóctones, despertando-os para outras sensibilidades, modos de vida, visões de mundo etc.

 
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