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novo mundo
VIDEOINSTALAÇÃO

Um escultor de imagens
Por Giselle Beiguelman



"Vício", de Eder Santos/Divulgação

Instalação de Eder Santos transforma a imagem em matéria e desafia a banalidade das pedras

Eder Santos é um dos mais importantes artistas contemporâneos e certamente a grande referência da videoarte nacional. É dispensável falar de sua sólida carreira internacional e da repercussão de seus projetos na formação de toda uma geração de criadores ligados às novas mídias. Não falta bibliografia especializada sobre o tema.

Sem exagero, Arlindo Machado, um de nossos maiores críticos de imagens, imputa a Eder a responsabilidade por Belo Horizonte ter se transformado na cidade com a maior concentração de videomakers por metro quadrado, funcionando com uma espécie de guru e agente catalisador da produção videográfica brasileira que ainda é, sobretudo, mineira.

Autor de uma obra profundamente marcada por imagens porosas, que parecem guardar “uma concretude pastosa”, como chamou atenção Nelson Brissac, outro importante crítico de imagens, Eder decidiu colocar a nós, espectadores de seus vídeos, na berlinda com uma série de instalações em cartaz na Grande Galeria do Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

Trata-se da “Enciclopédia da Ignorância”, uma espécie de paço dos desesperados que se dá à visitação por meio de um passeio imersivo em “pesadelos da alma, tabus e sentimentos não autorizados”, nas palavras do próprio Eder.

Em um ambiente extremamente escuro, somos de início desafiados, ao som de uma trilha composta por Paulo Santos, do grupo Uakti, a contemplar a beleza das nuvens em um céu azul profundo, tomando cuidado para não pisar em uma poça d’água traiçoeiramente colocada no ponto de aproximação máxima do observador.

Aí está a primeira instalação, ou verbete, da “Enciclopédia da Ignorância”: a “Inveja”, “formas perfeitas, belas e verdadeiras, que se tornam secas e opacas aos olhos cegos de quem as admira com tanta violência”, nos adverte o pequeno catálogo impresso da mostra, ou a versão em papel dessa opressiva enciclopédia.

Desse ponto em diante, o percurso é livre. Aguardam-nos o ciúme, a humilhação, a preguiça, o remorso e o vício. Imagens diferenciadas, que utilizam distintos formatos de projeção e materiais. Desiguais, parecem apenas se unificar no profundo desdém à compaixão com a sordidez humana, demasiadamente humana.

“Humilhação” nos obriga a ficar de joelhos, a contemplar uma cena muda que se move quase imperceptivelmente, num quadro projetado em que um casal e uma criança nos olham de cima, sem se incomodar com nossa presença, soberanos no vermelho que os envolve e nos redime.

Levante-se, respire, “Ciúme” é o primeiro xeque-mate que aguarda o visitante já desconcertado e aflito. Contemple, pense e reflita. São duas cadeiras e uma mesa emolduradas por imagens de fumaça de cigarro que sobem se espiralando no vazio. Silêncio dos aflitos e dos amantes, dor sem alegoria e sem fundamentação. Ciúme...

“Preguiça” quebra o gelo, ou estabelece um intervalo nesse inferno de paixões. Uma pia cheia d’água e uma torneira que pinga. Tudo sob o facho de uma lâmpada perpendicularmente posicionada acima, brincando de tecer imagens na tela líquida que não registra nada, só treme, se move, faz uma bolha aqui, desfaz logo mais. Lânguido deixa estar, deixa passar.

Seguem “Remorso”, instalação menor nesse conjunto poderoso, talvez porque lembre muito “trem-de-terra”, feito durante a primeira edição do Arte/Cidade, no Matadouro, em São Paulo, em 1994, ou porque seja diretamente seguida pela mais desconcertante de todas as estações da “Enciclopédia da Ignorância”, o “Vício”.

Aqui toda a capacidade de Eder Santos de imprimir movimento ao que é estático, de corromper a natureza dura da pedra, de fundir o vídeo ao display, deixando o observador atônito, sem referência, em dúvida sobre o que está vendo chega ao limite.

Obra-prima de técnica de projeção, montagem, edição e exploração daquilo que conferiu ao vídeo o atributo de ser a imagem do tempo, o “Vício” é apresentado sobre um pedaço de mármore muito branco.

Uma piscina de pó branco é projetada. Espessa, aos poucos, vai revelando corpos que se movem, inicialmente, como se estivessem nadando, atravessando um envolvente meio líquido.

Aos poucos, a sensualidade dos gestos vai cedendo espaço a deslocamentos frenéticos, sincopados. Eder usa e abusa de um recurso que sabe usar como poucos: o lag, intervalo entre os frames, que dentro do processo de edição, faz com que as imagens se sucedam pela, paradoxalmente, conservação do movimento, impondo uma certa permanência do que antecedeu um quadro no seguinte, ao mesmo tempo em que roubam fragmentos daquilo que é a cena presente.

Trata-se de um artista para quem a imagem só faz sentido quando traz inscrita o fluxo do tempo, mas um tempo ácido, capaz de corroer a memória pela sua permanência atroz como as que se encenam em “Vício”, derretendo a frieza do mármore, dissolvendo os limites entre a superfície da pedra e o etéreo das imagens convulsivas projetadas.

Siga em frente, a série “4 maneiras de playtear a eternidade” aguarda o visitante, prometendo depurar seu mal-estar, contemplando e brincando com algumas peças como “Memória”, “Máquina de Reflexão” e “Doublê de Corpo”, já conhecidas do público e razoavelmente documentadas no site do artista (confira no “link-se” abaixo).

É sair daí agora, saber que provavelmente não se conseguiu deixar o Palácio das Artes mais próximo da eternidade, mas certamente mais digno, mais ciente dessa nossa vã ignorância que nos permite meio bestamente entender Drummond e, mesmo sem conseguir responder “e agora, José?”, poder ir balbuciando ao longo dos dias: no meio do caminho tinha uma imagem, tinha uma imagem no meio do caminho...

Enciclopédia da Ignorância - Grande galeria do Palácio das Artes, av. Afonso Pena, 1531, centro, Belo Horizonte, tel. (0XX31) 3237-7399. Terça a sábado, 13h/20h30; domingo, 16h/20h30. Grátis. Até 27 de julho. Livre.

link-se
Eder Santos - http://www.uol.com.br/edersantos

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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