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a.r.t.e.
MEMÓRIA
Museus minguantes Governo não tem estratégia clara para organizar acervos brasileiros e as exposições de arte Jean Galard, que recentemente pôde intervir na cena cultural brasileira através da sua consultoria ao NovoMuseu de Curitiba, nos brinda com reflexões sobre uma época “desmuseologizante” no que toca à chamada “crise do suporte” ou da materialidade na qual se assenta a arte atual. Esta materialidade começou a se esvair com o surgimento do cinema e se aprofundou com o advento do “multimídia”. O que representa o museu nesse contexto? “O importante é frisar a função social, educativa e política no sentido amplo. O que constitui o museu é uma relação direta com "objetos" concretos, que podem ser peças antigas, obras contemporâneas ou construções, ou aparelhos, enfim. Isto é a diferença entre a experiência do museu e a do ensino”, diz Galard. Seguramente esta discussão é mais sedutora do que aquela sobre o destino concreto dos nossos museus. Veja-se o que acontece com o Masp: há mais de 30 anos não possui uma política de aquisições para o acervo; recém passou longo período fechado, em reformas infindáveis; ultimamente promoveu uma mostra intitulada “Masp 55 anos - Homenagem aos Doadores” (!?) à qual compareceram minguadas 30 mil pessoas. Para o seu diretor, o problema se assemelha ao enfrentado por um merceeiro: um milhão de pessoas passam diariamente em frente ao Masp e “se tivéssemos mais publicidade, conseguiríamos mais público”. Como justificar então que a Pinacoteca do Estado tenha alcançado sucesso com sua mostra de Albert Eckhout? Ou por que os paulistanos se acotovelam em filas quilométricas para ver, no parque Ibirapuera, “Guerreiros de Xi`an e os Tesouros da Cidade Proibida”? Julio Neves, que dirige o Masp faz uma década, tem lá a sua explicação: "A Pinacoteca pode fazer duas coisas que nós não podemos. Ela tem o salário garantido aos seus funcionários, por ser uma instituição pública, e ela não cobra ingresso". Por outro lado, a revista “Veja” lamenta que a Pinacoteca, “depois de dois anos aberta gratuitamente ao público”, passará a cobrar ingressos. Dupla injustiça com a Pinacoteca... Museus para todos, gratuitos, ainda que não freqüentados, parece ser o confuso desejo universal. Mesmo que as artes contemporâneas em parte prescindam de museus, aqueles formados sob a ótica do patrimônio constituem um bem público e sua sorte diz respeito a quantos de ocupem da cultura. Grosso modo, os principais museus se formaram, entre nós, por doações de legados, por desapropriações ou, ainda, porque obras de arte constituíram aval bancário de empréstimos não saldados em bancos públicos. Os principais museus federais, o Masp e o MAM se enquadram nessas categorias. Todos correspondem a momentos nos quais o Estado e particulares se envolviam em esforços coordenados para produzir museus, ainda que os mecenas tivessem trajetórias controversas, como Assis Chateaubriand). Este modo de constituí-los determinou também o modo de geri-los: uma forma híbrida, onde representantes formais ou informais da burguesia (dos “doadores”) se imiscuem em assuntos públicos sem serem remunerados à altura das funções que desempenham (mais uma “doação” que aparece, agora, como “renúncia pessoal” ou voluntariado...). Em contrapartida, o Estado se exime de organizar carreiras públicas para executivos de museus (diretores, curadores, restauradores etc.), diluindo-se nesta espécie de ação entre amigos. Cenário no qual alguns executivos improvisados se destacam e são disputados entre os vários museus públicos sem que, além da cooptação, haja regras claras de preenchimento das funções mais altas. Por isso mesmo, aqueles “voluntários” que dirigem essas instituições públicas permanecem nos cargos o tempo que desejam, ou o tempo que suas “bases eleitorais” (os conselhos, também constituídos a partir de regras frouxas de cooptação) julguem conveniente. Assim, a maior parte dos museus públicos se converteu em aparato institucional onde o interesse público, para prevalecer, depende do caráter “iluminado” dos seus dirigentes. Vê-se que são instituições frágeis os nossos museus... O primeiro círculo a legitimar esses dirigentes de museus está nas chamadas “associações de amigos”: voluntários especializados em angariar recursos para a sua manutenção e promover as atividades. Mas as associações de amigos se converteram, com o tempo, elas mesmas em tomadoras de recursos governamentais, numa mera instância intermediária para gestão de fundos públicos. Hoje os museus federais tem um custo operacional anual de cerca de R$ 22 milhões, consumidos basicamente em pessoal e custeio. A esse montante somam-se as doações recebidas, que correspondem a cerca de 9% do orçamento (ou seja, algo como R$ 2 milhões) -em geral aplicados em investimentos, como a necessária climatização dos espaços. Quando observamos onde as associações de amigos vão buscar esses recursos, constata-se que, em 2000, a quase totalidade advinha de convênios com o Fundo Nacional de Cultura (FNC) ou projetos do mecenato -em ambos os casos, recursos públicos. Esta é a situação que se observa para os 23 pequenos museus regionais ou locais, 6 museus de médio porte e 5 grandes museus, todos de responsabilidade federal. A falência desse modelo empírico, situado a meio caminho entre a esfera pública e a esfera privada, é evidente. Apesar das várias estratégias de sobrevivência, as carências de pessoal técnico, as necessidades de restauro, de enriquecimento de acervos e, sobretudo, na atração de público são gritantes. Especialistas da área vêem ai o risco de “argentinização” (na Argentina, vários museus foram fechados temporariamente, por falta absoluta de recursos, perdendo-se os vínculos da atividade museológica; depois, para reabri-los, foi necessária mais de uma década de trabalho preparatório). Além do risco interno a esse modelo, ele hoje é ameaçado de fora por um outro, de grande sucesso: o da BrasilConnects, uma instituição privada, organizada empresarialmente e que, com recursos públicos (renúncia fiscal), faz da cultura um negócio vistoso. Assim, o mercado parece reagir melhor a algo como o Guggenheim (um “museu” sem acervo, ou uma grife à busca de licenciamentos) do que ao modelo patrimonialista dos museus brasileiros. O que em parte explica a razão pela qual a Prefeitura do Rio de Janeiro deseja o seu Guggenheim, dispondo-se a se envolver em investimentos estimados em US$ 190 milhões, ao passo que, na mesma cidade, morrem à mingua os principais museus brasileiros. Que a evolução recente tenha contraposto “negócio” e “não-negócio” é compreensível, mas que o Estado não saiba se situar nessa encruzilhada é preocupante. Se a questão principal é a dos recursos financeiros, de onde pode vir a sustentabilidade dos museus? Em primeiro lugar há que se considerar que os principais usuários dos museus brasileiros são os estudantes, em especial do ensino médio das escolas públicas. Mas esta “função escolar” dos museus não garante a eles recursos do Ministério da Educação, já que a cultura se separou, na organização do estado brasileiro, da educação. Existe então um mecanismo informal que propicia a forte transferência de recursos da função cultura para a função educação. Dos quase 400 mil cidadãos que visitaram o acervo dos museus federais no ano 2000, mais da metade eram estudantes, o que permitiria concluir que, proporcionalmente, metade dos dispêndios em serviços dos museus constitui um fundo educacional informal. Em segundo lugar, o governo federal arca com a manutenção de um grande número de não-museus ou “quase museus” de expressão meramente local ou regional, mas que, por imposições políticas, acabaram “federalizados” e onerando o orçamento da União. São imóveis tombados ou casas históricas de expressão cultural local, onde em geral funcionam divisões burocráticas do Iphan (o todo-poderoso órgão que responde pelos museus federais). O custo deste verdadeiro entulho museológico recai sobre as magras receitas destinadas pela União aos museus nacionais. Em terceiro lugar, os sucessivos governos não conseguiram superar a fragilidade dos laços entre os vários museus de modo a organizá-los em sistema nacional com objetivos e metas partilhados, duplicando assim gastos onde economias seriam perfeitamente aplicáveis de um ótica estritamente racional. Mas como vários museus pré-existiam ao MinC e conseguem operar graças a arranjos informais entre suas direções, as “sociedades de amigos” e as várias instâncias governamentais, a sua autonomia é enorme e mexer nela é coisa politicamente arriscada para os governantes. Apesar disso, tanto os dirigentes de museus quanto o governo vivem a elogiar as maravilhas de uma eventual organização sistêmica. Este desejo talvez espelhe a admiração pela memorável instituição francesa, a Réunion des Musées Nacionaux (RMN), que agrupa os 32 principais museus franceses, coordena as suas ações comerciais (réplicas, reproduções, presentes e objetos decorativos; sua política de produção, preços de venda, pontos de venda, licenciamentos etc.) e ainda responde pela organização administrativa e logística da maior parte das exposições (política de empréstimos, co-produções com museus estrangeiros), oferecendo ao público cerca de 25 mostras anuais -quase sempre de sucesso retumbante. Esta instituição existe desde 1930 e sua história confunde-se com a própria história dos museus franceses. Um sistema museológico, porém, não se forma com a soma das partes dispersas: ele é a reunião de todos os museus sob uma nova lógica operacional. Nele, é como se as células se reunissem para formar um novo organismo no qual perdem boa parte da sua autonomia: todos os acervos passam a constituir um só acervo virtual; a política de restauração é unificada, assim como a política de empréstimos, a política de bilheteria e outras políticas de geração de caixa, a utilização dos espaços etc. Em poucas palavras: uma direção unificada se sobrepõe às direções de cada museu. Ora, estes requisitos contrariam frontalmente a lógica atual de operação dos museus brasileiros (nacionais e regionais), onde prevaleceu até hoje o “salve-se quem puder”. Talvez por isso mesmo a primeira “visão sistêmica” dos museus brasileiros não surgiu deles. Veio à luz através de um cadastro nacional elaborado num projeto da USP, por ocasião das atividades relacionadas com as comemorações dos 500 anos do descobrimento. E, apesar da existência desse cadastro, o governo federal não conseguiu, até hoje, firmar um convênio com a USP para transforma o seu banco de dados num recurso gerencial. Mesmo que o novo governo tenha se dado conta de um necessário salto de qualidade, falta-lhe uma estratégia clara para empreendê-lo. As manifestações recentes vão todas no sentido de uma integração sistêmica restrita ao plano da informação (um banco de dados e uma rede), acenando com a possibilidade de criação de novos fundos setoriais no futuro, ficando também para um horizonte distante a revisão da legislação que redefina a configuração do “campo museal”. É difícil imaginar que os museus possam de novo florescer permanecendo sob o guante do Iphan e regados pelos recursos do Fundo Nacional de Cultura ou da Lei Rouanet. Para se renovar precisam de muitos recursos num horizonte temporal persistente, o que é impossível garantir num quadro no qual deverão competir permanentemente com outros domínios culturais onde existem lobbies melhor estruturados como, por exemplo, o cinema. Os museus, desarticulados como se apresentam, sequer conseguem aprender com a experiência recente, como as comemorações dos 500 anos do Descobrimento. Na ocasião, todos eles foram instados pelo MinC a emprestar suas obras para a monumental exposição realizada no parque Ibirapuera, em São Paulo. Apesar do sucesso de bilheteria da mostra, os empréstimos foram totalmente gratuitos para a Associação Brasil 500 anos (futura BrasilConnects). Além de uma integração sistêmica forte nos moldes do modelo francês, precisariam estabelecer uma nova relação com a sociedade: ocupar vazios, como é a maior parte do território nacional, pela multiplicação de espaços expositivos; expandir seus acervos e reorganizá-los de modo a evidenciar aspectos como a diversidade étnica do povo brasileiro (não existe sequer um único museu de arte popular digno desse nome), enveredar por caminhos ainda virgens (como, por exemplo, a arqueologia), enriquecer-se pela incorporação massiva da arte brasileira e internacional do último meio século, habilitar-se tecnologicamente para assimilar os benefícios da era multimídia, expandindo-se pelo universo virtual, e assim por diante. 1 - Ver sua interessante entrevista em Trópico: "Moda e a Crise dos Museus", por Lisette Lagnado. Para ler, clique aqui. 2 - "Folha de S. Paulo", 1 de abril de 2003. 3 - "Veja - São Paulo", ano 36, no. 13, 2 de abril de 2003. 4 - Aspectos dessa política (seus “eixos programáticos”) são antecipados pela "Folha de S. Paulo" em “Gil lançará projeto para integrar museus”, 13 de maio de 2003. |