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CRÍTICA

Duas revistas e os dilemas da arte na USP
Por Felipe Chaimovich

"Número" e "Ars" reagem à carência de publicações sobre a produção artística

Ao lançar simultaneamente as revistas “Ars” e “Número”, a Universidade de São Paulo pleiteia uma nova posição no debate artístico nacional. Reage à carência de veículos especializados sobre o tema, no momento em que o debate brasileiro necessita ampliar os pontos de vista de modo a abarcar uma produção fragmentária e múltipla.

Por outro lado, tais lançamentos evidenciam questão metodológica grave na área acadêmica das ciências humanas: a convergência entre objeto de reflexão e poder sobre a realidade refletida.

A USP modifica a realidade da arte contemporânea ao mesmo tempo em que reflete sobre ela. Instituições como o Museu de Arte Contemporânea, o Centro Universitário Maria Antônia e a pós-graduação em poéticas visuais da ECA criam e consagram eventos artísticos que se tornam objeto de estudo. Assim, a USP intervém na política cultural e avaliza a própria intervenção por meio da teoria universitária.

A “Número Um” mergulha no problema ao tematizar “o circuito alternativo” e a atividade “independente” no meio das arte visuais (pág. 3). A questão é pertinente às atividades recentes do Centro Universitário Maria Antônia (Ceuma), que avaliza a revista: essa instituição tem apoiado ações artísticas que envolvem a região da Vila Buarque, Amaral Gurgel, largo do Arouche e cercanias, além de sediar mostras de artistas universitários e exposições históricas.

O Ceuma incentivou a criação do grupo de jovens críticos de arte que agora editam a “Número”. Assim, o corpo editorial tornou-se parte colaborante nas atividades regulares da instituição subordinada à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária.

Guy Amado abre o debate constatando o aumento recente de movimentações “alternativas à esfera institucional -a museus, galerias e similares, de visibilidade e prestígio inegáveis, mas que pressupõem mecanismos de acesso ou inserção nem sempre ao alcance da maioria” (pág. 4). Tal aumento ou retomada de uma prática “em alta até cerca de 15 anos atrás” (idem) seria, pois, o universo central de discussão da revista.

Contudo o conceito de “alternativo” é tomado como auto-evidente ao longo dos artigos escritos pelo corpo editorial. Como nota o artista entrevistado Rubens Mano: “Não sei se a palavra ‘alternativo’ consegue expressar bem a orientação das experiências realizadas fora do chamado circuito oficial. Além do mais, utilizá-la como contraponto às ditas ‘instituições culturais tradicionais’ me parece um problema de origem, pois oferece um olhar lançado a partir desses espaços, como se esses fossem os centrais” (pág. 11). Assim, a revista corre o risco de reforçar o papel centralizador das instituições oficiais, como o Ceuma que a edita.

A ambiguidade se aprofunda com a crítica de Cauê Alves a duas exposições da série “Cosmococa” (1973), de Hélio Oiticica (1937-1980). Segundo o autor, uma delas iria contra a posição anticomercial do artista, posto acontecer numa galeria, além de reduzir o formato original da instalação a pôsteres.

A outra mostra, no entanto, teria recuperado o sentido da obra, apesar de ocorrer num espaço institucional: “A apresentação de ‘Cosmococa programa in progress’ na Pinacoteca do Estado, mesmo tendo Oiticica uma posição antiinstitucional, não é problemática como a mostra comercial da galeria Fortes Vilaça. Após a morte do artista, sua obra pode ser considerada como patrimônio artístico público; e ao museu cabe (…) exibir o trabalho, colaborando (…) para a formação da história da arte. A obra de Oiticica, respeitada em sua integridade, é muito bem-vinda em nossas ainda precárias instituições culturais públicas” (pág. 9). É, pois, a instituição pública fundamental na compreensão historicamente adequada do legado de Oiticica, inclusive por oposição à instituição privada.

Apesar da clareza dos textos, falta à “Número Um” reflexão sobre o sentido do próprio tema, seja como editorial, seja como artigo de cunho teórico. Opta-se por um aglutinamento de visões recolhidas da empiria, sem a consciência do lugar ocupado numa instituição tão central como a USP.

“Ars”, contudo, enfrenta questões relevantes para o Departamento de Artes Plásticas da ECA, sem perder o horizonte de qualidade acadêmica do periódico universitário. Dois problemas centrais são: a pós-graduação em poéticas visuais e o modernismo como parte necessária da análise historiográfica da arte.

A produção de dissertações e teses sobre a obra plástica dos mesmos pós-graduandos, chamada Poéticas Visuais, gera o problema metodológico de o pesquisador ser simultaneamente autor e objeto da pesquisa. Exemplo dessa posição ambivalente é o ensaio de Norma Grinberg, “Lugar com Arco - Decifra-me ou Devoro-te”, em que a autora interpreta seu trabalho tridimensional em primeira pessoa, tornando indiscutíveis as teses defendidas, pois qualquer ponto de vista exposto se impõe por autoridade documental: trata-se de um depoimento da fonte de pesquisa sob forma de reflexão sobre si.

O editor Marco Giannotti enfrenta o problema no ensaio “A Imagem Escrita”. Analisa extensa bibliografia para defender a possibilidade de o artista universitário “escrever um texto condizente com sua produção visual” (pág. 91). A conclusão do autor é, contudo, vaga e relativizante: “Este diálogo deve ser mantido na medida em que as diferenças entre as linguagens verbais e não verbais sejam cultivadas e que nenhuma forma de expressão advogue para si o monopólio da verdade. O problema que se coloca para todos nós é que, mesmo quando buscamos um discurso autêntico para descrever nossos trabalhos, corremos o risco de não dizer mais do que palavras” (pág. 114). Então qual é finalmente o valor cognitivo da pós-graduação em póeticas visuais?

A editora Sônia Salsztein enfrenta uma segunda família de problemas: a necessidade de inclusão da arte moderna como idade esclarecedora da crítica da arte contemporânea. Segundo a autora: “É inquietante que a maior parte desses textos demonstre cada vez menos interesse não só pelo passado remoto da arte moderna, mas também pelo passado recente desta, que não se interesse em confrontar trabalhos contemporâneos com certas referências históricas da modernidade (…). Fatos como estes sinalizam que terá se obliterado para a crítica contemporânea a perspectiva de operar segundo projetos de longo prazo” (pág. 88).

Contudo, posições divergentes são incluídas. No artigo “Reivindicações de Nadar a Sherrie Levine: Autoria e Direitos Autorais na Fotografia”, Annateresa Fabris propõe uma análise jurídica das primeiras querelas sobre autoria fotográfica para interpretar aspectos da fotografia contemporânea; a arte moderna não é mencionada na análise. Por outro lado, a posição do crítico Arthur Danto é analisada por Virgínia Aita, evidenciando um modelo teórico recente que entende superada a capacidade explicativa do modernismo após a exposição de caixas de sabão em pó de Andy Warhol, em 1964.

“Ars” enfrenta questões relevantes para a atuação da ECA dentro e fora da universidade. Além disso, veicula pesquisas sobre temas como a relação entre arte e ciência nos artigos de Walter Zanini e Júlio Plaza.

O desafio de “Número” e “Ars” é manter a qualidade e a frequência das publicações. O poder institucional da USP sobre a cultura contemporânea exige constante reflexão acerca de limites éticos, posto que a atuação sobre a arte brasileira já é fato.

Felipe Chaimovich
É curador do MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo e crítico de artes plásticas da "Folha de S. Paulo".

 
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