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dossiê
LITERATURA FRANCESA

Gide: o mundo em aberto
Por Guilherme Inácio

O pesquisador Alain Goulet fala sobre a obra de André Gide (1869-1951), autor de "Os Moedeiros Falsos"

Na historia da literatura francesa, é Gustave Flaubert que, de certa forma, inaugura o que poderíamos denominar de “livros para leitores difíceis”: em seus escritos, a trama recua drasticamente para um segundo plano e serão os inúmeros detalhes de composição das cenas que conduzirão a leitura, cabendo ao leitor ter sensibilidade e perspicácia suficientes para recolher tais detalhes e completar o processo de compreensão.

Em “Madame Bovary”, ele descreverá, por exemplo, um mero jantar de um casal infeliz numa cidadezinha esquecida no interior da França. Mas esse tema, banal e insignificante, será composto por tal carga de detalhes e sugestões, que o conjunto da descrição acabará assumindo algo de uma beleza quase inexplicavelmente dilacerante. Como analisou Eric Auerbach, sem que os personagens pronunciem uma única palavra sobre si mesmos, a cena aparecerá profundamente impregnada pelos sentimentos de ansiedade, frustração, desesperança e pavor de Emma Bovary.

A obra de André Gide situa-se nessa tradição de “livros para leitores difíceis”. Ou, nas palavras de um dos maiores críticos de sua obra, o professor Alain Goulet, “todos os finais de obra de Gide dizem a mesma coisa: depende agora do leitor saber entender o que ele leu e deixar que isso trabalhe em seu interior”.

Na entrevista a seguir, Goulet retoma alguns dos principais temas dessa obra, como o tema do desejo, do toque, do homoerotismo, do efeito de abismo e do diário intimo, sugerindo cruzamentos e apontando para um painel de estratégias literárias mobilizadas continuamente por Gide.

Alain Goulet é professor de literatura francesa na Universidade de Caen, na França, e esteve na USP em 2001 para uma série de aulas sobre Gide. Estudioso da obra deste autor há mais de 30 anos, Goulet já publicou vários livros e artigos a seu respeito, dentre eles “Moedeiros Falsos: Modo de Usar” (“Les Faux Monnayeurs: Mode d'Emploi”), sobre o grande romance de Gide que terá publicação próxima em português. Goulet lançou recentemente um CD-Rom de "Os Subterrâneos do Vaticano" (pela Gallimard) e um novo livro de crítica sobre Gide, pelas éditions de Minuit.


O desejo na obra de Gide às vezes verdadeiro impulso de mudanças, de abertura, mas parece representar também um engano e a entrada possível no caminho da destruição pessoal. O que pensa a respeito?

Alain Goulet: A questão do desejo na obra de Gide é ao mesmo tempo fundamental e complexa e seria melhor, creio, abordá-la numa perspectiva histórica e de evolução pessoal.

Até sua viagem ao norte da África, em 1893, a questão do desejo permanecia uma questão tabu. A sociedade que circunda Gide prega uma moral que reprime e subjuga toda veleidade de desejo pessoal. Em 1893, Gide escreve “A Tentativa Amorosa” (“La Tentative Amoureuse”) ou o “Tratado do Desejo Vão” (“Traité du Vain Désir”), cujo titulo já é significativo. Ele tenta, então, se convencer de que o desejo é um engano que só produz cinzas.

Mas, logo depois, sua viagem à África lhe permite não apenas abrir espaço para o desejo, para viver seu desejo, mas também o conduz a enxergar no desejo e na disponibilidade o motor central da ação, da vida e dos prazeres humanos. Gide louvará, então, o desejo nos seus “Alimentos Terrestres” (“Nourritures Terrestres”), onde ele se torna o próprio centro do apetite e da alegria de viver. Assim, antes de Freud, Gide coloca, a seu modo, a libido no centro mesmo da vida humana e de sua progressão.

Só que, depois do momento de afirmação e júbilo, vem o momento da interrogação e da crítica. O desejo, se por um lado ele age sem retenção e sem contrapeso, quando se desencadeia de maneira egoísta, acaba se tornando destruidor do outro e de si mesmo, como Gide mostra em “Saül” e em “O Imoralista” (“L'Immoraliste”). E no seu grande romance que é “Os Moedeiros Falsos” (“Les Faux Monnayeurs”) ele mostrará que a força do desejo pode impulsionar a vida, permitir realizar a si próprio e ser você mesmo, mas que ele deve ser completado pelo sentido de responsabilidade. É esse o sentido do itinerário do personagem Bernard no livro.

Se, de um lado, existe o desejo, com todas suas qualidades e conseqüências, de outro, há também o toque, essa etapa do desejo que tenta se apropriar de seu objeto. Quando se pensa em Gide, lembramos que ele é o autor de “O Imoralista”, de “Os Moedeiros Falsos” e também de “Corydon”, obra em que o desejo homoerótico tem um papel fundamental. Ora, Gide parece ter conseguido justamente realizar algo de grande delicadeza. De forma que um leitor desavisado pode, por exemplo, ler e reler passagens de alta sugestão erótica sem se dar conta de que Gide está tratando do homoerotismo, que o desejo está desempenhando papel principal na cena.

Goulet: O problema do erotismo gideano deve realmente ser tratado com precaução e delicadeza. Ele escreveu certa vez: “Eu, a quem uma simples carícia já satisfaz”. O erotismo gideano esta ligado não ao toque, mas ao olhar. Daí suas evocações tão sugestivas da pele nua das pernas e braços das crianças árabes, da expressão de um rosto, de uma atitude, ou mesmo de estátuas com forte poder de sugestão.

Assim o David de Donattello: “Seu pequeno corpo delicado, de uma graça um pouco frágil e seca -dureza do bronze-; couraças trabalhadas das pernas, que apenas a panturilha aprisiona e de onde a coxa parece sair enternecida”.

O toque, para Gide, se limita em essência às carícias, ele sempre desaprovou um erotismo brutal, erotismo da força e da coerção. O toque, para ele, é antes de tudo o do olhar e do imaginário. Veja, por exemplo, esse pequeno texto inédito que acabam de editar, “O Pombo Selvagem” (“Le Ramier”) : “Eu o retive no seu gesto, eu mesmo pouco vicioso, e contrário a estragar por algum excesso vil a lembrança que ia nos deixar aquela noite”.

Voltando à ambivalência entre poder de mudança e de destruição na obra de Gide, alguns de seus livros representam um mundo excitante, em que o destino de cada um permanece aberto. Nesse sentido, será que o sr. poderia comentar o final extraordinário de alguns desses escritos, como o de “Os Subterrâneos do Vaticano” (“Les Caves du Vatican”), de “Os Moedeiros Falsos” e de “A Volta do Filho Pródigo” (“Le Retour de l'Enfant Prodigue”), dos quais o leitor, após ter percorrido o texto inteiro, sai com a impressão de que não é exatamente o fim do livro, mas que tudo ainda permanece em aberto.

Goulet: No final de seus “Alimentos Terrestres”, Gide diz o seguinte para Nathanaël, para quem o livro foi escrito: “Agora, jogue fora o livro”. De um certo modo todos os finais de obra de Gide dizem a mesma coisa: depende agora do leitor saber entender o que ele leu e de deixar que isso trabalhe em seu interior. Gide nunca impõe nada, sobretudo ele jamais impõe soluções. O que conta para ele é expor problemas e, antes de mais nada, “deixar a pintura bem clara”, como ele diz no final de seu prefácio a “O Imoralista”.

O final de “Os Subterrâneos do Vaticano” é exemplar quanto a isso. O conjunto do romance, ou melhor, da “sotie”, nos envia ao universo da fabula, e Lafcadio acorda de seu sonho para tomar consciência do mundo das realidades da vida. E a obra termina com uma interrogação: o herói permanece livre. A obra abre sobre um potencial que cabe ao leitor imaginar por conta própria.

O final de “Os Moedeiros Falsos” se abre de maneira diferente. Terminamos o ciclo do romance de aprendizagem aberto pela fuga de Bernard e concluído com seu retorno para junto de seu pai. Agora um outro ciclo romanesco pode começar, que é o ciclo de Caloub. Mas é um ciclo potencial, exatamente como no final de “A Volta do Filho Pródigo”, em que o filho pródigo cede seu lugar à aventura potencial do filho mais novo que parte para cumprir seu destino. Assim, a obra de Gide está sempre aberta para o futuro, e aberta também para o leitor.

Esse mundo de abertura é também um mundo de uma crueldade esmagadora: se tudo permanece em aberto, se o desejo está presente e conduz sempre para o futuro, há também aqueles que não vão conseguir nunca dirigir seu próprio destino, aqueles que são muito frágeis para viver tendo de ultrapassar tantas contradições e que acabam sendo manipulados pelos mais fortes ou acabam simplesmente sucumbindo.

Goulet: Essa questão preocupou muito Gide: é a questão do darwinismo social. Tanto em “O Imoralista” quanto em “Os Moedeiros Falsos”, os fortes se saem bem, mas os fracos, que são a maioria, são efetivamente massacrados pela vida. Como Marceline diz para Michel: “Tua moral suprime os fracos”. É a moral que prega Strouvilhou na sua conversa com o conde de Passavant.

Ora, Gide manifesta também carinho pelos fracos e desgraçados, como Casimir e Boris. O que faz falta para eles é um verdadeiro tutor-amante, ponto que nos conduz à moral gideana professada no final de “Corydon”. Moral essa ligada a seu ideal de pederastia com fundamento educativo e pedagogico.

O sr. poderia falar de um dos temas de seus cursos na USP, em 2001, o da “moeda falsa”? Como Gide sai de uma imagem concreta (pequenos foras da lei que falsificam dinheiro) e chega à metáfora das relações humanas no tocante à linguagem, à família, à religião etc.

Goulet: É com efeito um problema realmente central na obra de Gide. Ele constata que as relações entre os homens são frequentemente pervertidas por mal-entendidos, por erros de compreensão dos outros e de si mesmo. De onde se impõe a ele essa imagem da “moeda falsa” que engana as pessoas e falsifica completamente as relações mercantis.

O domínio de Gide, enquanto moralista, é de explorar todas as formas de “moedas falsas” que podem se imiscuir nas relações humanas. Ele descobre desta forma “moedas falsas” no domínio dos sentimentos, da fala e da linguagem, ele estuda a “moeda falsa” dos comportamentos e a que resulta das diferentes maneiras que uma pessoa emprega para enganar a si própria. A “moeda falsa” se encontra, assim, bem no centro da moral, entendida como regulação das relações humanas.

Uma questão clássica para Gide é a do efeito de abismo (“mise en abyme”) e do papel do diário íntimo como instrumento de relativização dos pontos de vista. O sr. não acha que essa questão tem uma certa relação com a maneira bem gideana de encenar o desejo e a questão do toque e da “moeda falsa”? Porque, da mesma forma que não conseguimos nunca “tocar” o ponto central das cenas, que não podemos nunca afirmar: “Bem, agora eu acho que eu entendi a verdade desse livro”, da mesma forma nunca tocamos numa pretensa verdade, mas apenas percebemos uma rede de “verdades” que se movem e, no limite, apenas um quadro de “moedas falsas”.

Goulet: Sua questão é bastante complexa. O efeito de abismo desempenha um papel duplo com efeitos um tanto contraditórios: por um lado, ele focaliza um elemento essencial da história narrada, mas, por outro, se distancia dele, como se preparasse para o narrador e para o leitor uma oportunidade de crítica.

Você tem razão: Gide desconfia de todas as formas de afirmações simples e do engano que consiste em crer que se pode tocar a realidade, a verdade, possuí-las. Ele mobiliza, então, todo dispositivo capaz de relativizar as pseudo-realidades para dar lugar às diferentes formas de interrogação, para preparar um espaço para o pensamento e a reflexão. E o caso do efeito de abismo (“mise en abyme”) como inserção de um diário que permite, como você mesmo disse, deslocar e relativizar os pontos de vista.

No ano passado, o sr. publicou, pela editora Gallimard, um CD-Rom com o corpus manuscrito do romance “Os Subterrâneos do Vaticano”. Será que você podia descrever o conteúdo dessa publicação?

Goulet: Esse CD-Rom, que apresenta pela primeira vez a forma integral de uma edição genética do livro, é uma soma bastante rica que responde a vários objetivos. Tratava-se inicialmente de publicar integralmente notas, rascunhos e manuscritos da obra, excepcionalmente abundantes, e de ordená-los num prototexto.

O CD-Rom permite reproduzir os fac-símiles, transcrevê-los, possibilitando uma consulta clara e fácil. Ele é um vasto conjunto de tudo o que podemos juntar como documentos da obra: arquivos de imprensa, bibliografia, história da gênese etc. Ele também permite a publicação de outros textos inéditos, como o de um roteiro de filme sobre “Os Suberrâneos do Vaticano”. Enfim, ele acabou me permitindo apresentar as características principais da “sotie”.

 
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