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dossiê
LITERATURA FRANCESA

Banalidade e outros poemas
Por Charles Cros
Traduções de José Machaddo Sobrinho

Charles Cros (1842-1888) foi poeta, escritor e inventor. Os surrealistas o elegeram como um de seus inspiradores.

Banalidade

Um mar de dinheiro nos cobre tudo
Com sua corrosiva maresia.
Até o fim se espera herdar, sortudo,
O legado de um tio ou de uma tia.

Nada vem. Nosso cérebro, contudo,
Nos fervilha a Idéia, em banho-maria.
E morreremos. Sobram os polpudos
Financistas e sua economia.

Premido ao vil metal que nos malfada
E a que toda esperança em vão se inflama,
Martela só meu coração pancada.

Mas, os reis da indiferença, o ouro, o cobre,
Fundidos, depois frios, ainda cobrem
O lírio mortuário e a verde grama.

Banalité

L'océan d'argent couvre tout
Avec sa marée incrustante.
Nous avons rêvé jusqu'au bout
Le legs d'un oncle ou d'une tante.

Rien ne vient. Notre cerveau bout
Dans l'Idéal, feu qui nous tente,
Et nous mourons. Restent debout
Ceux qui font le cours de la rente.

Étouffé sous les lourds métaux
Qui brûlèrent toute espérance,
Mon coeur fait un bruit de marteaux.

L'or, l'argent, rois d'indifférence
Fondus, puis froids, ont recouvert
Les muguets et le gazon vert.


Fiat Lux

Ele sai quando o sol já se pôs no horizonte.
Traz um grande bastão. Dupla ogiva, o arco da ponte
Molda a água cor das penas de um galo. O ar bafeja
Quente e nem um puto de tostão pra cerveja!
Em cada poste, atrás de si, deixa uma lua;
É o humilde acendedor de lampiões da rua
Que, chegando pra sopa, que a mulher lhe fez,
Abraça-a, ao brilho de uma vela de seis réis;
Sem crer - santa ignorância, quanta nescidade!
Que empinhocou de diamantes toda a cidade.


Fiat Lux

Il marche a l'heure vague ou le jour tombe. Il marche,
Portant ses hauts bâtons. Et, double ogive, l'arche
Du pont encadre l'eau, couleur plume de coq.
Il a chaud et n'a pas le sou pour prendre un bock.
Mais partout où ses pas resonnent, la lumière
Brille. C'est l'allumeur humble de réverbère
Qui, rentrant pour la soupe, avec sa femme assis,
L'embrasse, éclairé par la chandelle des six,
Sans se douter, aucune ignorance n'est vile
Qu'il a diamanté, simple, la grande ville.

O Arenque Escalado

A Guy

É uma enorme e alva parede - nua, nua, nua,
Contra a parede uma escada - alta, alta, alta,
E, ao chão, o arenque moqueado - seco, seco, seco.

E ele vem tendo às mãos - imundas, imundas, imundas,
Martelo, um prego - pontiagudo, pontiagudo,
E um rolo de barbante - grosso, grosso, grosso.

Então ele trepa à escada - alta, alta, alta,
Finca o prego pontudo - toque, toque, toque,
Bem ao alto da parede alva - nua, nua, nua.

O martelo lhe escapa às mãos - e cai, cai, cai,
Ao prego amarra o barbante - longo, longo, longo,
E ao fim o arenque moqueado - seco, seco, seco.

Depois torna a descer da escada - alta, alta, alta,
Feito as pazes com o martelo - rude, rude, rude;
E vai-se embora, some - longe, longe, longe.

Depois o arenque moqueado - seco, seco, seco,
À ponta do barbante - longo, longo, longo,
Balança lentamente -sempre, sempre, sempre.

Compus esta historinha - simples, simples, simples,
Para enfezar o pessoal - sério, sério, sério,
E entreter as criancinhas - puras, puras, puras.


Le Hareng Saur

A Guy

Il était un grand mur blanc, nu, nu, nu,
Contre le mur une échelle, haute, haute, haute,
Et, par terre, un hareng saur, sec, sec, sec.

Il vient, tenant dans ses mains, sales, sales, sales,
Un marteau lourd, un grand clou, pointu, pointu, pointu,
Un peloton de ficelle, gros, gros, gros.

Alors il monte à l'échelle, haute, haute, haute,
Et plante le clou pointu, toc, toc, toc,
Tout em haut du grand mur blanc, nu, nu, nu.

Il laisse aller le marteau, qui tombe, qui tombe, qui tombe,
Attache au clou la ficelle, longue, longue, longue,
Et, au bout, le hareng saur, sec, sec, sec.

Il redescend de l'échelle, haute, haute, haute,
L'emporte avec le marteau, lourd, lourd, lourd;
Et puis, il s'en va ailleurs, loin, loin, loin.

Et, depuis, le hareng saur, sec, sec, sec,
Au bout de cette ficelle, longue, longue, longue,
Très lentement se balance, toujours, toujours, toujours.

J'ai composé cette histoire, simple, simple, simple,
Pour mettre en fureur les gens, graves, graves, graves,
Et amuser les enfants, petits, petits, petits.

O Proprietário

Nascido lá nos cafundós do judas,
Cedo a pegar na enxada, sem ajuda,
Ganhou assim seu primeiro salário.
Mísero, sem vontade, sem idéia;
Esta foi a medíocre estréia
Do proprietário.

Quando progrediu mais, com alguns francos,
Ele conseguiu comprar os tamancos
A quarenta paus o par ordinário;
E foi lá o coração nas alturas,
Nada que aí lembrasse esta figura
De um proprietário.

No início, para defender o pão,
Vende peles de coelho a um balcão.
Na ânsia de lucrar, sem ser perdulário,
Não gasta o cobre facilmente
Porque é muito inteligente
O proprietário.

Se algum fofo rostinho brincalhão
A bolsa lhe sondando e o coração,
Forçava-o a um gesto nobre, um comentário...
Sem se fiar no futuro,
Logo se esquiva seguro
O proprietário.

Seu pé-de-meia, no início, mesquinho,
Foi com o tempo dobrando de mansinho
Nesses rolos do seu ofício diário.
Pois, de acordo com a lei,
Seu ouro o torna um quase-rei,
O proprietário.


Le propriétaire

Né dans quelque trou malsain
D'Auvergne ou du Limousin,
Il bêche d'abord la terre.
Humble, sans désir, sans but;
C'est le modeste début
Du propriétaire.

Dès que les temps sont plus beaux
Il achète des sabots
A quarante sous la paire
Et part, le coeur plein d'espoir.
Il n'a pas l'air, à le voir,
D'um propriétaire.

D'abord pour gagner son pain
Il vend des peaux de lapin.
Quoique ce commerce altère,
Il ne boit pas son argent
Car il est intelligent,
Le propriètaire.

Si quelque minois moqueur
Lorgnant sa bourse et son cœur
Forçait la consigne altière!...
Sans escompter le futur
Il résiste et reste pur,
Le propriétaire.

Son magot d'abord petit
Tout doucement s'arrondit
Dans le calme et le mystère,
Puis, d'accord avec la loi,
Son or le fait presque roi,
Le propriétaire.

Quatorze Versos a Victor Hugo

Tendo já dito tudo, a dar todas as provas,
E celebrado mares, rios, montes, covas,
E com as rimas de bronze eternamente novas
Tendo já padecido as provações mais torvas,

Deve hoje o velho Poeta receber glorioso,
(Não deixem desconfiar-lhe o olímpico repouso)
Os Louros, o Laurel tão justo e respeitoso
Com que a França lhe exalta o gênio luminoso.

Ramos às mãos. Canções. Alegria completa.
Não importa se a festa o sossego lhe afeta,
Porque este homem, além de bom, ainda é poeta.

Como que, rindo, e as mãos a estender, de imediato,
Aos perseguidos tão acuados feito ratos,
Victor Hugo, tu hás de nos sorrir de fato.


Quatorze Vers a Victor Hugo

Ayant tout dit, ayant donné toutes les preuves,
Ayant tout remué, mers, monts, plaines et fleuves,
Dans ses rimes d'airain éternellement neuves
Ayant, toutes, subi les mortelles épreuves,

Le vieux Poète doit recevoir aujoud'hui,
Sans laisser deviner son olympique ennui,
Les lauriers, l'olivier qu'on a coupé pour lui
Dans notre douce France oú son génie a lui.
Ne craignons pas, rameaux en mains, musique en tête,
De troubler son repos par la bruyante fête,
Puisque cet homme est bon, encor plus que poète.

Et comme, en souriant, toi seul tendais les bras
Aux vaincus porsuivis, traqués comme des rats,
Je crois, Victor Hugo, que tu nous souriras.

Testamento

Se a minh'alma é clara feito a candeia
Que vai se expirando sem combustível,
Se no alto meu espírito volteia
Igual a um molambo irreconhecível,

Se me mofo, precioso, irredutível,
Sem sífilis, sem tara, o sangue às veias;
Se a gagueira estúpida e incorrigível
À fala persuasiva me entremeia,

E se eu morro, ébrio, a um canto sem ninguém,
É que a minha pátria é alem, e está bem
Longe da França, além de tudo o que há.
Não se preocupem, não é preciso;
Não maldigo nada, pois um paraíso
Vasto se abrindo me emudecerá.


Testament

Si mon âme claire s' éteint
Comme une lampe sans pétrole,
Si mon esprit, en haut, déteint
Comme une guenille folle,

Si je moisis, diamantin,
Entier, sans tache, sans vérole,
Si le bégaiement bête atteint
Ma persuasive parole,

Et si je meurs, soûl, dans un coin
C' est que ma patrie est bien loin
Loin de la France et de la terre.

Ne craignez rien, je ne maudis
Personne. Car un paradis
Matinal, s'ouvre et me fait taire.


Charles Cros
Traduções de José Machaddo Sobrinho






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