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novo mundo
VIDEO

Imagens vivas
Por Christine Mello



Grupo Feito a Mãos/Reprodução

VJs reinventam a cena eletrônica e atualizam o cinema do início do século 20

No manifesto do “Cinema Futurista” de 1916, Marinetti e amigos declararam a habilidade do cinema de sintetizar todas as artes tradicionais. Isso porque, naquela época, esta linguagem era ainda muda. Até o final dos anos 1920, fazer cinema correspondia a um exercício de articulação visual ou ao gesto de sincronizar música à imagem e pensar o espaço-tempo da sala de exibição e da projeção como puro êxtase sensório.

Até chegar a esse grande avanço das salas construídas especialmente para suas coreografias de formas, o cinema, conforme observou Arlindo Machado em “Os Primórdios do Cinema: 1895-1926”, se concentrava em casas de espetáculos de variedades, como os “music-halls” ingleses, os café-concerto franceses e os “vaudevilles” americanos, onde se podia também comer, beber e dançar.

Nesse período, portanto, o filme era uma entre outras várias razões que faziam com que as pessoas compartilhassem esses ambientes de convivência tão popular nos grandes centros urbanos.

Hoje, depois de Gene Youngblood ter proclamado, ainda nos anos 1970, a expansão do cinema para as formas expressivas do vídeo e do computador, encontramos, de certo modo, a realidade desse cinema do início do século 20 reconfigurada nos ambientes das pistas de dança e nos modelos de apresentação dos DJs e dos VJs.

Fruto das confluências do vídeo com a cena eletrônica, esse tipo de trabalho, denominado videoperformance em tempo presente, “live images”, de acordo com o VJ Luiz Duva, ou “vídeo ao vivo”, diz respeito à manipulação/edição de imagens em tempo real e responde às demandas e estratégias a que recorrem os criadores em torno de novas modalidades de fruição e apresentação do vídeo, já que é a partir do ato presente e na ordem do acontecimento que residem suas ações.

Para os VJs, o que está em jogo é a busca visual de múltiplas dinâmicas e narrativas de se processar a música eletrônica e de novos mecanismos de interação do espectador com a obra. Ao incluírem a participação do público como parte inerente à construção dos sentidos, à linguagem do tempo real e o tempo ao vivo em seus trabalhos, passam a se caracterizar pela prática de uma arte não-objetual, transitória, impermanente, em detrimento de uma arte relacionada a um produto específico (como um videoclipe), ao resultado final de uma obra ou à atitude contemplativa do espectador.

É possível verificar aqui a quebra da idéia do vídeo como uma arte fixa, unidirecional, propícia ao acabamento, e um direcionamento para um discurso estético livre da dependência do objeto, considerado efêmero e descontínuo, que rompe com o próprio ato da contemplação e o conceito tradicional de autoria, inserindo aí as noções de colagem, apropriação e sampling de imagens e provocando a mistura entre a arte e a vida em sua elaboração.

Seguindo uma lógica do imprevisto, do acaso e da aleatoriedade, já preconizados na literatura por Mallarmé, nas artes visuais pelo dadaísmo e pelo Fluxus, e na música tanto pelos improvisos do jazz, quanto por John Cage e Pierre Boulez, há a manipulação e reordenação das imagens em tempo real a partir da seleção de um banco de dados preexistente (formado por elementos apropriados ou não).

Esse processo ocorre de forma conjunta à sincronia com a música e à interação do público com o ambiente sensório, ou com a pista de dança. Há também a sensação participativa, de se estar imerso no ambiente, de perceber que as variações entre o ritmo do som, das imagens e da vibração do público fazem os sentidos serem construídos de modo conjunto. Como em uma performance, cada recombinação é única, não existindo um padrão ou uma estrutura fixa de manipulação entre os elementos constitutivos do trabalho.

Isso redunda em novos modos de estranhamento nas práticas estéticas, principalmente no que se refere à presença do vídeo no ambiente digital. Como sabemos, até a instância da reprodução analógica, persistia o paradigma da matriz técnica e da perda de informação e qualidade, mas a partir da instância digital não há mais a perda de informação e qualidade, e, portanto, não há mais também o caráter de matriz neste tipo de proposição de arte.

É possível perceber (nesse universo contemporâneo de convergência generalizada das mídias) que o vídeo no cenário da música eletrônica participa desta nova realidade como experiência estética capaz de reconfigurar cada vez mais as apropriações ocorridas entre a matriz e a cópia, a partir de transcriações do meio videográfico em outras formas e estratégias de estruturação dos trabalhos.

Num contexto cultural em que a tela não é considerada mais “um simulacro da alma do mundo ou mesmo uma metáfora da transparência destinada ao saber, mas uma mesa de conversão input-output, uma mesa de comutação da informação e do capital, sobre a qual as imagens deslizam como dados”, tal qual escreveu André Parente, as ações do vídeo ao vivo oferecem um primeiro contato, ou mesmo um momento de experiência e convivência com as condições estéticas impostas pela arte neste limiar do século 21.

Os trabalhos constituídos nesses ambientes sensórios do vídeo ao vivo são como se fossem videoinstalações reconfiguradas, trazidas à luz pelo espírito da arte/vida. Dizem respeito à questão do rompimento da hegemonia do gesto contemplativo na arte, à inclusão de múltiplos pontos de vista e ao corpo como um todo, em estado de deslocamento, inserido no contexto de significação do trabalho. Compreende um momento da arte de supressão do olho como único canal de apreensão sensória para a imagem em movimento. Neste processo, reinsere-se novamente de modo radical a idéia de desmaterialização, dos procedimentos imersivos e do ato artístico como abandono do objeto.

Experiência sensória e vivencial de espaço-tempo, este é o projeto conceitual do qual o trabalho dos VJs se ocupa. Por isso, tratam de recuperar a idéia de ambiente relacional na arte, uma situação que requer trocas, intercâmbios, como uma verdadeira rua de mão dupla. Em síntese, fazem com o vídeo aquilo que Mario Pedrosa indica ter feito Hélio Oiticica com as artes plásticas: rompem com a sua aristocracia diante do visual, conduzindo, dessa maneira, as práticas videográficas a novas formas participativas e interativas de relacionamento com a arte.

link-se
Angelo Palumbo - http://www.artgaragem.com.br/clip/paginas/palumbo.htm
Bijari - http://www.bijari.com.br/
Feito a mãos (André Amparo, Chico de Paula, Cláudio Santos, Lucas Bambozzi, Marcelo Braga, Ronaldo Gino, Rodrigo Minelli)- www.feitoamaos.com.br
Lucas Bambozzi - http://comum.com/diphusa/
Visual Radio (Spetto) - http://www.visualradio.com.br/
Live Images - Luiz Duva

Christine Mello
É pesquisadora no campo de artemídia. Foi curadora-adjunta da 25ª Bienal de S. Paulo (setor net arte – Brasil).

 
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