CINEMA
Glauber Rocha em DVD, por Humberto Pereira da Silva
1
a.r.t.e.
FOTOGRAFIA

Face a face com Bavcar
Por Lucrecia Zappi



Evgen Bavcar/Divulgação

"O Brasil é da cor vermelha”, diz o fotógrafo esloveno, cego desde os 12 anos de idade

A obra do fotógrafo esloveno naturalizado francês Evgen Bavcar busca as relações possíveis entre a visão, a cegueira e a invisibilidade. Completamente cego dos dois olhos, Bavcar constrói as imagens fotografadas através de uma relação verbal com quem enxerga as fotos. É através do relato dos outros que surge para ele um universo ordenado à distância, mas capaz de alcançar uma intensidade espiritual ao resultar na obra de alguém que se apropria de algo que não vê. Recontar o que há no papel é, para Bavcar, uma maneira de transcender a imagem.

A três dias da abertura de sua exposição em São Paulo, Bavcar (pronuncia-se "Bauvchár") sentou-se num banco e espalhou suas fotografias em torno de si e das poucas pessoas que o acompanhavam na montagem. O fotógrafo, que participou do documentário "Janela da Alma", está no país pela quarta vez e, entre as séries que trouxe, há imagens feitas anteriormente no Brasil.

São 50 fotografias em filme preto e branco e uma série com oito imagens coloridas, além de documentários sobre o artista. Esta exposição, que tem o nome "Evgen Bavcar em Diagonal", foi inaugurada no dia 15 de maio e fica um mês no Centro Universitário Maria Antônia. Em agosto deste ano deve ser lançado pela Cosac & Naify um livro com fotografias e textos do próprio Bavcar, organizado por João Bandeira e Elida Tessler.

O fotógrafo, que nasceu em 1948, perdeu a visão aos 12 anos após dois acidentes consecutivos: uma queda que deixou cego do olho esquerdo e, meses depois, uma explosão de mina de guerra que feriu seu olho direito. Aos 16 anos fotografou pela primeira vez e, quando percebeu que poderia possuir uma imagem fixada num filme que não podia ver, gostou.

Antes de clicar, tenta captar ao máximo a imagem que está sendo construída. Para ter um controle melhor da luz, por exemplo, trabalha em geral à noite, com a ajuda de holofotes. O foco automático pode ser útil, mas Bavcar consegue, através das mãos, marcar a distância entre o objeto e a câmara. Para fazer retratos, eleva a câmara na altura dos rostos, guiado pelas vozes das pessoas.

Bavcar, muito bem humorado, respondeu à entrevista a seguir num misto de espanhol e francês. Com sua característica combinação de sobretudo, chapéu de abas largas e óculos com lentes transparentes, falou sobre sua obra e seu simbolismo, sua experiência com as cores, com a memória, com a perda da visão e sobre os seus próximos projetos.


Se o senhor não vê, como enfrenta a distância que o separa da imagem das coisas?

Evgen Bavcar: Narciso morreu afogado porque não compreendeu que entre ele e a imagem existe a água. Eu sei que entre eu e a imagem há o mundo, há a palavra dos outros, uma grande distância. Entre as imagens reais que tenho. Há uma distância intransponínel de 40 anos de minhas recordações da Eslovênia. Não há perigo de morrer dessas imagens, porque não sou tonto como Narciso. Sou Narciso sem o espelho. Para mim, as imagens existem também através do olhar dos outros, que me falam, que me trazem, que me permitem ver.

O senhor tem então uma relação fundamentalmente verbal com o seu trabalho?

Bavcar: Claro, a palavra é uma parte da imagem. Tem a parte da palavra da imagem que é a parte da noite, do conto, da rapsódia grega que conta as coisas, e há a parte da imagem, que é a luz. Por exemplo, Deus antes de fazer a luz vivia muito solitário nas trevas, mas havia a palavra. Depois com a luz tinha também a imagem, que é a primeira imagem de Deus. O primeiro ícone de Deus é a luz. São Paulo, por exemplo, diz que nós vemos Deus através de um espelho, de uma imagem, mas na eternidade estaremos face a face. E estar face a face significa um outro registro das percepções.

O senhor também se encontra face a face com a memória?

Bavcar: Eu estou verdadeiramente face a face com as imagens da minha infância e posso falar dessas imagens com as pessoas da minha cidade, mas não das mesmas imagens, por pertencerem a uma memória muito pessoal. É uma memória da transcendência e imanência do meu corpo. Se outra pessoa me descreve uma foto, esta foto está em transcendência através do olhar do outro. Se eu fotografo uma pessoa, eu não verei nenhuma vez essa foto diretamente, e isso significa que essa foto é de uma trancendência inacessível, porque não é profanada com o meu olhar. Pode vir a ser profanada com o olhar dos outros, mas não com o meu olhar. Compreende isto? Sempre no invisível, sem o olhar físico. Com o terceiro olho eu vejo, mas não com estes olhos.

Por que o senhor fotografa quase sempre à noite?

Bavcar: Prefiro a noite porque o parâmetro noite é seguro para mim (risos). Posso controlar melhor a luz à noite.

E de manhã? O que o senhor fotografa?

Bavcar: Eu gostaria, se tivesse mais tempo aqui no Brasil, de fazer uma série de árvores que têm, para mim, uma simbologia muito forte (como o pau-brasil).

Como perdeu a visão?

Bavcar: Aos 12 anos, com um acidente perdi meu olho esquerdo. Um ano depois, com um detonador de minas, perdi o direito. Conhecia muito bem os fuzis, todas as armas, mas não detonadores de minas. Graças a Deus eu estava sozinho.

Ficou cego instantaneamente? Vê ainda alguma coisa? Vultos?

Bavcar: A cegueira chega pouco a pouco. Foi um adeus longo, de oito meses. Tive tempo de por em minhas caixas de recordação muitas coisas. Oito meses é pouco e é muito. É importante dizer adeus. É como abandonar uma mulher bonita numa estação de trem. O trem que vai para um túnel, onde, no fundo, há uma pequena luz. Essa luz é a do espírito, da interioridade. Esta é uma experiência muito pessoal que agora revivo por causa do meu trabalho com cores.

O senhor tem memória das cores?

Bavcar: A cor chega de longe. Sim, todas. Tenho uma palheta das cores da minha terra natal. Do que vi na minha infância. Faço um sistema de referências com essas cores. Posso associá-las a outras descrições. Por exemplo: é verde como a erva ao lado do rio durante a primavera, é castanho como o objeto da minha infância, é branco e cinza como uma determinada pedra que me lembro. Ou seja, minha palheta de cores das percepções das coisas da Eslovênia. Com esta palheta eu posso colorir todo o mundo.

O senhor sonha em cores?

Bavcar: Quase sempre em cores, às vezes em monocromos.

Como é viver em Paris?

Bavcar: Paris é uma cidade que cansa muito, mas é cosmopolita, o que é bom. Não é fácil viver em Paris porque é muito fria como cidade e as pessoas podem ser individualistas. Não é como antes, com os grandes tempos do surrealismo ou do existencialismo, mas é uma cidade de contatos. Eu sou naturalizado francês e uma coisa que eu gosto muito é o respeito pela cultura. Esta é grande qualidade da França.

Além destas fotos feitas no Brasil, o senhor tem outro projeto para ser realizado aqui?

Bavcar: Sim, é uma idéia conceitual, ligada à minha experiência. A última cor que eu vi foi o vermelho através de uma saia vermelha de uma menina fantástica na Eslovênia, que eu tive de olhar muito de perto, quase encostando os olhos na saia. Viajando com a TAM, encontrei uma aeromoça também com saia vermelha, como na minha última recordação da cor. Tenho vontade de fotografar o pau-brasil ao lado de uma brasileira que usa uma saia vermelha. O Brasil tem a cor vermelha.

O senhor, para falar de sua obra, cita Narciso, e carrega um espelho em forma de broche no peito. Por quê?

Bavcar: Muitas mulheres me perguntam com o olhar em silêncio: "Estou bonita, não estou bonita?". Eu não posso responder rapidamente como os outros, com um gesto, com uma ação. Para não deixá- las frustradas, carrego este espelho (risos).

Quem pergunta? A mulher brasileira?

Bavcar: Não, todas as mulheres. Também os homens. As brasileiras são mulheres muito simpáticas e femininas. Quero muito fazer uma série, a partir da idéia do meu amigo Adalton Novaes, das mulheres brasileiras, que se chamará "As Últimas Mulheres". Permita-me fazer uma foto sua, como recordação do Brasil.

Lucrecia Zappi
É jornalista e vive em São Paulo.

 
1