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dossiê
A HEGEMONIA AMERICANA

O advento de uma nova ordem mundial
Por Márcio Senne de Moraes

O sucesso dos EUA em sua ofensiva no Iraque, evidenciado pela simbólica queda de inúmeras estátuas do ditador Saddam Hussein e pela entrada triunfal das tropas americanas em Bagdá, foi um ponto de inflexão nas relações internacionais, marcando o advento de uma nova era na cena global, queiramos ou não.

Não há muitos casos na história em que a única superpotência planetária decidiu enfrentar a comunidade internacional, contornando o órgão transnacional que poderia legitimar sua ação, a ONU, e levou a cabo seu projeto com aparente sucesso. Convenhamos, a guerra só durou pouco mais de três semanas, e o número de mortos não chegou nem perto das previsões mais céticas.

Todavia, dependendo da política externa privilegiada por Washington a partir de agora (e o que temos visto desde o início da reconstrução do Iraque não permite visão mais otimista), esse sucesso militar deverá, paradoxalmente, revelar-se prejudicial aos interesses americanos a médio e longo prazos. Afinal, a esmagadora demonstração do poder do Tio Sam no Iraque põe tanto seus aliados tradicionais, como a França e a Alemanha, quanto seus potências inimigos, como a Síria, o Irã e a Coréia do Norte, em estado de alerta.

E há algo ainda mais grave. Se as chamadas águias da atual administração, que têm como figuras de ponta o vice-presidente Dick Cheney e o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, mantiverem sua influência sobre a política externa de George W. Bush, haverá um distanciamento mais claro entre os valores dos EUA e os dos principais países europeus, aprofundando o fosso criado pela disputa em torno do desarmamento do Iraque de Saddam Hussein.

De certa forma, o caminho escolhido pelo governo Bush abriu os olhos da Europa para as diferenças essenciais entre seus interesses e os dos americanos. Trata-se do início de uma nova era nas relações internacionais, pois a natural coincidência entre os interesses ocidentais, que caracterizou a Guerra Fria, não mais existe. Os europeus, sobretudo a França e a Alemanha, já perceberam que não conseguem influenciar Washington, sendo obrigados a repensar o modo como agirão em relação aos EUA.

Assim, o que realmente está em jogo é o sistema multilateralista criado após a Segunda Guerra Mundial. Aparentemente, os principais assessores de Bush não confiam no sistema da ONU e querem agir sem as restrições por ele impostas. Ora, isso fará com que mesmo os aliados dos EUA se sintam ameaçados pela superpotência americana.

Nos próximos dez ou quinze anos, isso acabará consolidando a União Européia apesar de suas divisões atuais. Mesmo o Reino Unido, o mais próximo aliado geopolítico de Washington, perceberá que não tem muito a ganhar com seu apoio aos EUA.

O premiê Tony Blair tomou uma posição contrária a seu partido e a boa da opinião pública britânica, porém não ganhou muita coisa com isso. Ele chegará, mais cedo ou mais tarde (se ainda estiver no poder), à conclusão de que, no fim das contas, os interesses de sua população são bem mais próximos aos dos seus vizinhos europeus do que aos dos americanos. Aliás, talvez sua recente decisão de acelerar o processo de adoção do euro não seja só econômica.

(É verdade que a “nova Europa” ainda é uma incógnita, mas, em tempos menos conturbados na cena internacional, os países do Leste Europeu deverão perceber que não podem deixar passar a preciosa oportunidade que lhes foi oferecida pela “velha Europa”.)

Ademais, ações unilateralistas preventivas, como preconizam certos assessores de Bush, atenuam o “soft power” (poder de cooptação) americano. Os EUA sempre foram um país altamente atrativo para outros povos porque constituíam uma terra de liberdade e de oportunidades. Agindo de modo quase (ou totalmente) imperialista, Washington mina esse poder, o que prejudica os interesses do país a longo prazo. Coca-Cola e Hollywood terão uma briga dura contra mísseis Tomahawk para conquistar “corações e mentes” nos quatro cantos do planeta se a experiência iraquiana se multiplicar...

Até a Rússia percebeu que sua aproximação com os EUA não lhe rende os frutos esperados, e o presidente Vladimir Putin parece ter concluído que, a médio e longo prazos, os interesses russos estarão mais ligados aos dos europeus que aos dos americanos. Os russos fizeram várias concessões estratégicas para aproximar-se dos EUA na última década, mas nunca foram tratados como parceiros. Agora eles percebem que a UE pode ser algo muito mais interessante para eles do que eles imaginavam.

Vale lembrar que o comércio internacional da Rússia somente com a Alemanha é tão alto quanto o que ela tem com os EUA. Isso sem falar nos outros 14 atuais membros da União Européia. Esta, a propósito, deverá contar com 25 países a partir de meados do próximo ano, tornando-se um mercado ainda mais atraente.

No Oriente Médio, o desafio ainda é enorme para Washington, apesar do esmagador poderio militar demonstrado em território iraquiano. A idéia de que o Iraque se tornará rapidamente democrático ou a de que haverá uma onda de democratização no Oriente Médio é quase um sonho (“wishful thinking”, na melhor das hipóteses). A região não tem nenhuma tradição de pluralismo político e é terreno fértil para enfrentamentos étnicos ou religiosos. Aliás, impor a democracia manu militari não parece uma contradição em termos?

Para conter o recrudescimento do antiamericanismo que já existe na região, Bush deverá pôr em funcionamento o mais rápido possível seu plano de paz para a contenda israelo-palestina. Contudo, ainda assim, nada garante que os EUA serão vistos como mediadores imparciais pelas populações árabes ou muçulmanas. A idéia de colocar a União Européia, a ONU e a Rússia como co-patrocinadoras do “roteiro de paz” foi boa, porém não tira do plano o selo da Casa Branca.

É imperativo que Washington busque influenciar o governo israelense a oferecer um acordo razoável aos palestinos (que têm de conter os terroristas suicidas se quiserem chegar à paz). Afinal, com tropas americanas em solo muçulmano, no Iraque, em Najaf e em Karbala, os EUA serão vistos como opressores pela opinião pública do Oriente Médio se não exercerem uma liderança considerada positiva pelos árabes. Estes pensam que os americanos defendem Israel sobre todas as coisas na região.

Assim, embora tenha constituído um sucesso irrefutável para os americanos até há pouco tempo (já existem fortes indícios de que os planos de reconstrução do Iraque concebidos pela Casa Branca e pelo Pentágono deverão ser reformulados), acrescendo o capital político doméstico de que dispõe Bush, a ação militar no Iraque não assegura que a hegemonia americana seja considerada construtiva pela maioria dos países que compõem a comunidade internacional, sobretudo nos mundos árabe e muçulmano.

Na verdade, ela inaugura uma era em que o unilateralismo da única superpotência planetária deverá dar lugar, ao longo da primeira metade deste século, a um multilateralismo difuso, no qual ao menos três blocos disputarão a liderança em diversos aspectos da cena global. Esse novo quadro terá uma só superpotência -os EUA- e duas grandes potências -a UE e a Rússia, de um lado, e o noroeste asiático, de outro.

Em uma ou duas décadas, dependendo do futuro do Partido Comunista, os chineses chegarão à conclusão de que unir-se ao Japão e à Coréia do Sul -ou simplesmente a uma Coréia reunificada- será o melhor caminho a seguir. Quem duvida deve lembrar o exemplo da França e da Alemanha, que travaram três guerras em menos de um século e hoje constituem o motor da União Européia. E as relações internacionais se tornarão muito mais conturbadas do que eram, por exemplo, nos anos 90.

Nesse caso, o grande perdedor será o “sistema multilateralista benigno” representado pela ONU. Afinal, potências regionais ou simplesmente Estados envolvidos em conflitos locais usarão as diferenças existentes entre os três grandes blocos para buscar ganhos pontuais, transformando a cena internacional em algo bem menos seguro e coeso.

Por outro lado, se o sucesso militar atual levar Washington a exercer seu incomparável poder para buscar parcerias e para resolver de modo concertado os problemas que afligem o planeta, os EUA se consolidarão como o único gigante geopolítico universal e atenuarão a turbulência transnacional. Na verdade, tudo dependerá do modo como Bush capitalizará sua vitória. A reconstrução do Iraque é apenas o primeiro desafio.

Finalmente, cabe a ressalva de que os EUA são uma democracia e têm eleições presidenciais a cada quatro anos. A próxima ocorrerá no final de 2004. Uma eventual mudança de governo certamente daria outro rumo à política externa americana e, obviamente, à política internacional.

Márcio Senne de Moraes
É pós-graduado em ciência política com especialização em relações internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris e trabalha no caderno "Mundo" da "Folha de S. Paulo".

 
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