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dossiê
A HEGEMONIA AMERICANA

O novo ciclo do enfraquecimento do dólar
Por Vinicius Mota

Está em curso uma grande reacomodação dos termos em que se dá a hegemonia norte-americana no planeta. Esse processo é de fácil compreensão quando se traça um breve histórico das peripécias do governo George W. Bush.

Do rompimento com o Protocolo de Kyoto à aventura belaz -para usar um adjetivo caro ao maranhense Odorico Mendes (1799-1864), um dos maiores tradutores do grego clássico para o português_ no Iraque, essa é uma crônica que, com o decisivo auxílio de Bin Laden, progressivamente corrói os pilares das relações internacionais estabelecidos após a Segunda Guerra.

Mais difícil, porém, é compreender quais as repercussões e as eventuais contradições dessa tendência no topos das transações financeiras e monetárias internacionais. Haverá uma relação direta entre o projeto, por assim dizer, imperial dos republicanos na geopolítica, e a mudança em curso no ambiente da finança global? Seria tentador responder que sim, que o unilateralismo na política é simplesmente replicado nas relações financeiras. E encerraríamos, com mais um ou dois parágrafos, essa discussão. Mas não tenhamos pressa em chegar a tão comprometedora conclusão.

Poucos notaram que há uma coincidência entre o famoso discurso de Bush sobre o “eixo do mal”, em 29 de janeiro de 2002, e o movimento, que se acentuou neste ano de 2003, de desvalorização do dólar em relação ao euro e, em menor grau, ao iene. O discurso, o tradicional “estado da União” feito anualmente, foi veiculado na noite de quarta-feira. Naquele dia, para comprar um dólar, era necessário 1,16 euro. A cotação se manteve nessa casa até o final da semana. Mas a segunda-feira seguinte, 4 de fevereiro, marca o início de um ciclo de reiterada perda de valor da moeda americana. Na terça-feira passada, dia 4 de junho, US$ 1 era vendido a 0,85 euro -uma desvalorização, num período de pouco mais de 16 meses, de 27%.

A formação da expectativa, por parte dos chamados agentes financeiros internacionais, de que o discurso de Bush sinalizava para a escalada do militarismo além-fronteiras -o que significaria a ampliação dos gastos do governo, déficit público, e dos gastos dos americanos no exterior, déficit externo- pode ter sido um dos gatilhos que dispararam um ciclo adicional de fuga renitente de capitais dos EUA.

Os investimentos diretos líquidos (entradas menos saídas) de capitais estrangeiros nos Estados Unidos, em 2000, haviam sido de US$ 307 bilhões. Em 2001, esse fluxo caiu 57%, para US$ 130 bilhões. No ano passado, com nova queda acentuada (77%), a conta fechou em apenas US$ 30 bilhões. Se computadas todas as aquisições líquidas de ativos americanos por estrangeiros, registra-se uma desaceleração de 16% de 2001 para 2002, que só não foi maior porque Bancos Centrais de países aos quais não interessa um dólar muito fraco (como os asiáticos) aumentaram exponencialmente as aplicações de suas reservas oficiais em papéis americanos, com destaque para os títulos do Tesouro.

O fluxo oficial de reservas para os EUA, que havia sido de US$ 5 bilhões em 2001, saltou para US$ 96 bilhões no ano passado, o que quase equivale a multiplicar por 20 o primeiro valor.

O aparente paradoxo em que se assenta a prevalência do dólar na arquitetura financeira mundial resume-se no seguinte enunciado: a nação hegemônica que emite essa moeda, os EUA, é um dependente visceral de capitais externos. No final de 2001, por exemplo, a diferença entre os ativos que os americanos possuíam no exterior e os ativos que os estrangeiros possuíam nos EUA era negativa em US$ 2,3 trilhões. Traduzindo: os americanos são, de longe, a maior nação devedora do planeta.

Tal sistema, evidentemente, não funcionaria se o resto do mundo também não fosse dependente de um mercado consumidor e de um mercado financeiro poderosos como os americanos. Essa relação de dupla dependência, que permite ao dólar reinar “sem lastro” e aos americanos consumirem e se endividarem mais do que qualquer outro povo, ficou mais evidente, porque mais tensa, após o estouro da bolha de ações nos EUA, depois de março de 2000, quando entrou em cena a ameaça de que a economia americana rumasse para um prolongado mergulho recessivo.

Como todos dependem de que esse furacão americano continue consumindo, e cada vez mais, a política econômica dos EUA foi mobilizada -não apenas com a torcida, mas, como vimos acima, com a ajuda efetiva das autoridades econômicas de outros países ricos- para não deixar cair em demasia o nível de consumo das famílias dos EUA, que é responsável por dois terços do PIB daquele país, e o nível de investimento das empresas.

A operação-salvamento foi bem-sucedida até aqui. A queda radical dos juros básicos do Federal Reserve, o banco central americano, e a rápida expansão do gasto e do endividamento públicos lograram evitar uma depressão profunda. Para ter uma idéia do que foi esse colchão de proteção contra a crise, a taxa de juros básica do Fed, que havia sido de 6,5% ao ano em média em 2000, caiu mais de 40% no ano seguinte, para 3,7%. Pois a taxa de 2001 foi cortada à metade em 2002 (1,8%). Esse processo de alívio monetário continua: hoje a taxa de juros de curto prazo americana está fixada em 1,25% ao ano, o menor nível dos últimos 40 anos.

Na mesma toada, o resultado do setor público, que apontava superávit de 1,4% do PIB em 2000, passou a ser progressivamente deficitário nos anos seguintes. Em 2002, o déficit do governo americano foi de 3,7% do PIB, e as projeções indicam que essa relação se ampliará ainda mais neste ano, para algo em torno de 4,5%.

Os juros baixos diminuíram o peso das dívidas das empresas e das famílias; o endividamento público permitiu a essas duas classes de agentes que se “desendividassem” sem que, para isso, precisassem cortar demais seus gastos (consumo e investimento); o déficit público sustentou a demanda agregada (o nível de gastos de todos os agentes de uma economia).

Ocorre que todos esses estratagemas convencionais de política econômica para atenuar as crises cíclicas do capitalismo já demonstram estar nos seus limites no caso dos EUA. Os juros nominais de curto prazo já estão próximos de zero, os reais (descontada a inflação), já estão negativos. O gasto público também já dá mostras de desaceleração: no trimestre passado, registrou a menor taxa de expansão (0,3%, anualizada) em seis trimestres; os dispêndios com defesa (militares etc.) caíram (3,4%) pela primeira vez em dez trimestres.

Aceitar um dólar mais fraco é o último recurso das autoridades americanas para que, através das exportações, a sua economia possa vencer a virtual estagnação em que se encontra e superar a ameaça de uma crise deflacionária.

Agora estamos mais bem munidos para ensaiar uma resposta à questão proposta do início deste artigo. Não há dúvidas de que a arquitetura das relações econômicas internacionais exacerbou, nos últimos anos, a sua dependência do “motor americano” para crescer. Apesar de o euro ser uma moeda emergente -lidera, por exemplo, as novas emissões de títulos-, a Europa não logrou, até hoje, estabelecer-se como um pólo de desenvolvimento alternativo aos EUA. Ao longo dos últimos 30 anos, a média de crescimento da economia americana tem sido renitentemente superior à do conjunto de países que hoje constituem a União Européia.

É verdade que, principalmente devido a uma contingência histórica -o processo de unificação com a antiga Alemanha Oriental-, a Alemanha logrou sustentar o ritmo de crescimento europeu no último grande ciclo de desvalorização internacional do dólar (1985-1995). Já o Japão, que deu sinais de que também conseguiria fazê-lo nos primeiros anos desse período, sucumbiu, vítima de uma devastadora crise de ativos financeiros e imobiliários. No final daquele ciclo, mergulhou em espiral deflacionária, da qual não emergiu até hoje.

O mundo, portanto, ainda orbita em torno dos EUA e do dólar. Os EUA, também certamente, estão mais uma vez exportando os custos de seu ajuste, preservando, assim, o seu papel privilegiado na tessitura do poder financeiro internacional. Mas aplicar no terreno da economia internacional a mesma receita do unilateralismo vil que a administração Bush ministra na geopolítica seria, concretamente, desastroso para os próprios interesses dos EUA. A lógica do enfraquecimento do dólar só terá êxito, para os americanos, se ela for acompanhada do reaquecimento da demanda doméstica em outras regiões do mundo -notadamente a Europa e, em segundo lugar, a Ásia.

Sem ter para onde exportar -e sem regiões que recebam os fluxos de capitais e os empreguem em atividades produtivas-, os EUA não encontrarão uma saída “por cima” dessa crise cíclica de acumulação capitalista. Se o dólar fraco derrubar a Alemanha, com o Japão prostrado, o mundo, muito provavelmente, terá de passar por um período, que pode ser longo, de queima de capitais e, na melhor das hipóteses, de crescimento irrelevante.

Acompanhemos, atentos, os desdobramentos dessa grande reacomodação das placas tectônicas que sustentam a atual distribuição internacional do poder.

Vinicius Mota
É jornalista da "Folha de S. Paulo".

 
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