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cosmópolis
CIVILIZAÇÕES

O choque das dessemelhanças
Por Susani Silveira Lemos França

Literatura da era das navegações ilustra como os europeus tinham convicção da sua superioridade

No dia 03 de abril de 2003, ratificou o presidente norte-americano aquilo que desde o início da guerra contra o país de Saddam Husseim tinha alegado como motivação para os ataques: “Desarmar o Iraque, libertar sua população e defender o mundo de um grave perigo”, um “inimigo que não tem respeito por convenções de guerra ou regras de moralidade”. O argumento, reafirmado com surpreendente convicção num tempo que já viu ser posto em causa o etnocentrismo e proliferarem as teorias da diferença, estimula-nos a refletir sobre aquelas idas épocas em que, parafraseando o ditador português Salazar, a cultura ocidental se mantinha suficientemente convicta dos seus valores não só para explicitar seu estranhamento com as diferenças, mas também para se dedicar à tarefa de minimizá-las ou até erradicá-las.

A literatura que narra os contatos iniciais com os povos dalém mar, especialmente aquela proveniente da Península Ibérica, é ilustrativa dessa convicção dos europeus da superioridade da sua cultura, convicção que já há muito vinha sendo alimentada pelos confrontos com o inimigo das vizinhanças e potencial invasor: o mouro.

No código legislativo das Sete Partidas, preparado sob os auspícios e coordenação do rei D. Afonso X de Leão e Castela (século XIII) e cujo interesse está, senão em retratar os atos e costumes de uma parcela da população peninsular medieval, em sugerir os modos de pensar de um determinado grupo que esteve à volta do célebre organizador do código, surge a categórica expressão, “má gente”. Ainda que não se referindo explicitamente ao mouro, mas ao inimigo, a expressão torna-se mais sugestiva quando, em outra passagem das Partidas, a guerra contra esse inimigo externo e adversário da “verdadeira fé” aparece como plenamente justificável, dado que os cristãos não tinham “com ele dívida de natureza nem de senhorio” (XXIII, Lei 16).

Segundo Frei João Álvares, cronista e biógrafo do infante português sacrificado pelos mouros em Tânger no século XV, os mouros, essa gente de outra raça e outro Deus, eram “gente tão amaldiçoada, que a sua força, e poder, e virtude não estava em outra coisa senão em traições, cruezas e enganos, e o seu deleite estava em todos os vícios e pecados” (cap. XLI).

Menos ameaçadores, mas não menos dignos de estranhamento do que este povo da “seita de Maomé”, eram, aos olhos convictos dos cristãos, os judeus. O mesmo Afonso X, do referido código legislativo, narra em sua lírica religiosa (Cantigas de Santa Maria), entre muitas outras histórias indicativas da perfídia desse povo, que um deles foi capaz de sacrificar o único membro da sua prole quando este se deixou seduzir pela fé cristã. O pai, tomado de felonia, lançou-o num forno ardente, e o teria matado, não fosse a intervenção da Virgem em favor do jovem convertido.

Muitos outros exemplos há nesse cancioneiro mariano ilustrativo da imagem negativa dos judeus nesse tempo em que a influência e onipresença do cristianismo se fazia sentir como nunca. Embora nenhuma avaliação geral apareça tão explicitamente quanto aquela referente aos mouros, não deixa de ser perceptível o estranhamento quando se tem em conta que o judeu é sempre alvo de castigo ou conversão e sempre um adversário da Virgem de quem se narram os milagres.

Se, porém, esses povos, ainda que há muito conhecidos e pouco diferentes nas feições, eram de espantar pela religião e moral avessas aos princípios cristãos, o que dizer daqueles povos de lugares ainda não visitados, cujos modos de conduta, traços exteriores e crenças abalavam um sistema de conhecimentos já multissecular?

Antes dos primeiros contatos com os povos dalém mar, o estranhamento não era provocado pela sensação do “novo”, mas antes pela noção de desvio do modelo cristão de apreensão do mundo. Foi só com as viagens por terras distantes, algumas delas sequer supostas pelos sábios geógrafos clássicos, que a estranheza e a novidade passam a formar par.

A dimensão dessa novidade é exemplarmente anunciada pelo matemático português quinhentista Pedro Nunes, que fala na descoberta de “novas ilhas, novas terras, novos mares, novos povos, e, o que mais é: novo céu e novas estrelas”. O impacto de tudo isso certamente não era de subestimar. Contudo, deixemos de lado as conquistas geográficas e astronômicas e continuemos pelo confronto com as gentes, agora não apenas estranhas mas novas.

Para os navegadores, sobretudo quinhentistas, que se viram obrigados a confrontar a razão estabelecida e a autoridade dos antigos com um saber feito de experiência, nem sempre o conhecimento “por vista” do ampliado universo dos “filhos de Adão” rompia as expectativas, fantasiosas ou não, alimentadas durante séculos. E era bom que assim fosse, segundo Camões, pois aqueles que tinham “por mestra a longa experiência” julgavam apenas “pela aparência”; só os de “juízos mais inteiros”, conduzidos “por puro engenho e por ciência”, podiam perceber no mundo os “segredos escondidos”.

Entre essas expectativas nutridas pelos livros e por um repertório disperso de idéias estão aquelas relativas tanto à cor quanto à opção religiosa. Em textos do século anterior às primeiras incursões pela África, tal como o Colírio da Fé Contra as Heresias, de Frei Álvaro Pais, e o Boosco Deleitoso (datado do século XVI, mas de provável redação anterior), para não falarmos das citadas Cantigas de Santa Maria ou do Orto do Esposo, a cor negra aparece associada, entre outras imagens negativas, à desgraça, ao castigo, ao pecado e ao demônio.

Álvaro Pais, por exemplo, a define como cor do pecado e do demônio e o Boosco a associa à morte: “A virtude secará, a face emarelecerá, o rosto se fará negro...”. Outros escritos medievais não são menos decisivos para a constituição de um estereótipo negativo da cor negra. Na Visão de Túndalo, há uma referência a demônios “negros como carvões” e com olhos “como candeas acesas”; no Espelho dos Reis, de Álvaro Pais, o diabo aparece a S. Martinho sob a forma de “um menino negro” e, na General Estoria, de Afonso X, é ensaiada uma explicação para a cor negra dos “etíopes” como conseqüência do “grande calor do sol, que tem ali o poder do seu fervor e dos bafos do ábrego, que é entre os ventos o mais quente”.

No que se refere aos pré-juízos sobre a fé, a herança é talvez ainda mais decisiva. Acerca de mouros e judeus já vimos alguma coisa, importa agora apreciar uma categoria que mais tarde se tornará vasta, a do gentio; categoria que se define pela negativa, em oposição a fiel, ou seja, gentio é aquele que não é nem cristão, nem mouro, nem judeu, nem tampouco herege -que se opunha deliberadamente às prescrições da Igreja.

Segundo o Livro da Corte Imperial, de fins do séc. XIV, os gentios são “homens que são tais quais nasceram, convém a saber, sem boa doutrina e sem lei”. Daí que se acreditasse que fossem tendentes à idolatria, como o citado Álvaro Pais, que não estabelecia distinção entre idólatra, gentio e pagão e afirmava que o “certo e regular é que todos os reinos dos pagãos nutriram a idolatria”. Mas a esse aspecto negativo identificador do gentio, adorar a criatura em lugar do criador, justapunha-se uma maior propensão para a conversão que judeus e mouros, os verdadeiros inimigos da Igreja.

Na narrativa hagiográfica Vida de Barlaão e Josaphat, que circulou em várias línguas pela Europa medieval, sobressai uma perspectiva que se encontra em vários outros textos, a de que o gentio poderia ser convertido e receber o batismo, “pois todo o homem o pode fazer se quiser porque Nosso Senhor deu poderio aos homens para poderem ser feitos filhos de Deus...”.

Às idéias dispersas por esses escritos e incrustadas no discurso coletivo medieval não puderam deixar de recorrer aqueles navegadores que, a partir do século XV, se viram diante de muitas coisas que anteriormente pareciam impossíveis. Essa herança, porém, não se pode dizer que tenha ficado imune ao que a nova “pedra de toque” da verdade, a experiência, punha ante os olhos. D. João de Castro, reconhecido por seus estudos como um dos grandes renascentistas portugueses, declara acerca da existência dos antípodas que agora lhe pareciam “a cousa mais conforme à razão que pode ser”.

Dotados, portanto, de um saber feito tanto de experiência quanto de idéias de longa data partilhadas sobre o mundo, os mareantes foram registrando sobre os novos povos especialmente aquilo que contrariava o seu ponto de referência: o homem branco cristão. Já no século XV, o cronista Zurara, na Crônica de Guiné, registra as impressões decorrentes dos contatos iniciais dos portugueses com os africanos capturados na costa norte do continente e desembarcados em Lagos como escravos no ano de 1444.

O cronista afirma que era coisa “maravilhosa” de ver, pois “entre eles havia alguns de razoada brancura, formosos e apostos; outros menos brancos que queriam se assemelhar pardos; outros tão negros como etíopes, tão desafeiçoados nas caras como nos corpos que quase parecia aos homens que os guardavam que viam as imagens do hemisfério mais baixo”. Atualiza, assim, o estereótipo de que os habitantes do inferno teriam a cor negra, ao qual, em outra de suas crônicas (Crónica do Conde D. Duarte de Menezes), se junta a associação com a morte, como, por exemplo, quando narra o enfrentamento de nobres portugueses no norte da África com um cavaleiro de “cara sobre o preto”, que manejava o seu cavalo e vinha sobre eles, parecendo-lhes que “viam a sombra da morte”.

Mas, ainda que os visse como tão disformes em alguns casos, o cronista não descarta que fossem da espécie humana e que pudessem e devessem ser convertidos. Declara ele que viu alguns dos filhos daqueles africanos que foram repartidos em Lagos “tão bons e tão verdadeiramente cristãos, como se descenderam do começo da lei de Cristo, por geração daqueles que primeiro foram batizados”.

Menos feios aos olhos dos europeus, mas não menos necessitados de “regras de moralidade” que os africanos, eram os índios americanos. Colombo descreve aqueles primeiros que encontrou nas Bahamas como “muito bem feitos, de corpos muito bonitos e cara muito boa” e de cor aproximada à dos canários, “nem negros nem brancos”. Caminha não é menos pródigo em qualificar os índios situados mais a sul como “pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos”. Essas impressões convergentes sobre as feições, são igualmente convergentes quanto à possibilidade de que viessem a ampliar a comunidade dos cristãos. Colombo diz que os índios, “sabendo a língua e orientados com boa disposição por pessoas devotas e religiosas, logo todos se converteriam em cristãos”, e Caminha, como que lhe fazendo coro, afirma que a ele pareceu que àquela gente não faltava “outra coisa para ser toda cristã, senão entender-nos”.

Se, contudo, essa expectativa positiva sobre a conversão não diverge muito da do cronista medieval, o mesmo não se pode dizer quanto aos juízos éticos, muito menos radicais nos dois visitantes da futura América do que no cronista medieval e em outros quinhentistas que registraram algo sobre a África. Zurara se pergunta se o hábito das africanas de se mostrarem tal e qual “saíram dos ventres de suas mães”, ou seja, completamente nuas, era “enganosamente cometido ou se a natureza maliciosa de si mesma o constrangia (...)”.

Mais categórico, Duarte Pacheco Pereira observa que os Etíopes eram “quase bestas em semelhança humana, alienados do culto divino”, que os africanos eram homens sem “vergonha nem medo de Deus”, e mais, eram gente luxuriosa, “viciosa, de pouca paz uns com os outros, e (...) muito ladrões e mentirosos, que nunca falam verdade, e grandes bêbados e muito ingratos, que bem que lhe façam não o agradecem, e muito desavergonhados que nunca deixam de pedir”, enfim, conclui ele, “todos os males que há de ter um mau, eles os têm”.

Colombo e Caminha, diferentemente, talvez tocados pela experiência tanto quanto pela herança cultural, não empreendem juízos de valor tão negativos como os dos dois citados e como os que outros visitantes mais tarde hão de registrar. Sobre a nudez, Colombo diz que “andavam nus como a mãe lhes deu à luz” e “sem nenhum embaraço”, e Caminha deixa a impressão, feita célebre, de que os índios não estimavam “de cobrir ou de mostrar suas vergonhas”, e tinham nisso “tanta inocência como em mostrar o rosto”.

 
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