CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
3


Para que estes pés andem dispõe-se um pavimento
um tapete de pedras elos & meandros pedaços de mau caminho
mesmo nos trajetos mais diretos da cidade baixa es
corte um pássaro ele o levará ao próximo com
asas abertas pedra após pedra tão espaçadas
a ponto de descolarem um convite para
tropeçar num riso contido areia na engrenagem
da cidade emerge você desanda em ondas
em terreno instável em barcos arcos & esquinas colinas
& vales vielas & degraus acima & abaixo ornamentos de
sombras petrificando na luz a pino ponteiros
de um relógio sobre Azulejos pintados sete horas meio-dia uma
sombra mínima desliza pelo cenário urbano enredada com
seus pés que não tropeçam onde se vêem vias marítimas
ou vias com ouvidos vozes abafadas pelo calor à sombra
passando os limiares um mundo de cavernas bares lojas
oficinas onde se tecem tapetes de som e timbres
se misturam vogais de uma língua sombria diá
fano diálogo moiré arabescos brilham no
avesso da pele multicolor desta cidade numa luz
branca num chafariz num silêncio três mulheres
negras sombras de damas da noite mulheres do meio-dia Pedra Maria
trindade de rosto encarquilhado arcaico trio
Maria Moira Moura Encantada vultos das fábulas de
Alfama ilegível analfabeto paisagem-pele rede
de veredas palimpsestos línguas mortas melodias atrás & as tra
duzem trifônicas envoltas em luto no foco da sombra à
contraluz: pechblenda fotocópia iconoclastia sete
horas sete horas meio-dia às escuras cintilam & oscilam
as contracores na retina a cidade-sombra riscos
solarizados com os olhos com outros olhos com
os seus olhos eu vi o evidente o con
torno as soleiras & suas sentinelas & nada por
trás nada de caverna nem símile uma imagem que vem
ao caso por entre imagens em falso cai no chão de pedra
petrificado quebra o contorno de dois
rostos cacos afiados de um vaso rubiniano

MUSTERUNG
VIERTER PORTUGIESICHER BRIEF

Barbara Köhler (1998)


Daß diese Füße gehen ist ihnen ein Pflaster bereitet
ein steinerner Teppich Ranken & Mäander Verführungen
noch auf den geradesten Wegen der Unterstadt betritt
einen Vogel er wird dich tragen zum nächsten mit aus
gebreiteten Schwingen Stein neben Stein nur nicht zu
fest gefügt daß sie ausbrechen können Einladungen zu
stolpern in ein lautloses Gelächter Sand im Getriebe
der Stadt tritt zutage trittst du daneben auf Wellen
auf Schiffe auf unsichren Boden Bögen & Winkel Hügel
& Täler Gassen & Stufen hinauf & hinab Ornamente aus
Schatten versteinert im senkrechten Licht die Zeiger
einer Uhr auf Azulejos gemalt sieben Uhr mittags ein
kleiner Schatten wandert im Stadtbild verheddert mit
deinen Füßen die nicht stolpern wo Wege Sehwege sind
Gehörgänge durch Hitze gedämpfte Stimmen im Schatten
jenseits der Schwellen eine Höhlenwelt Kneipen Läden
Werkstätten in denen Klangteppiche gewebt & Farbtöne
gemischt werden Vokale einer schattigen Sprache Zwie
licht zu Zwiesprache Moiré Arabesken leuchten in den
Einstülpungen der bunten Haut dieser Stadt im weißen
Licht an einem Brunnen in einer Stille drei schwarze
Frauen Nachtschattenfrauen Mittagsfrauen Pedra Maria
drei faltige verwitterte Vorzeitgesichter drei einig
Maria Moira Moura encantada Geschichtengesichter der
Alfama unlerserliches Analphabet Hautlandschaften Weg
netz Palimpseste toter Sprachen Melodien über & über
setzt dreistimmig schwarzgehüllt im Schattenfokus in
Gegenlicht: Pechblende Ablichtung Bildersturz sieben
Uhr sieben Uhr mittags im Dunkel flackern & flattern
die Gegenfarben ein Nachbild die Schattenstadt Grund
risse solarisiert mit den Augen mit andren Augen mit
deinen Augen hab ich gesehn die augenfälligen die Um
risse die Schwellen & ihre Hüterinnen & nichts dahin
ter keine Höhle kein Gleichnis ein Bild das der Fall
ist durch kippende Bilder schlägt auf den steinernen
den versteinerten Boden zerbricht es die Kontur zwei
Gesichter scharfkantige Scherben der Rubinschen Vase

ESPAÇO ATRÁS DA LETRA T

Barbara Köhler


dois nomes se abriram espaços
começaram a falar aquilo estava na ponta
da língua não nos meus olhos mas pelo ouvido &
cruzou a vi(st)a marítima às índias des
cobriu a américa enrolou coberta sob a
história de colombo descorou as matrizes até
transparecerem os fundos pintados do diorama ante
paro ali de trás chegam à europa p.ex. kim & rob paro
com uma fala muda entre dentro & fora
steiro jogo gesto uma palavra desen
cadeia a outra encadeia um nome
ao segundo o terceiro nos con
sentimos juntos ficamos con
fusos


RAUM HINTER DEM BUCHSTABEN T

(für Kim Rosenfield & Robert Fittermann)
Barbara Kohler


zwei namen öffneten sich die räume begannen
zu sprechen das ging noch mir von der zunge
nicht aus meinen augen aber ins ohr & durch
kreuzte den nervösen sehweg nach indien kam
amerika vor wurde hintergangen verdeckt von
columbus’ geschichte bleichte die vorbilder
bis sie durchsichtig wurden die ausgemalten
hintergründe der dioramen vorwände dahinter
kommen z.B. kim & rob nach europa hörte ich
auf mit einer sprache zwischen fremd & wort
los spielen gesten ein wort gibt das andere
gibt einen namen dem zweiten das dritte wir
geben uns zu nehmen wir an & sind durch
einander

ÓTICA FÍSICA II

Raoul Schrott (1996)


Um pêndulo em livre oscilação é exemplo de que as condições de um sistema nunca se repetem à risca: antes de parar num ponto fixo (“attractor”), ele gira em dife rentes espirais. Um poema também surge assim: nos meandros da forma, seu ímpeto vai adquirindo novos impulsos, imprevisíveis, até ele atingir seu centro.


entre os dedos a noite se esfacela
feito papel queimado . e o céu às cinzas
a mão que escreve é sempre lenta demais

nesse papel carbono as letras só
se tornam legíveis quando postas
sobre brasa e o sol é um elemento

voltaico na lâmpada de arco da luz
que deixa transparecer nesse frio
as rasuras da chuva . caligramas

no mata-borrão da noite e o punho
a se exercitar na cópia . e assim se engendra
um poema . mas à margem da máscara

de uma página se pinta com poucas pinceladas
o mover de um pêndulo . tão nu assim o coração
diante deste singular e estranho magnetismo

das linhas . em contínua retirada terra adentro
faróis irradiam as árvores tronco a tronco
para que amanheçam assim mesmo

PHYSIKALISCHE OPTIK II

Raoul Schrott


Ein frei schwingende Pendel ist ein Beispiel dafür, dass die Bedin gungen eines Systems nie vollkommen wieder holbar sind: bevor es an einem fixen Punkt, dem „attractor“, zu stehen kommt, bricht sein Kreisen in eine bei jedem Mal andere Spirale aus. Ähnlich entsteht auch ein Gedicht: sein Impetus erhält im Mäander der Form immer wieder neue, unvorher sehbare Anstöße, bis es schließlich seine Mitte erreicht.


unter den fingern zerfällt der abend
wie verbranntes papier . und der himmer zu asche
die hand die schreibt ist immer zu langsam

auf diesem kohlepapier sind die buchstaben
erst zu erkennen wenn man sie über eine flamme
hält und die sonne ist ein volta’sches

element für die bogenlampe des lichts
das in dieser kälte die überschreibungen
des regens zum vorschein bringt . kalligramme

auf dem löschblatt der nacht und abschreibübungen
aus dem handgelenk . so kommt ein gedicht
zustande . doch an den rand der maske

einer seite malt man mit wenigen strichen
die bewegungen eines pendels . so ein nacktes herz
gemessen an der seltsam fremden anziehung

der zeilen . auf ihrem steten rückzug erdwärts
strahlen scheinwerfer die bäume an stamm um stamm
damit sie noch morgens dieselben haben

UMA HISTÓRIA DA ESCRITA III

Raoul Schrott (1997)


onde o rio escoa sobre as rochas cresce o claro
das bolhas no ocre espumoso . o verde saturado
da água em poça no retângulo dos campos expele
o arroz em meio à fumaça que sopra da queimada
à tarde a tempestade vem então se escaldar
nos eucaliptos . o calor cava seu terreno
e tosta o pasto de barro em torrões de laterita
na grama as chamas mancham de vermelho o ferro
e impelem a margem mar adentro . a chuva
inscreve seu sânscrito nos cacos de argila
cozida e em desmedida métrica o vento
acende das cinzas verso por verso: as sibilantes
da terra . a língua das nuvens se abaúla no palato
da encosta e roça os tocos de árvores . o azul
de uma manga se consome em centelhas . o céu a
escandir seu incêndio ecoa frase por frase e a lavoura
dos lavradores obedece a tal ditado: a fome cultiva
sua própria linguagem . para acolher a primeira colheita
a selva há que se devastar em brasa
o fogo escolta a estrada e o leito do ribeiro
e estampa o campo em preto . de dentro do ar
uma tipografia tosca se distingue bem como as linhas da mão

EINE GESCHICHTE DER SCHRIFT III

Raoul Schrott (1997)


wo der fluß über die felsplatten rinnt wächst das weiß
der blasen in den oker der gischt . das überfressene grün
wo das wasser im rechteck der felder steht treibt den reis
heraus in den rauch der von den buschfeuern herzieht
am nachmittag dann kommen die gewitter und verbrühn
sich an den eukalypten . die hitze rodet sich ihr gebiet
und bäckt die lehmigen weiden zu klumpen aus laterit
die flammen färben das eisen an den graswurzeln rot
und spülen das ufer ins meer . auf den zu ton gebrannten
scherben schreibt sich der regen mit seinem sanskrit
ein un in den unregelmäßigen metren der winde loht
eine zeile um die andere aus der asche auf: die sibilanten
der erde . die zunge der wolken wölbt sich am gaumen
des abhangs und leckt an den baumstümpfen . das blau
einer mango frißt sich in die funken . der himmel skandiert
seinen brand er spricht satz um satz nach und der anbau
der bauern folgt diesem diktum: der hunger kultiviert
seine eigene sprache . um eine erste ernte anzuraumen
muß der dschungel auf die ebene niederbrennen
das feuer hält schritt mit der straße und dem laufe der bäche
und stanzt die äcker ins schwarz . von der luft aus erkennen
lassen sich grobe lettern wie linien einer händfläche


Simone Homem de Mello
É graduada em Letras na USP e mestre em literatura alemã pela Universidade de Colônia. Trabalha como jornalista, tradutora e libretista. Vive em Berlim.

 
3