CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
2

a cidade é b
oca. a língua, textus;
língua-urbe de granito:
texto de
rretido e refundido. dito
pelo canto da boca, sob
a sombra da mão: as
ruínas, aqui não, a
cidade denteada e recém-
ceada!, cobrir e en-
cobrir! os recenseados, os
de dentaduras brancas,
os sumidos de vista: os
encarcerados. mor-
daça, cavidade bucal
a cidade. (...)

Neste poema, o movimento autofágico da urbe, sua dinâmica engole-e-cospe, trituradora de códigos, antecipa o motivo central da segunda versão, o loop da destruição do WTC veiculado pela mídia. Em “Mundraum Manhattan Zwei” (“(B)Oca-Manhattan Dois”), Kling assimila as imagens indigeríveis de Paul Celan (extraídas sobretudo de “Engführung / Stretto e Todesfuge” / “Fuga-Morte”) e se reporta à poética pós-Auschwitz, anunciando um novo marco-zero.


Ruínas & ruídos da escrita

Talvez a geração de Kling seja a primeira a se inscrever na tradição “hermética” de Paul Celan, resgatando a ilegibilidade como procedimento poético. Ressalve-se de antemão que seus pressupostos são bem distintos. O que há de indecifrável em Celan deriva-se da incomunicabilidade apriorística, da impossibilidade de fazer poesia depois de Auschwitz, ou seja, de uma poética do silêncio. Para alguns dos novos poetas alemães (aos autores aqui analisados se acrescentaria pelo menos Ulf Stolterfoht, autor de “fachsprachen I-IX” (“nomenclaturas” 1998); “fachsprachen X-XVIII” ( 2002), a ilegibilidade parte do ruído, da saturação de interferências que interceptam o poema.

A ilegibilidade do Celan tardio, o mais hermético, se deve em parte ao fato de sua escrita resistir à visualização. Seus poemas mais radicais não deixam nenhum vestígio na retina do leitor. Eles constituem espaços dinâmicos onde as imagens não chegam a se estabilizar. São amálgamas sinestésicos que não remetem a nenhum referente visualizável. A linguagem opaca de Celan é um território a ser percorrido às cegas, aos tropeços; o ato de leitura, um trajeto sem referenciais (e referentes) fixos.

Arras
t ados
na terra:
com o rastro
inequívoco.

Grama, escrita disse-
minada. As pedras, brancas,
com a sombra dos talos:
Não leia – veja!
Não veja – vá! (...)

(Paul Celan, “Stretto”)

Assim inicia Celan “Engführung” (“Stretto”), o poema que paraleliza topografia e escrita, itinerário e leitura, sugerindo que a memória não se ativa como ato voluntário, mas é acionada espontaneamente no fluxo do discurso e no trânsito da leitura. É exatamente neste eixo que se engrena esta nova corrente da poesia contemporânea alemã.

A obra de Thomas Kling -uma notação de impulsos intermitentes, homóloga às alternâncias do código digital, scanner de imagens fugidias, radar de interferências, reservatório de “vídeos-dilúvio”, grafia híbrida de uma “era-arcimboldaica”- materializa o ruído mediático numa escrita consciente de sua concretude e verte os lapsos de comunicação num discurso elíptico e descontínuo, aproveitando as “erosões da escrita” como procedimento poético.

Barbara Köhler demarca o espaço da poesia aquém das “grades da linguagem” (“Sprachgitter”, título de um livro de Celan), na malha de um discurso tautológico e ambíguo, explorando o “remis” entre fala e escrita como mais-valia estética. Raoul Schrott, movido por um certo “horror vacui”, satura seus poemas com minúcias descritivas, ocultando as imagens por trás da textura de uma escrita opaca, não-transparente.

Paralelamente ao “revival” da poesia oral(izada) na Alemanha -à propagação da “slam poetry”, à nova voga dos “environments” sonoro-textuais e das peças radiofônicas ou à febre dos livros acompanhados de CD-, cada vez mais se reforça a supremacia da escrita como mídia da poesia.

Ao lado de Brigitte Oleschinski (1955), Durs Grünbein (1962), Ulf Stolterfoht (1963) e Marcel Beyer (1965), os três poetas em questão fazem frente à persistente (e talvez inextinguível) lírica intimista, disseminando a voz da subjetividade nas malhas da escrita. Talvez estes sejam os primeiros autores a incorporar em seu fazer poético -de fato, não apenas retoricamente- as reflexões do debate franco-alemão (Derrida/Gadamer).

Permeabilidade? É possível que a poesia alemã tenha começado a transpor suas fronteiras; não no sentido de se desterritorializar, e sim de reterritorializar a tradição européia no processo de renovação da lingua(gem) via poesia. Apesar de a consciência histórica de Auschwitz ainda ser legível -em maior ou menor grau- na obra deste novos poetas, seus textos passam a impressão de que de que Alemanha está deixando de se autodefinir como um Estado de exceção, um burgo sob vigilância internacional.

Apesar do apelo desta poesia à erudição e ao hermetismo representar em alguns casos um gesto restaurador ou uma tentativa de controle ou até um impulso regressivo, esta vertente da poesia alemã tem a chance de se permeabilizar cada vez mais, sobretudo em vista da expansão da União Européia para o leste do continente. Pelo menos o novo fazer poético está tornando o idioma mais maleável, mais aberto a desvios, hibridismos e ruídos. Uma nova geração de poetas?


Nota às traduções

A limitada amostra de textos traduzidos a seguir não é suficiente para veicular uma imagem representativa destes autores. A idéia é apenas dar um aroma de três dicções poéticas distintas.

No caso de Thomas Kling, cuja obra inicial difere bastante da tardia, a opção de traduzir um poema mais recente implica com certeza obliterar uma parte fundamental de sua trajetória literária. O texto “Musterung: Vierter Portugiesischer Brief”, de Barbara Köhler, integra o volume bilíngue “cor responde”, com traduções de Maria Teresa Dias Furtado; a nova tradução propõe uma outra leitura do original alemão, também livre de lusitanismos.

Os textos de Raoul Schrott pertencem a ciclos de poemas; traduzi-los isoladamente significa extraí-los do contexto conceitual em que foram escritos.

(B)OCA-MANHATTAN 2

Thomas Kling (2002)


1

Ala arrasada, um vento logarítmico.
e tudo assim empanado.

em ação
constante o olho em loop.


2

um loop poder ser
parafuso ou lupa;
o parafuso para
fusa direto

do off esta


3

esta escrita oral, ocular
testemunha manhattan. nas últimas
tudo quase nas últimas mas

de primeira mão em loop


4

protocolo oral portanto:
meras listas brancas.
extrato:

espada de luz
revanche-salmo-partícula
sura de luz rasteira e

todos detidos todos –
ramos sobre capotas de carros:
data de setembro esta
a tal,
esta é a marca
da história;
assolada soprando a salvo
laçada em loop lançada

disformescrita-olho


5

de olho sim!

de olho em plena ação assim
lá em cima nós detidos na caldeira

na cabeça na cabeça!


6

sem mais poder sentados em cinco
eles em cima mim vou ligar de novo
e já
desabava o

teto


7

deitados à margem do hudson
chorávamos suras de luz rasteira; im-

possível dizer. Zero
tínhamos vista-zero


8

... nós a povoar o ar


9

luz se foi só ruído
a povoar o ar nós
numa ilha

a salvo

a sós


10

como farinha curta


11

uma farinha curta, então, sob o perfil, lá o testemunho prescrito,
o prenome, alguém fotografado por acaso e denominado anjo;
povoador do ar; estilitas – como consta. uma escrita
oculante
(candente) em loop. na qual um passante ajuda- ou salva-
dor pretensa testemunha ocular assim de passagem
- numa pausa que seja – digitou A DATA na capota do carro a
seqüência de algarismos: IMAGEM HISTÓRICA DE MANHATTAN ALA ARRAS
ADA


12

dança – dança de partículas – diante desses
olhos candentes em loop

13

ah o dedo mudo é o peregrino, que passa com pressa, que sabe
inscrever-se
silente na tinta riscada, na farinha-morte, ah! Nessa
farinha dos mortos.


14

equipes de socorro


15

nova criptografia. listas.
aceleração de imagens na retina

asa visível e
perceptível a cabeça parafus-
alada: ou seja, cabeça-partícula: o sistema límbico
ataca; atiçada a mnemoaquininha.

seus olhos infelizes


16

suras de luz rasteira
rasteira preussag e munich re


17

o vento varre a área. granito estacado. a partícula,
em loop. ou línguas, engolfando-se em gorjas gargant
asfixia. só prá sossegar; prá enxaguar os olhos;
mudar de roupa; pisar de novo em casa,
de novo. finalmente.


18

só b oca


19

bosque de estilitas

baixa e baixa sobre tantos
ombros, uma polegada.


20

esta farinha amarga, vento varre,
silente vento logarítmico

o vento de
manhattan


21

ah! ventando do hudson

vem o vento

MANHATTAN MUNDRAUM ZWEI

Thomas Kling (2002)


1

toter trakt, ein algorithmen-wind.
und alles wie paniert.

in tätigkeit
stetig das loopende auge.


2

ein loop kann eine
schraube oder lupe sein;
die schraube schraubt
sich aus dem off

direkt in dies


3

hinein, in diese zungen-, in
manhattan-zeugenschrift. alles aus
alles so gut wie aus

erster aus geloopter hand


4

die zungnmitschrift also:
blanke listen.
auszug:

schwert aus licht
rache-psalm-partikel
lichtsure niedrig und

saßen alle alle fest –
palms auf autoheck:
septemberdatum dies
das gegebene,
dies ist die signatur
von der geschichte;
verwehte wehende unverwehte
loopende wie hingeloopte

augn-zerrschrift


5

von augen, ja!

die augn voller tätigkeit so
saßen wir im hohen ofen fest
im kopf im kopf!


6

konnten nicht weiter und saßen fünf
die lagen auf mir drauf ich ruf wieder an
kam auch schon die

decke

runter


7

wir lagen an den wassern des hudson
und weineten lichtsure niedrig; aus-

geschlossen es sprechen. null-
sicht, hatten nullsicht


8

... und siedelten in der luft


9

licht ging weg nur noch krach
und siedelten so in der luft
wir auf einer insel

unverweht

und allein


10

als kurzes mehl


11

ein kurzes mehl, dann, unterm profil, darin die zeugenvorschrift,
der vorname, und der gelegentlich fotografierte wird ein engel
genannt; ein luftsiedler; stylitinnen – wie hier steht. eine
äugende
(glimmende), eine geloopte schrift. in die passant ein helfer oder
retter sogenannter augenzeuge nur so ebenhin, vorübergehend –
laufstop eher – DAS DATUM eingegeben hat; auf autoheck die
zahlenreihe: DAS GESCHICHTSBILD MANHATTANS TO-
TER TRAKT


12

das tanzt – partikeltanz – vor diesen
glimmenden geloopten augen


13

ACH der stumme finger ist der pilger, der vorüberhastet, der sich
einzuschreiben
weiß ins leise lack-zerkratzen, ins todten mehl, ach! in dies
totnmehl hinein.


14

nothelfer


15

neue kryptografie. listen.
nachbildbeschleunigung.

flügel sichtbar und
spürbar der flügelgeschraubte kopf;
und zwar partikelkopf: das lymbische system
schlägt zu; memoria-maschinchen angefacht.

ihr unglücklichen augen


16

lichtsure niedrig,
niedrig preussag und münchner rück


17

es geht der wind übers gelände. gepfählter granit. die loopende,
partikel. oder zungen, die in schlünde sinken in erstickter
schlucht. um einfach auszuruhen; um augen zu spülen; die
wäsche zu wechseln; überhaupt die wohnung zu betreten,
wieder. endlich.


18

dies alles mundraum


19

stylitenwald

sinkt und sinkt auf viele
schultern, daumendick.


20

dies bittere mehl, darüber wind geht,
leiser algorithmen-wind.

der wind von
manhattan


21

ach! vom hudson wehend

kommt der wind

REVISTA
QUARTA CARTA PORTUGUESA

Barbara Köhler (1998)

 
2