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a cidade é b Neste poema, o movimento autofágico da urbe, sua dinâmica engole-e-cospe, trituradora de códigos, antecipa o motivo central da segunda versão, o loop da destruição do WTC veiculado pela mídia. Em “Mundraum Manhattan Zwei” (“(B)Oca-Manhattan Dois”), Kling assimila as imagens indigeríveis de Paul Celan (extraídas sobretudo de “Engführung / Stretto e Todesfuge” / “Fuga-Morte”) e se reporta à poética pós-Auschwitz, anunciando um novo marco-zero.
Talvez a geração de Kling seja a primeira a se inscrever na tradição “hermética” de Paul Celan, resgatando a ilegibilidade como procedimento poético. Ressalve-se de antemão que seus pressupostos são bem distintos. O que há de indecifrável em Celan deriva-se da incomunicabilidade apriorística, da impossibilidade de fazer poesia depois de Auschwitz, ou seja, de uma poética do silêncio. Para alguns dos novos poetas alemães (aos autores aqui analisados se acrescentaria pelo menos Ulf Stolterfoht, autor de “fachsprachen I-IX” (“nomenclaturas” 1998); “fachsprachen X-XVIII” ( 2002), a ilegibilidade parte do ruído, da saturação de interferências que interceptam o poema. A ilegibilidade do Celan tardio, o mais hermético, se deve em parte ao fato de sua escrita resistir à visualização. Seus poemas mais radicais não deixam nenhum vestígio na retina do leitor. Eles constituem espaços dinâmicos onde as imagens não chegam a se estabilizar. São amálgamas sinestésicos que não remetem a nenhum referente visualizável. A linguagem opaca de Celan é um território a ser percorrido às cegas, aos tropeços; o ato de leitura, um trajeto sem referenciais (e referentes) fixos. Arras Grama, escrita disse- Assim inicia Celan “Engführung” (“Stretto”), o poema que paraleliza topografia e escrita, itinerário e leitura, sugerindo que a memória não se ativa como ato voluntário, mas é acionada espontaneamente no fluxo do discurso e no trânsito da leitura. É exatamente neste eixo que se engrena esta nova corrente da poesia contemporânea alemã. A obra de Thomas Kling -uma notação de impulsos intermitentes, homóloga às alternâncias do código digital, scanner de imagens fugidias, radar de interferências, reservatório de “vídeos-dilúvio”, grafia híbrida de uma “era-arcimboldaica”- materializa o ruído mediático numa escrita consciente de sua concretude e verte os lapsos de comunicação num discurso elíptico e descontínuo, aproveitando as “erosões da escrita” como procedimento poético. Barbara Köhler demarca o espaço da poesia aquém das “grades da linguagem” (“Sprachgitter”, título de um livro de Celan), na malha de um discurso tautológico e ambíguo, explorando o “remis” entre fala e escrita como mais-valia estética. Raoul Schrott, movido por um certo “horror vacui”, satura seus poemas com minúcias descritivas, ocultando as imagens por trás da textura de uma escrita opaca, não-transparente. Paralelamente ao “revival” da poesia oral(izada) na Alemanha -à propagação da “slam poetry”, à nova voga dos “environments” sonoro-textuais e das peças radiofônicas ou à febre dos livros acompanhados de CD-, cada vez mais se reforça a supremacia da escrita como mídia da poesia. Ao lado de Brigitte Oleschinski (1955), Durs Grünbein (1962), Ulf Stolterfoht (1963) e Marcel Beyer (1965), os três poetas em questão fazem frente à persistente (e talvez inextinguível) lírica intimista, disseminando a voz da subjetividade nas malhas da escrita. Talvez estes sejam os primeiros autores a incorporar em seu fazer poético -de fato, não apenas retoricamente- as reflexões do debate franco-alemão (Derrida/Gadamer). Permeabilidade? É possível que a poesia alemã tenha começado a transpor suas fronteiras; não no sentido de se desterritorializar, e sim de reterritorializar a tradição européia no processo de renovação da lingua(gem) via poesia. Apesar de a consciência histórica de Auschwitz ainda ser legível -em maior ou menor grau- na obra deste novos poetas, seus textos passam a impressão de que de que Alemanha está deixando de se autodefinir como um Estado de exceção, um burgo sob vigilância internacional. Apesar do apelo desta poesia à erudição e ao hermetismo representar em alguns casos um gesto restaurador ou uma tentativa de controle ou até um impulso regressivo, esta vertente da poesia alemã tem a chance de se permeabilizar cada vez mais, sobretudo em vista da expansão da União Européia para o leste do continente. Pelo menos o novo fazer poético está tornando o idioma mais maleável, mais aberto a desvios, hibridismos e ruídos. Uma nova geração de poetas?
A limitada amostra de textos traduzidos a seguir não é suficiente para veicular uma imagem representativa destes autores. A idéia é apenas dar um aroma de três dicções poéticas distintas. No caso de Thomas Kling, cuja obra inicial difere bastante da tardia, a opção de traduzir um poema mais recente implica com certeza obliterar uma parte fundamental de sua trajetória literária. O texto “Musterung: Vierter Portugiesischer Brief”, de Barbara Köhler, integra o volume bilíngue “cor responde”, com traduções de Maria Teresa Dias Furtado; a nova tradução propõe uma outra leitura do original alemão, também livre de lusitanismos. Os textos de Raoul Schrott pertencem a ciclos de poemas; traduzi-los isoladamente significa extraí-los do contexto conceitual em que foram escritos. (B)OCA-MANHATTAN 2 Thomas Kling (2002)
Ala arrasada, um vento logarítmico. em ação
um loop poder ser do off esta
esta escrita oral, ocular de primeira mão em loop
protocolo oral portanto: espada de luz todos detidos todos – disformescrita-olho
de olho sim! de olho em plena ação assim na cabeça na cabeça!
sem mais poder sentados em cinco teto
deitados à margem do hudson possível dizer. Zero
... nós a povoar o ar
luz se foi só ruído a salvo a sós
como farinha curta
uma farinha curta, então, sob o perfil, lá o testemunho prescrito,
dança – dança de partículas – diante desses 13 ah o dedo mudo é o peregrino, que passa com pressa, que sabe
equipes de socorro
nova criptografia. listas. asa visível e seus olhos infelizes
suras de luz rasteira
o vento varre a área. granito estacado. a partícula,
só b oca
bosque de estilitas baixa e baixa sobre tantos
esta farinha amarga, vento varre, o vento de
ah! ventando do hudson vem o vento MANHATTAN MUNDRAUM ZWEI Thomas Kling (2002)
toter trakt, ein algorithmen-wind. in tätigkeit
ein loop kann eine direkt in dies
hinein, in diese zungen-, in erster aus geloopter hand
die zungnmitschrift also: schwert aus licht saßen alle alle fest – augn-zerrschrift
von augen, ja! die augn voller tätigkeit so
konnten nicht weiter und saßen fünf decke runter
wir lagen an den wassern des hudson geschlossen es sprechen. null-
... und siedelten in der luft
licht ging weg nur noch krach unverweht und allein
als kurzes mehl
ein kurzes mehl, dann, unterm profil, darin die zeugenvorschrift,
das tanzt – partikeltanz – vor diesen
ACH der stumme finger ist der pilger, der vorüberhastet, der sich
nothelfer
neue kryptografie. listen. flügel sichtbar und ihr unglücklichen augen
lichtsure niedrig,
es geht der wind übers gelände. gepfählter granit. die loopende,
dies alles mundraum
stylitenwald sinkt und sinkt auf viele
dies bittere mehl, darüber wind geht, der wind von
ach! vom hudson wehend kommt der wind REVISTA Barbara Köhler (1998) |