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IRAQUE

A guerra da imprensa
Por Esther Hamburger

A força bruta no Iraque encurta o espaço de independência que fundamenta a ética jornalística

A carnificina será pouco televisionada. Os incidentes que vitimaram três profissionais, um da rede árabe independente Al Jazeera, um da Reuters e um de um canal de televisão espanhol, elevaram o número de jornalistas mortos no conflito ao número recorde de 12.

Os profissionais da informação foram atingidos em dois ataques diretos à imprensa, um contra a sede da TV árabe independente Al Jazeera e outro ao Hotel Palestina, estabelecimento onde estão sediados os jornalistas estrangeiros.

Longe dos tempos em que sonhavam com o duplo Clark Kent/super-homem, que literalmente voava acima das forças terrestres, combatendo o crime, os jornalistas vêm se revelando alvo fácil no fogo cruzado do terror.

Guerra é guerra. A força bruta encurta o espaço da independência que fundamenta a ética jornalística. A Al Jazeera é o exemplo mais claro do território minado em que transita a produção de imagens.

A independência da emissora em relação aos dois blocos em conflito se expressou com clareza nas imagens originais que se tornaram sua marca nessa guerra. O foco em corpos dilacerados de civis atingidos pela violência militar, especialmente crianças, desagrada a gregos e troianos.

No decorrer do conflito, americanos viram enfraquecida a tese de guerra tecnológica cirúrgica como alternativa ao derramamento de sangue. Iraquianos viram abalada a sua pretensão à invencibilidade.

A cobertura jornalística evidencia os rumos inesperados. A guerra acontece em duas frentes, uma no território árido do Iraque, outra em um território virtual, onde, para além da incomunicabilidade lingüística e cultural, falam imagens, sempre parciais.

Ao longo das últimas três semanas, vimos tanques anglo-americanos avançando em território inimigo. Testemunhamos uma insistência cada vez mais patética à afirmação de resistência. Ouvimos comentaristas especularem sobre a veracidade das mensagens.

Confrontos propriamente ditos, raramente apareceram. No plano das imagens a guerra se deu entre caçadores ocidentais, obsessivos documentaristas de seu próprio movimento em estradas vazias através do deserto e iraquianos incansáveis na afirmação da resistência perante as câmeras.

As forças anglo-americanas se prepararam para um cenário que não veio. Esperavam desarticular o governo iraquiano nos primeiros bombardeios e entrar vitoriosas como forças libertadoras.

As forças da cobertura jornalística também se prepararam para um cenário que não veio. O confronto rápido e indolor prometido deu lugar ao caos inevitável da guerra.

Hospedadas pelas diversas companhias do exército anglo-americano, ou baseadas em Bagdá, as pequenas forças tarefas responsáveis pela captação e difusão de imagens são impotentes diante das armas de fogo.

O plano americano expresso nas imagens alternadas de bombardeio e tanques em movimento previa uma progressão rumo a uma vitória, que representaria o fechamento de um ciclo e o início de uma nova fase na política mundial, sustentada com mão de ferro.

A estratégia dos iraquianos ao evitar confrontos, ao menos televisionáveis, anuncia uma outra versão do que seria essa nova fase da história do planeta. Longe dos parâmetros de guerra tecnológica ou do corpo a corpo, o que se vislumbra é o acirramento de ataques de guerrilha -a qualquer momento, em qualquer lugar.

Os militares iraquianos não mostram a cara. Suas ações são pontuais. Os efeitos delas se propagam em diversas direções ao longo do tempo. Elas são planejadas por grupos diferentes, de maneira que é quase impossível prevê-las. O elemento surpresa é essencial.

A perspectiva de guerrilha urbana internacional prolongada atinge valores centrais na cultura moderna, como a livre circulação de idéias, máquinas e pessoas, que encontrou nas tecnologias de comunicação e transporte meios eficazes de realização.

O telefone, o cinema, o rádio e a televisão concretizaram utopias de conexão e deslocamento no espaço. O cinema clássico expressa essas representações de maneira primorosa.

No século 21, ameaças de atentados diminuem a circulação aérea. Doenças misteriosas, como a pneumonia asiática, se propagam através das rotas de aviação.

A redução do movimento no território reforça as batalhas em territórios virtuais. Mas os dois territórios partem de uma coincidência inescapável: o da experiência propriamente dita da guerra, em um determinado local e momento. Nesse cenário, jornalistas especializados, como soldados, estão sujeitos a morrer em combate.

Vai descendo o pano sob o cenário iraquiano. No apagar dessas luzes se anuncia um deslocamento de palco. Na tentativa de gerar iniciativas que redefinam a geopolítica oriental, Bush e Blair falam na criação do Estado da Palestina.


Esther Hamburger
Esther Hamburger é antropóloga, professora do departamento de cinema, televisão e rádio da Universidade de São Paulo (USP) e editora de "Trópico".

 
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