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Para o bem ou para o mal, a maior parte das tecnologias correntes são ainda externas aos nossos corpos (e.g., celulares, laptops, agendas eletrônicas). Esse estado, no entanto, começa a mudar. Em casos dramáticos, como em deficiências e outros problemas clínicos, dispositivos externos estão sendo implantados internamente (e.g., implantes de cóclea, de olhos biônicos etc.). Supondo-se que as tecnologias intrusivas se tornem mais rotineiras, uma questão que se coloca é se nós iremos utilizá-las também para expandir os limites de nossos corpos.

Para o roboticista inglês Kevin Warwick não restará outra alternativa. Atualmente a inteligência humana supera a inteligência robótica, mas isso começa a mudar. Considerando o ritmo dos avanços tecnológicos, nos próximos anos os robôs serão mais inteligentes e poderosos do que os humanos, o que pode significar que viveremos em um mundo R.U.R, dominado por robôs.

Para o pesquisador, uma solução será expandir as capacidades de nossos corpos, transformando-nos em ciborgues. Kevin Warwick já faz experiências nessa direção. Em 14 de março de 2002 ele se submeteu a uma cirurgia para implantar uma interface eletrônica diretamente no seu sistema nervoso, o que lhe possibilita interagir de forma mais íntima e imediata com computadores e seres humanos.

Nas previsões e nos métodos Warwick não está sozinho. Analisando as tendências da evolução tecnológica, o diretor do Artificial Intelligency Laboratory do MIT, Rodney Brooks, em seu livro “Flesh and Machines” sugere que em meados do séc. XXI tanto robôs quanto humanos terão inevitavelmente outra natureza:

“Em meados do século 21 os robôs terão componentes de silicone, de aço, de titânio, talvez até algum arsenieto de gálio, e certamente uma variedade de outros materiais e supercondutores, e polímeros, e estruturas que dificilmente podemos imaginar. Nossos corpos também conterão todas essas tecnologias. Mas nós e nossos robôs estaremos também repletos de novos tipos de tecnologias –manipulações biotecnológicas... Estamos a caminho de mudar profundamente nosso genoma. Não melhorias na direção do humano ideal, como se teme. Na realidade, nós teremos o poder de manipular nossos corpos como manipulamos atualmente o design das máquinas... Não há porque se preocupar com meros robôs nos ultrapassando. Nós ultrapassaremos a nós mesmos com projetos de manipulação de corpos e com capacidades que facilmente poderão se igualar à de qualquer robô. A distinção entre nós e os robôs irá desaparecer”.


Hello Dolly!

Um modo de criação de vida artificial que tem gerado muita polêmica é o clone. Em sua etimologia, “clone” vem da palavra grega “klon”, que significa broto de vegetal.

A clonagem é o processo de reprodução de vida originada de outra, um fenômeno de divisão celular encontrado na natureza em animais invertebrados, nas plantas e na criação de gêmeos univitelinos. Clone é, portanto, a denominação que se dá ao grupo de organismos ou outra matéria viva que possui o mesmo patrimônio genético de um outro.

Da conhecida divisão celular, encontrada na natureza, cientistas sempre estiveram curiosos e intrigados com a possibilidade de clonar organismos mais complexos.

Embasados nas pesquisas sobre a separação artificial de células de embriões do alemão Hans Spemann, em 1952 os biologistas americanos Robert Briggs e Thomas King, na Filadélfia, desenvolveram um método artificial de divisão celular chamado transplantação nuclear ou transferência de núcleo celular.

Em seus experimentos, Briggs e King removeram o núcleo de uma célula embrionária de um organismo e transplantaram-no em um óvulo não fecundado de um outro organismo da mesma espécie. Acomodado em uma incubadora nutriente, o óvulo transplantado dividiu-se e cresceu, o que fez nascer o primeiro clone de um embrião de sapo, um girino. Briggs e King se utilizaram apenas de células embrionárias, porque elas ainda não são especializadas e são capazes de desenvolver um organismo inteiro.

Experimentos com células especializadas adultas foram desenvolvidos entre os anos 60 e 70, entre outros, pelo biologista molecular John Gurdon, na Inglaterra. Gurdon em seus experimentos explora a possibilidade de transformar células especializadas adultas em células totipotentes, ou seja, células capazes de desenvolver um organismo completo. Ele utilizou o núcleo de células do intestino de girinos e, após transferi-lo para células sem núcleo, produziu clones de sapos. As experiências subsequentes com animais vertebrados, entretanto, foram frustrantes e os poucos animais que nasceram, não sobreviveram à idade adulta.

O primeiro sucesso na transplantação nuclear de um mamífero é o que gerou, em 1996, Dolly, a ovelha clonada a partir de uma célula adulta, ou uma célula diferenciada. Nesse experimento, o embriologista escocês Ian Wilmut, do Instituto Roslin, em Edimburgo, isolou o núcleo de uma célula mamária de uma ovelha adulta e, através de cultura in vitro, essa célula voltou a ter as mesmas características de uma célula embrionária.

Em laboratório, a nova célula embrionária foi inserida em um óvulo não fertilizado de uma outra ovelha, que começou a se comportar como um óvulo recém-fecundado por um espermatozóide. O passo seguinte foi inserir esse óvulo no útero de uma ovelha da raça Scottish Blackface, o que deu origem a Dolly, um filhote branco idêntico ao doador original, ou seja, com o DNA herdado da ovelha branca da raça Finn Dorset.

Wilmut explica o nome da ovelha, relacionando-o com o da cantora americana de música country: “Nós não poderíamos ter pensado em ninguém com um conjunto tão impressionante de glândulas mamárias como Dolly Parton”.

Com a experiência de Dolly parecia abrir-se um caminho concreto para a clonagem humana e cientistas acreditaram que esse seria um método facilmente aplicável a pessoas que não podem reproduzir. Além de se tornar capa de revistas famosas, a febre gerada por Dolly fez surgirem idéias fantásticas sobre a possibilidade de se gerar bebês sem defeitos e mais saudáveis, seres superiores e mais inteligentes. Idéias mais fantásticas ainda foram as de clonar Jesus Cristo a partir de amostra de sangue do Santo Sudário, ou múmias intactas. Era cedo demais e os problemas logo surgiram.

Desde o nascimento de Dolly, questões éticas e políticas sobre a possibilidade de clonagem humana têm reacendido inflamados debates por parte da sociedade, das igrejas e dos próprios cientistas. Dois dias após ter sido anunciada a clonagem de Dolly, em fevereiro de 1997, o presidente Clinton organizou uma comissão nacional de bioética para discutir as implicações da clonagem, e nos Estados Unidos, assim como na maioria dos países ocidentais, a clonagem de embriões humanos está até hoje oficialmente proibida.

Apesar das proibições legais, em abril de 2002 a revista “New Scientist” publicou a notícia de que o médico italiano Severino Antinori havia clonado um embrião humano com finalidade reprodutiva e sua gestação já estaria com oito semanas. O argumento de Antinori e colegas pró-clonagem-humana é de que tal procedimento não apresenta riscos, face à possibilidade de se examinar padrões epigenéticos anormais em embriões pré e pós-implantação.

Entretanto, a bombástica notícia do nascimento do primeiro clone humano foi divulgada em 26 de dezembro de 2002 pela presidente da Clonaid, a “bispa” raeliana Brigitte Boisselier. Segundo Boisselier, doutora em física e química biomolecular, a menina clone, chamada Eve (Eva), seria a cópia de sua mãe, uma americana de 31 anos.

Como divulgou a Clonaid, Eve foi gerada a partir dos mesmos procedimentos utilizados para produzir a ovelha Dolly. Outras informações técnico-científicas não foram divulgadas. Até janeiro de 2003, por exemplo, a Clonaid não apresentou comprovação da identidade entre o DNA da mulher clonada e o da criança-clone. Quanto há de científico ou de picaretagem é ainda difícil de saber.

Verdadeira ou falsa, a notícia da clonagem humana reascende o debate sobre os riscos que um bebê-clone pode sofrer. Cientistas avessos à clonagem humana, por exemplo, duvidam da segurança dos atuais experimentos. A morte dos muitos embriões clonados aponta para problemas na eficiência do método atual de clonagem: mostra que os especialistas parecem não conhecer todo o funcionamento de genes durante o desenvolvimento do embrião, sendo ainda incapazes de controlá-los artificialmente.

Questões sobre a eficácia da célula tronco (diferenciada ou adulta) vêm sendo testadas pela comunidade científica. Em passado recente, acreditava-se que essa era uma célula “curinga”, capaz de assumir as funções de qualquer tecido animal. Em março de 2002, sua pluripotência foi questionada pelo cientista japonês Naohiro Terada, da Universidade da Flórida, através de um experimento onde ele verifica que as células tronco simplesmente haviam se fundido com células embrionárias.

Além disso, animais clonados nasceram maiores que filhotes normais, apresentam problemas de velhice precoce, defeitos no pulmão, coração e fígado. Em fevereiro de 2003, complicações decorrentes de velhice precoce fizeram com que Dolly fosse sacrificada. Novamente os cientistas explicam que, até agora, não se sabe exatamente se a reprogramação da célula diferenciada é perfeita ou não.

Enquanto os debates acontecem principalmente por causa das atuais limitações científicas e tecnológicas, uma brecha parece animar pesquisadores das áreas farmacológica, biológica, médica etc. Segundo esses cientistas, será um tempo de novas drogas e de uma alimentação mais nutritiva, desenvolvida por meio de clonagem de animais e plantas.

Com a concretização de Dolly e com a soma de novas informações que essa e outras experiências de clonagem vêm acumulando, especialistas em medicina genética já vêm trabalhando em torno de um novo paradigma: em vez de clonar novas criaturas, eles querem transformar as atuais em seres perfeitos, através, por exemplo, da medicina regenerativa. Recupera-se a idéia de pessoas livres de defeitos congênitos, de problemas de degeneração ou acidentes, e de doenças.

Em dezembro de 1998, na Inglaterra, por exemplo, o Conselho de Fertilização e Embriologia Humana e a Comissão de Conselho de Genética Humana liberaram a pesquisa com embriões humanos, mas recomendaram que ela deve se restringir aos propósitos de correção de doenças geneticamente adquiridas e ao desenvolvimento de novos tratamentos para órgãos e tecidos danificados (isto é, na medicina regenerativa).

Isso significa que, mesmo com os riscos, os debates éticos, as proibições e as previsões assustadoras que essa pesquisa vem suscitando (a possibilidade de geração artificial de exércitos, ou o espectro de uma eugenia), o campo mais promissor parece ser o da clonagem terapêutica, que visa a utilização do material genético de células de pacientes para criar células que reparem ou reconstituam outras que não funcionam ou estão doentes, propondo alternativas de tratamento para várias doenças.

Apesar da pesquisa científica não estar ainda oficialmente e comprovadamente em um estágio de criação de vida humana artificial, seu atual estado caminha para um futuro inevitável, em que o homem terá um entendimento maior sobre a vida e habilidade suficiente para sua manipulação.


Parabéns: é um híbrido!

O século XXI assiste a infiltração da vida artificial em nosso ambiente. A barreira da clonagem foi ultrapassada. O homem já pode criar seres biológicos de forma artificial. Outras formas de vida artificial, robôs e criaturas informacionais também já são uma realidade.

O próximo passo? Tudo indica que iremos integrar essas tecnologias dentro de nossos corpos, ou seja, os herdeiros de Frankenstein serão seres híbridos, misturas biotecnológicas, criaturas sintéticas e outras nem tanto.

Não se trata mais de ficção. A arte transgenética de Eduardo Kac já exibe alguns deles. “Alba”, criada em 2000, é uma coelha transgênica fluorescente verde, resultado da inserção em seus genes da proteína GPF K-9 (“Green Fluorescent Protein”), isolada de uma das mais antigas e resistentes amebas do Oceano Pacífico, Aequorea Victoria, que emite uma luz verde brilhante quando exposta à luz UV ou luz azul.

E ela não é única. Na instalação “The Eighth Day” (2000-2001), o artista dá um passo além. Ele simula todo um sistema ecológico artificial que agrega formas de vida transgenéticas e um “biobot” (um robô que possui um elemento biológico ativo, isto é, uma colônia de amebas-GFP que atuam como células cerebrais).

1 - Ciborgue é um organismo cibernético, parte humano parte máquina.


2 - Site: http://www.rdg.ac.uk/KevinWarwick/Info/home.html


3 - Rodney A. Brooks. “Flesh and Machines: How Robots Will Change Us. Nova York: Pantheon Books, 2002) pp. 233-236.


4 - No início do século XX, o embriologista Hans Spemann (1869-1941) fez experiências com separação de células de embriões e ganhou, em 1935, o prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o princípio organizador dessas células em seu desenvolvimento, mostrando que a célula embriônica retém a informação genética para criar um novo organismo, e propondo a possibilidade de um método de clonagem (The Official Web Site of The Nobel Foundation, 23 de julho de 2001).


5 - O núcleo é a estrutura celular que contém a maior parte do material genético e que controla o crescimento e o desenvolvimento do organismo.


6 - John Carey, “Bussines Week”, 10 de março, 1997, pp. 37-38.


7 - A Clonaid entra para a história como a primeira companhia de clonagem humana. Fundada em fevereiro de 1997, pelo ex-jornalista, Claude Vorilhon (conhecido como Raël) a companhia, conforme o site oficial (http://www.clonaid.com), destina-se a comercializar uma vasta gama de produtos que incluem: (1) Clonaid, produto para clonagem humana; (2) Insuraclone, kit genético de armazenamento de células humanas; (3) Ovulaid, serviço para escolha da aparência de um futuro bebê; (4) Clonapet, produto para clonagem de animais de estimação; (5) RMX2010, venda de fusão de células embriônicas.


8 - O movimento raeliano é uma organização religiosa de alcance internacional que prega que uma raça humana extraterrestre, denominada Elohim (nome extraído da Bíblia para representar a palavra Deus), utilizou-se de engenharia genética e DNA para criar vida na terra. O movimento também credita à raça Elohim e às suas técnicas de clonagem a ressurreição de Jesus. De acordo com Raël, líder da seita, o progresso das pesquisas em clonagem representa a chave para a vida eterna.


9 - Sobre o desenvolvimento e a reprogramação do gene e da segurança de se clonar seres humanos.


10 - Site: http://www.ekac.org/gfpbunny.html

 
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