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novo mundo
LIVRO/LANÇAMENTO

Presente do futuro
Por Fábio Fernandes



Divulgação

O mestre da ficção científica William Gibson trata da sociedade atual em seu novo romance

“Não temos futuro porque nosso presente é volátil demais. Temos apenas gestão de riscos. O desenrolar das probabilidades provocadas por um determinado momento. Reconhecimento de padrões.”

A citação acima, retirada de “Pattern Recognition” (ed. Putnam, 2003, importado), novo romance de William Gibson, descende diretamente das idéias que ele e os outros autores do movimento cyberpunk, como Bruce Sterling, John Shirley e Rudy Rucker, trouxeram não só para a literatura de ficção científica, como para a própria contemporaneidade.

Mas, se em livros como o já clássico “Neuromancer” (que completará 20 anos de publicação em 2004), o Gibson cyberpunk ia na onda dos punks britânicos de 1977 com seu slogan “No Future”, que na época significava a falta de esperança na humanidade, hoje o Gibson pós-cyber sampleia essa idéia, dando a ela o dom da volatilidade.

A explicação talvez seja simples: depois da internet, o mundo nunca mais foi o mesmo. As idéias nunca mais foram as mesmas. E o principal escritor cyberpunk também não.

Enquanto em histórias como “The Gernsback Continuum”, de 1981, o foco de Gibson está voltado para a história da arte, e “Neuromancer” provoca um estranhamento nos leitores com sua fetichização da tecnologia, “Pattern Recognition” é todo voltado para a questão das marcas.

Gibson aqui parece ter mixado Naomi Klein, partindo de onde “No Logo” parou, transformando o tratado da jornalista canadense sobre a sedução das marcas numa história de ficção, descrevendo alguns dias na vida de Cayce Pollard, uma “coolhunter”, ou seja, uma caçadora de tendências que (simplificando bastante) percorrem o mundo à procura de coisas interessantes para lançar no mundo da moda.

Mas Cayce (cujo nome, não por acaso, se pronuncia “Case”, o nome do protagonista de “Neuromancer”) não é só uma “coolhunter”. Nas horas vagas, ela faz parte de uma cada vez maior legião de fãs que navegam desesperadamente a internet, em busca de fragmentos de um filme que nos últimos anos tem se espalhado e virado um verdadeiro mania entre todos os tipos de internautas.

Esse filme (ou “the footage”, a filmagem, como é simplesmente conhecido pelos seus fãs) irá levar a americana Cayce à Inglaterra, ao Japão e à Rússia em busca de respostas. Respostas que deve trazer não apenas para si mesma, mas ao seu patrocinador bilionário, cujas motivações, evidentemente, não são claras, mas cuja influência é grande o bastante para abrir todas as portas que Cayce precisa -e deseja- ver abertas em sua busca pela verdade sobre o misterioso filme. E qual é a verdade? Para Cayce, não é uma questão de salvar o mundo ou ajudar uma inteligência artificial em seus planos grandiosos, como em “Neuromancer”, e nem sequer se trata do dinheiro que ela vai ganhar, se descobrir.

Sua motivação é uma curiosidade implacável, característica daqueles seres que vivem imersos na Rede (otakus, geeks, nerds e newbies, entre outras denominações) e compartilham a imensa sedução memética de textos e imagens que atrai e interliga corações e mentes no ciberespaço.

Para Cayce o que importa é responder as seguintes perguntas: quem está fazendo este filme? E com que propósito os segmentos estão sendo jogados na Rede? É um trabalho colaborativo ou individual? Não se sabe, e os fóruns de discussão (em particular o F:F:F, do qual Cayce participa ativamente) se dividem entre os Completistas, aqueles que acreditam que o filme é um trabalho fechado que está sendo jogados aos poucos na internet, e os Progressivos, que acreditam que é tudo um “work in progress”, feito aqui e agora.

E quando é esse agora de que fala Gibson? Não é o futuro em que se passam as suas famosas trilogias, a do Sprawl (meados do século 21) e a da Ponte (por volta de 2020), mas aqui, agora, já. É o ano de 2002, ainda sob o impacto do 11 de setembro -evento fulcral também na narrativa, pois é nesse dia fatídico que o pai de Cayce, o ex-agente secreto Win Pollard, desaparece misteriosamente em Nova York. Aos poucos, ela vai se dando conta de que tudo pode estar interligado de algum modo muito estranho.

Gibson não reescreve todas as regras da literatura de ficção científica em “Pattern Recognition”, como alardeia a contracapa do livro, nem parece ser essa a sua intenção. O que Gibson faz aqui é reescrever novamente suas próprias regras como escritor.

Na verdade, diria Gibson, “Cayce Pollard c’est moi”. A diferença entre criador e criatura é que Cayce está perdida no tempo e no espaço, e Gibson sabe muito bem o que faz. Pois não é de hoje que ele sai por aí como “coolhunting”. Gibson é caçador do que é “cool” desde os tempos dos contos de “Burning Chrome”, alguns deles datando de 1977 (!). Nenhum outro autor de ficção científica interferiu tão diretamente na criação de estilos e tendências no mundo inteiro.

Desta vez, entretanto, Gibson prefere voltar seu olhar para o presente. Mas não se enganem: “Pattern Recognition” é, como os outros livros dele, um belo e perigoso olhar crítico sobre a sociedade fluida e inconstante em que vivemos.

Mais uma vez, ele não só detecta as tendências como consegue projetar uma profunda imersão de sua prosa nesse “riverrun” poderoso do “grand temps” histórico de que falava Fernand Braudel. Reconhecendo padrões, caçando tendências, ele continua dando forma ao futuro, mas, desta vez, com um olhar fixo nesse nosso presente tão volátil e tão fluido.

Fábio Fernandes
É jornalista e escritor.

 
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