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dossiê
Outros cinemas

O futuro do cinema antecipado na Floresta Negra
Por Ilana Goldstein



"Be Me", de Max Dean e Kristan Horton (2002)

O ZKM - Zentrum für Kunst und Medientechnologie (Centro de Arte e Tecnologia de Mídias) foi inaugurado em outubro de 1997, numa fábrica antiga classificada como monumento histórico, no sul da Alemanha. Apesar de o edifício ter servido durante muito tempo para a produção de munição, curiosamente, ele não foi bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial.

Suas megadimensões industriais, a fachada antiga e os tetos de vidro originais foram respeitados pelos arquitetos hamburguenses Schweger e Partners, responsáveis pela transformação do edifício num complexo de laboratórios e salas de exposição. O ZKM funciona de maneira interdiciplinar e em parceria com instituições internacionais, como o MIT -Massachusetts Institute of Technology, com o qual compartilha o desejo de tentar aproximar criação artística e desenvolvimento de novas tecnologias.

A instituição é mantida pela cidade de Karlsruhe e pelo estado de Baden-Württemberg e oferece um programa de residência para artistas e pesquisadores do mundo todo. Sob seus tetos transparentes, há ao mesmo tempo gente desenhando, teorizando, construindo, testando e exibindo trabalhos "multimídia". A presença de uma instituição tão imponente e de ponta, em meio à pacata Floresta Negra, dá uma boa amostra de como funciona a política cultural alemã: seguindo o princípio federalista, procura-se descentralizar ao máximo a vida cultural e intelectual, fomentando a implantação de boas universidades, bibliotecas e museus em cada canto do território teutônico.

No acervo regular do ZKM, estão expostos trabalhos recentes que se utilizam de novas tecnologias: vídeo-instalações, ambientes interativos e obras de webarte.

O espaço mais interessante é certamente o que abriga as exposições temporárias. Foi lá que teve lugar, no verão de 2002, o concorrido evento "Iconoclash", com curadoria do antropólogo Bruno Latour, tematizando a destruição intencional de imagens e ícones religiosos, científicos e artísticos.

Agora é a vez de tentar prever como será o cinema do futuro. A exposição "Future Cinema", em cartaz até o final de março de 2003, propõe-se a rascunhar o que acontecerá com o cinema em alguns anos ou em algumas décadas, tanto do ponto de vista técnico, como do ponto de vista da narrativa.

Logo na entrada da exposição "Future Cinema", uma seqüência de televisores exibe filmes em preto-e-branco, homenageando a produção tcheca da primeira metade do século 20. Isso porque, em qualquer tentativa de mapear os trabalhos que pioneiramente problematizaram a relação entre arte e tecnologia, os artistas tchecos desse período se sobressaem. Vale a pena um parêntese para contar um pouco sobre esses "avôs" do multimídia.

A partir da década de 1920, vários artistas tchecos se lançaram à criação de um mundo utópico e irracional por meio das técnicas e materias mais "modernos" de que dispunham. Sua utopia modernista aliava, inusitadamente, construtivismo e surrealismo, rigor técnico e poesia.

Zdenek Pesanek (1896-1965), por exemplo, fascinado com a chegada da energia elétrica, criava esculturas "cinético-luminosas". Pesanek, que também teorizou e escreveu sobre a arte cinética, foi o primeiro a utilizar o néon como material e o primeiro a criar uma instalação luminosa para o espaço público. Duas décadas mais tarde, Frank Malina -com especialização em aeronáutica e mecânica dos fluidos- dedicou-se à criação do sistema "Lumidyme", que lhe permitia criar "pinturas" móveis e sem tinta. Na verdade, Malina construía caixas de acrílico recheadas com pequenos mecanismos rotatórios, engrenagens, objetos e lâmpadas coloridas. Suas obras convidavam o público a se deixar hipnotizar durante vários minutos, quase como quem hoje assiste à televisão.

É no seio desse movimento que o cenógrafo Josef Svoboda construía seus cenários móveis e abusava de truques ópticos. Suas obras mais conhecidas talvez sejam os espetáculos audiovisuais que concebeu para a Exposição Universal de Bruxelas de 1958.

Enquanto em "Polyecran" a cena era ocupada apenas por múltiplas projeções, em "Lanterna Magica", bailarinos, atores e um cenário móvel combinavam-se às projeções fílmicas. A interação era tão precisa que o público tinha a sensação de que as pessoas transitavam entre os telões e o palco. Num terceiro espetáculo-projeção de Svoboda, a ação era repentinamente interrompida, e o público podia escolher um dos vários fins previamente preparados para a história.

Não é à toa, portanto, que os espetáculos audiovisuais de Svoboda abrem a exposição do ZKM, numa espécie de preâmbulo histórico. Eles antecipam algumas das questões e tendências que perpassam o resto da exposição, como a interação entre seres virtuais e pessoas de carne-e-osso, a transgressão de fronteiras entre as diversas linguagens artísticas e a possibilidade de o espectador interferir no que assiste.

No que concerne a interatividade, são inúmeros e variados os projetos presentes em "Future Cinema". A equipe do laboratório de mídia do MIT, por exemplo, apresenta um filme sobre lobos em que a ação de cada um dos protagonistas quadrúpedes depende do comando de um espectador humano para acontecer.

“Alpha Wolf” (2001) é projetado numa tela grande e sua estética surpreende por não lembrar em nada o padrão dos videogames e animações habituais: os traços que compõem as árvores, a neve e os animais parecem desenhados e coloridos a mão, como numa antiga aquarela japonesa. Usando microfones e mouses de computador, duas pessoas devem produzir sons e movimentos que orientem os comportamentos de "seus" respectivos lobos. Dependendo das combinações de comando obtidas, os lobos brigam, caçam, brincam, fogem ou acasalam.

Christian Ziegler, artista residente do ZKM, expõe uma espécie de “road movie” ao gosto do freguês. O filme, intitulado “66movingimages” (1998/2002) e rodado na famosa auto-estrada norte-americana, passa numa grande televisão, que fica encaixada em trilhos fixados à parede.

O público pode movimentar o televisor pelos trilhos e, à medida que a tela desliza, as cenas vão se modificando, de uma região montanhosa para uma bela praia, passando por um posto de gasolina ou uma cidadezinha pacata. Quase como se a tela da televisão móvel fosse a janela do carro.

Uma terceira tentativa de incluir a participação do público no desenrolar do filme -mais ambiciosa, contudo menos bem acabada- é “Be Me” (2002), de Max Dean e Kristan Horton. No centro da tela, há um rosto neutro e apático que aguarda que alguém se sente em frente a ele para assumir sua voz e suas atitudes. A pessoa inclina a cabeça, o "ator" inclina também. A pessoa sorri, ele sorri ao mesmo tempo. Instantaneamente, sua expressão facial ou mesmo seus tiques aparecem na tela, incorporados pelo protagonista virtual. No entanto, não há enredo, nem planos, nem cenário, nem outros atores, nem ritmo, enfim, nada que lembre cinema. Parece mais um experimento técnico em fase de teste. (Aliás, diante da frustração de uma pessoa do público, cuja careta não fora compreendida pelo "ator", uma monitora da exposição afirmou que o projeto está mesmo em período experimental.)

Uma preocupação comum a vários trabalhos expostos é a exploração do espaço em torno do espectador. Assim, o badalado artista sul-africano William Kentridge projeta seu teatro de sombras no teto do edifício do ZKM, enquanto Shelley Eshkar e Paul Kaiser utilizam o chão como superfície de projeção para seus mini-homenzinhos (“Pedestrian”, 2002).

Para romper de vez com a imobilidade/passividade física do público, “Be Now Here” (1995-2002), filme em 3D de Michael Naimark, é projetado numa tela panorâmica circular que gira sem parar. No centro da sala, o painel de comando permite ao público -de pé e equipado com óculos especiais- escolher a paisagem em que quer entrar -entre as opções lembro-me de que havia Jerusalém, Cuba e Dubrovnik. Conjugam-se, portanto, a imersão óptica do 3D, a perda da orientação espacial, a necessidade de se movimentar para não perder o equilíbrio e a possibilidade de escolher o cenário da viagem virtual.

Mais impressionante ainda é o filme “Somebody, Somewhere, Sometime” (2002), de Maurice Benayou, concebido para ser visto individualmente. Tudo se passa dentro de um binóculo “high tech”. À medida que você "olha" para cima com o binóculo, vê o teto do lugar em que se passa uma determinada cena; se dirigir o binóculo para o chão, aparecem os pés dos atores, como se você realmente estivesse dentro do filme.

Uma das únicas empreitadas que ainda lembram o cinema convencional -com película, assentos para o público, diálogos, atores humanos, enredo- muito mais simples no que concerne a tecnologia, mas bem mais interessante do ponto de vista da narrativa, é o trabalho da finlandesa Eija-Liisa Ahtila, “Consolation Service” (1999). O filme conta, durante 26 minutos, a história da separação de um casal. A tela, enorme, é subdividida em duas. Na metade direita vê-se um filme convencional, com diálogos etc. e na metade esquerda a diretora pretende explorar o estado psicológico dos personagens, ampliando detalhes (como uma mão trêmula) ou projetando paisagens glaciais.

Em praticamente todos os outros casos, parece primar o desejo de fazer as pessoas literalmente se mexerem e, outro objetivo comum à maioria dos "cineastas do futuro", trazê-las para dentro do filme, seja envolvendo-as em ambientes virtuais e arrancando-as do tempo e do espaço em que vivem, seja transformando-as em elementos que interferem na narrativa. Tudo isso é muito divertido, e "Future Cinema" parece, por vezes, um parque de diversões para adultos.

A exposição atual do ZKM reúne uma grande quantidade daquilo que Arlindo Machado chama de "imagens técnicas": produtos audiovisuais em que o papel da mediação técnica é preponderante sobre o conteúdo, a ponto de eclipsar a concepção do sujeito criador. Quem gosta realmente do "velho" cinema, sente um certo mal-estar quanto a esta primazia das acrobacias técnicas. Só podemos torcer para que seja possível aliar as novas tecnologias a virtudes antigas, como um bom roteiro, diálogos inteligentes ou uma boa atuação.

Ilana Goldstein
É mestre em antropologia social na USP e em mediação cultural na Sorbonne, autora de "O Brasil - Best Seller de Jorge Amado" (ed. SENAC, no prelo).

 
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