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Tome-se o caso dos gêmeos israelenses Yarco e Daniel, filhos da classe média liberal cujos parentes não acreditam em Deus. Eles sabem muito bem que o temor que os assola todos os dias quando tomam o ônibus escolar não é mais do que o fruto da reação do povo árabe, derrotado em inúmeras guerras e conflitos e confinado em territórios demarcados. Pois bem, estes meninos judeus não estão contaminados pelo ódio cego e têm alguma curiosidade de conhecer seus contemporâneos árabes.

Por sua vez, também entre os meninos árabes se encontram alguns que, a despeito de participarem da Intifada e demais manifestações contra a opressão israelense, sentem interesse e curiosidade em travar conhecimento com os jovens israelenses. É então que o filme abandona completamente o padrão tradicional do documentário e assume a tarefa de uma intervenção crítica e catártica na realidade conflitiva: os cineastas providenciam as condições para que os que são estranhos e estrangeiros entre si possam estabelecer um contato, intermediando a ida dos gêmeos israelenses até uma região palestina próxima, apartada, entretanto, pelos comandos armados e pela miséria.

O trajeto de vinte minutos de um local ao outro evidencia o abuso do apartheid em todas as suas facetas, ao passo em que a rápida e fácil confraternização entre os supostos inimigos evidencia a promessa de uma solução pacífica para o conflito. O filme não se resume, portanto, a um retrato ou mapeamento do conflito, mas assume a tarefa grandiosa de atuar e interferir, desmontando os preconceitos e abrindo brechas no discurso coeso do rancor ideológico e religioso.

Duas cenas são exemplares a este respeito: a cena que mostra o desconcerto do menino árabe que diz odiar a todos os judeus, incondicionalmente, flagrado em contradição quando descobre que está de mãos dadas com um judeu, o cineasta de quem se tornara amigo; e, sobretudo, a cena emocionante em que outro menino árabe, que antes manifestara raiva e desconfiança em relação aos judeus, começa a chorar em meio à alegria da confraternização, porque percebe que o encontro é fictício e se tornará impossível quando os cineastas se forem: todos, inclusive o cineasta, choram a perda iminente da paz.

Esta cena nos recorda o óbvio, mais uma vez: nenhum conflito violento pode encontrar solução na ausência de uma intermediação política, de um terceiro que possa proporcionar as condições para a paz entre as partes beligerantes. Novamente, é lamentável que os Estados Unidos, único país capaz de efetivamente mediar o problema, tenha se ausentado da cena e mesmo respaldado política e economicamente a crescente truculência do governo de Sharon, a qual só poderá despertar mais ódio e atentados terroristas. Resta, entretanto, a promessa de uma paz e de uma amizade que já hoje se mostram possíveis: quem sabe no futuro, quem sabe entre os recém-nascidos, cujas imagens encerram o filme.

Por fim, temos o filme de Agnès Varda, dedicado aos homens e mulheres que vivem e, no mais das vezes, sobrevivem, da cata e coleta dos restos deixados para trás no processo da produção de mercadorias e do seu consumo de massas. Varda toma como ponto de partida o antigo costume dos camponeses que, sazonalmente, voltavam ao campo para recolher o que restara da última colheita, comportamento retratado em vários quadros do século XIX e celebrizado pelas telas de Millet, várias vezes filmadas ao longo do documentário.

Varda viaja do passado ao presente e nos mostra que tais práticas ainda são comuns atualmente. Hoje, a colheita já não é mais manual, mas mecânica, e de cada campo trabalhado pelas máquinas sobram toneladas de frutas e legumes que, por não se adequarem a critérios estéticos um tanto arbitrários, restam abandonados ao solo, ao mesmo tempo em que a fome impera pelos quatro cantos do mundo e ali mesmo, ao lado das propriedades recém-lavradas.

Abundância e miséria convivem lado a lado num laço que não se desfaz e que se torna ainda mais apertado quando alguns dos proprietários decidem proibir até mesmo esta segunda coleta do que, dentro em pouco, apodrecerá. Dos campos, Varda filma seu trajeto pela estrada para as cidades, para as periferias, para as feiras de rua que deixam seus restos pelo chão, para as latas de lixo dos bairros de classe-média.

Entre as sobras de lixo encontram-se inúmeros produtos ainda perfeitamente aproveitáveis, prontamente descartados em função da obsolescência planejada de uma economia que depende dos desperdícios para continuar a movimentar-se e a crescer. E, em meio a tudo o que foi recusado, desprezado ou abandonado, Varda filma os próprios marginais e se solidariza com eles, revelando-os em sua humana diversidade: os que não têm outro recurso senão o de revirar e remover o que foi jogado fora pelos que podem comprar e consumir; os que, por uma decisão ética, recusam-se a alimentar os desvarios e desperdícios da sociedade de consumo e se alimentam de seus restos; os artistas e artesãos que dão nova vida a bugigangas imprestáveis, etc.

Durante todo o percurso, e é isto o que faz toda a diferença deste filme, a própria Varda enxerga-se a si mesma como uma coletora do detalhe, das histórias humanas pelas quais ninguém mais se interessa. Ao compartilhar com os catadores e catadoras o mesmo interesse afetivo e vital pelo que foi desprezado, Varda realiza um filme que não se limita a descrever, a partir de fora, a realidade do contraponto entre a miséria e excesso, entre a pobreza e a opulência.

Ao tomar-se a si mesma como tema do filme, consciente da pobreza marginal de seu cinema em meio à abundância do cinema-lixo, é a própria maneira de filmar de Varda que manifesta seu compromisso integral com a reciclagem criativa do sentido, do inútil e do insignificante: tome-se, por exemplo, o relógio sem ponteiros que ela recolhe e instala em sua mesa de trabalho, um objeto que lhe serve sob medida na velhice.

Atenta à beleza do fragmento e do detalhe, Varda capta e preserva a imagem insólita do simpático vira-latas que traz uma luva de boxe atada ao pescoço, ou os estranhos desenhos compostos pelas goteiras e infiltrações na parede de sua própria casa, comparando-as com quadros do expressionismo abstrato americano. Recorrendo à poesia, à pintura e ao auto-retrato, Varda filma os catadores e catadoras e redescobre a humanidade esquecida e submersa em montes de lixo, isto é, ali mesmo onde jamais pensaríamos buscá-la.

No momento em que, finalmente, assumiu-se no Brasil a tarefa prioritária do combate à fome e à miséria, o filme de Varda se transforma em um verdadeiro manifesto: ele não é apenas um magnífico libelo contra o desperdício organizado, mas também um elogio da criatividade solidária que se encontra dispersa nas ruas, campos e periferias das grandes cidades.

André Duarte
É professor de filosofia da Universidade Federal do Paraná e autor de "O Pensamento à Sombra da Ruptura" (Paz e Terra), sobre Hannah Arendt.

 
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