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Assim vieram a quinta, a sexta e a sétima versões. Depois que começamos a ensaiar o filme com os atores já escolhidos estas contribuições ficaram ainda mais interessantes e comecei a incorporar também as idéias das pessoas envolvidas no processo, a Katia Lund e o Cesar Charlone (fotógrafo) deram importantes contribuições.

E na hora de filmar? Quando vocês definiam as cenas, elas eram decoradas? Os diálogos eram decorados pelos atores?

Meirelles: Filmamos a 12ª versão do roteiro, mas mudamos muita coisa na hora de rodar. Os diálogos tinham uma certa flexibilidade. Não eram decorados, variavam de “take” a “take”. O elenco, definitivamente, é co-autor do roteiro. Ao ler a versão que filmamos, percebe-se que grande parte do que é dito na tela, não está escrito.

E o laboratório com os atores?

Meirelles: Este processo é longo e exige uma paciência de Jó. Muitas vezes você sabe o que quer que o ator diga, mas tem que ficar calmo, dar as dicas aos poucos, até que ele chegue àquela frase ou idéia por si mesmo. Acaba sempre chegando a algo mais ou menos próximo, mas invariavelmente de uma forma mais autêntica. A Fátima Toledo, que veio preparar o elenco no final do processo, nos forçava a ter sempre essa paciência e não nos deixava entregar nada aos atores. Esse é um pouco o seu processo, não é? Só que no meu caso parti de uma história pronta. Você vai ser mais radical ainda? Você vai começar...

...do zero, dos laboratórios, sem uma história previamente definida.

Meirelles: Você vai deixar os atores criarem a história, como o Mike Leigh faz. Isso dá trabalho, mas o processo é muito rico, e o resultado fabuloso pela sua verdade. Eu acho lindo, dou todo o meu apoio!

Obrigada. Eu estou querendo trabalhar desta maneira. Estou animada.

Meirelles: Muito legal. Ainda mais o Mike Leigh, que para mim é um (faz gesto de reverência) mestre.

Para mim também (risos). Estamos bem de mestres.

Meirelles: Estamos bem de referências.

Mas o Bráulio não assistia às imagens dos meninos? Você gravava essas improvisações, não é? Ele trabalhou, a partir da quinta versão, apenas sobre as suas anotações?

Meirelles: Ele foi algumas vezes passear comigo na Cidade de Deus. Até para entender o livro, respirar o universo do livro. Antes de começar a escrever o roteiro, o Paulo Lins fez um tour com a gente. Passamos um dia em Cidade de Deus. Porque o livro fala: "Lá em cima, lá em baixo, nos apês, no laguinho, perto do rio...".

Isto era coisa abstrata para a gente. Nós quisemos entender o lugar para poder escrever. Mas o Bráulio também assistiu a alguns ensaios. Às vezes eu mandava os ensaios gravados para ele assistir e sentir. Até indicava seu ator preferido para um papel. Ele chegou a ir ao Rio umas quatro ou cinco vezes. Passava o dia lá com a gente, às vezes dois dias. Ele ficava com um caderno "colhendo" expressões e depois as trocava no roteiro.

Como você disse, ele se alimentou dos ensaios.

Meirelles: O Bráulio fez um trabalho atípico de roteirista. Ele começou em 98 escrevendo, adaptando. Depois acompanhou esse processo de ensaio. Durante a filmagem eu mexia em algumas coisas e ele chegou a ir ao set -apesar de detestar sets.

O Bráulio também acompanhou a montagem e quando chegamos à primeira versão resolvi reescrever a narração porque estava muito artificial. Aí o Bráulio entrou de novo, reescreveu este texto e me ajudou a remontar o filme com estas novas narrações.

Mexemos muito na estrutura do filme durante a montagem, o Daniel Rezende, o montador, Bráulio e eu. E na hora em que acabamos este processo ele ainda voltou a rescrever as narrações mais duas ou três vezes. Eu chamava o Alexandre Rodrigues (Buscapé), no Rio, gravava, assistia. "Está artificial pra caramba!". Recomeçávamos novamente. Acabamos este trabalho por decurso de prazo. O fato é que nem o Bráulio, nem eu e menos ainda o Alexandre, ficamos plenamente satisfeitos com as narrações. “Off” é duro, não é?

”Off” é duro. Este processo não é nada comum, de ter um roteirista...

Meirelles: Colado, explorado.

Colado até o final, até a montagem.

Meirelles: Até a última versão da locução ele estava comigo no estúdio. Para sentir o ritmo das frases ou para uma emergência, caso alguma linha não funcionasse. Foi o primeiro a entrar e o último a sair. Impressionante. Quando o Bráulio saiu do projeto eu fui fazer a mixagem do som do filme. É legal poder ter um cara assim, tão dedicado. É que estávamos entusiasmados. Ele estava entusiasmado, ele estava a fim de que o filme ficasse bom. Teve um envolvimento pessoal, eu sou muito grato.

Como foi a participação da Katia Lund?

Meirelles: Katia Lund ficou mais concentrada no trabalho com o elenco e pensava muito na consistência dos personagens, na história de cada um. Às vezes eu inventava algumas tramas, e ela dizia: "Isso não funciona porque não acontece assim". Eu me lembro, por exemplo, de uma sequência em que o Zé Pequeno está brigando com o Cenoura no baile. Ela estava lá, ensaiando a marcação da cena. Então eu sugeri: "Pequeno puxa uma arma". A Katia: "Não Fernando, num baile o cara não pode puxar a arma. Se ele faz isto ele vai ter que matar o cara e aí acaba o baile.". É esse tipo de detalhe que coloca o filme na real e dá a consistência. “Cidade de Deus” é muito a cara da Katia, do Cesar, do Bráulio, do Daniel e a minha.

Com cada um desses parceiros eu passei por um processo enorme. Fora o Tulé, diretor de arte, a Andrea Barata Ribeiro e a Bel Berlink, que seguraram as pontas na produção por quatro anos. Apesar de ter financiado o projeto, não precisei gastar meu tempo pensando em números, contratos ou negociações. Concluindo: é um filme autoral, mas é um filme autoral de equipe.

Como você chegou à idéia de trabalhar com atores amadores ou "não-atores"?

Meirelles: Como disse antes, o que me fascinou no livro do Paulo Lins foi o ponto de vista de dentro para fora. Queria fazer o filme com a mesma pegada. Sabia que um ator que mora em Ipanema, dificilmente iria conseguir me dar isso. Eu precisava do humor das comunidades, das expressões, do acento, do olhar. Além do mais, eu acredito em atores de nascença, como músicos ou desenhistas. Carisma ou atuação não se ensina, uma fatia da população nasce com estes dons. É só dar uma lapidada.

Sabia que em todas aquelas comunidades do Rio, eu acharia um elenco. Ken Loach me ajudou a acreditar que seria possível encontrar estes atores amadores. Além disso, 2/3 dos comerciais que fiz na vida foram com amadores e sempre consegui bons resultados, embora saiba que num comercial de 30 segundos é mais fácil enganar. Claro que tinha um certo temor de não encontrar as pessoas certas, especialmente um ator para fazer o Zé Pequeno. Por isso convidei o Matheus Nachtergaele, que ainda não era conhecido, mas que eu tinha visto em uma peça em São Paulo, "O Livro de Jó".

Achei ele fantástico! Ele poderia ser o Zé Pequeno. Quando assisti à peça eu estava comprando os direitos do livro. Assim que comprei, liguei para o Matheus Nachtergaele: "Eu estou fazendo um filme e tem um personagem aqui, o Zé Pequeno e tal. Acho que você pode fazer...". Ele aceitou no ato.

Eu queria me garantir, pelo menos com o Zé Pequeno. No início da oficina de atores - o "Nós do Cinema", como chamamos - incluí alguns atores profissionais para me garantir. Com o tempo percebemos que a maneira deles atuarem era muito diferente da dos amadores e eles acabavam ficando em outro tom. Aos poucos fui agradecendo o empenho, explicando esta questão do tom, e os profissionais foram saindo.

Eles então chegaram a participar da escola?

Meirelles: Chegaram. Alguns quase fizeram o filme. O Lui Mendes foi o caso mais extremo. Ele foi chamado para fazer o Mané Galinha, pois não tínhamos nenhum garoto bonito disponível, e o problema do Pequeno com o Galinha era basicamente inveja pelo fato do cara ser boa pinta e ter todas as mulheres que quisesse, daí o apelido "Galinha". Ele chegou num tom muito diferente dos outros garotos, mas com uma disposição impressionante. Abriu mão de outros trabalhos, mudou até fisicamente, ficando menos forte e mais seco.

Era muito gratificante ver o empenho e o profissionalismo do Lui. Em três meses ele estava transformado, havia abaixado o tom. Porém, na reta final o Seu Jorge saiu do “Madame Satã”, e o Walter Salles sugeriu que eu ao menos o encontrasse. A Katia Lund também havia sempre defendido o Seu Jorge para o papel. A verdade é que, assim como o Mané Galinha, o Seu Jorge perdeu dois irmãos para o tráfico e teve que morar nas ruas por muitos anos, por estar sendo ameaçado. A sua história era a mesma do personagem. Ele tinha uma verdade que toda a técnica e o incrível trabalho feito pelo Lui não poderiam entregar.

O Lui se preparou 3 meses, o Seu Jorge estava fazendo este laboratório a vida inteira. Mesmo assim, eu ainda achava que o Lui poderia emocionar mais o espectador, e sofri por uma semana com esta decisão. Mas eu era o único na equipe com esta opinião. Acabei substituindo o Lui. A Mariana Gimenez também chegou a trabalhar por um tempo no papel de Angélica, os garotos já estavam todos apaixonados, mas preferi uma cara desconhecida, e acabei substituindo-a pela Alice Braga, paulista, mas "legal para caramba".

E o Matheus Nachtergaele?

Meirelles: Aí só sobrou o Matheus de ator conhecido. Dois anos depois de nosso primeiro contato, convidei-o para jantar no Rio e expliquei: "Acho que está difícil, Matheus. Primeiro porque você ficou conhecido, e eu não queria atores conhecidos no filme. Segundo, que eu já achei o Zé Pequeno...". Mas aí ele falou: "Eu quero fazer esse filme, vou fazer o trabalho de não-ator, eu quero me misturar com essa galera, ninguém vai nem ver que eu estou no seu filme" Eu disse a ele: "Então vamos tentar, temos o Cenoura...". E ele realmente conseguiu se misturar ao resto do elenco. Fora do Brasil eu cheguei a perguntar para alguns jornalistas: "Me fala quem é o profissional ali". Ninguém diz que é o Matheus.

Soube que Matheus se recusou a ler o roteiro para ficar em pé de igualdade com os outros do elenco.

Meirelles: Nós não demos o roteiro para os atores, mas evidentemente dei para o Matheus. Porque é o Matheus! Mas ele foi bem sincero: "Você está querendo me derrubar? Se ninguém conhece o roteiro, eu também não quero conhecer". E ele estava certo. Ninguém se prendia às falas, mas sim à intenção da cena. Bastava ficar atento ao que o outro dizia e criar a sua própria fala. E assim foi feito.

Então ele improvisava como os outros?

Meirelles: Exato. Dávamos, com muita clareza, a intenção da cena e a intenção de cada personagem. Eles tinham um tempo para preparar a cena. Ensaiávamos muitas vezes cada uma destas cenas e no processo íamos dando a forma: "Use sempre esta frase que é boa, não precisa ficar ameaçando, não, vá direto a este ponto... Isso que você fez com a arma é engraçado, repete". E assim por diante.

Ao repassar a cena várias vezes, algumas linhas e reações começavam a se repetir sempre. É como se os diálogos fossem sendo escritos e decorados neste processo. Acho que tem relação com o jazz: para improvisar os músicos tem que ensaiar muito. Há muito rigor num processo improvisado, por mais paradoxal que isto possa parecer. O Matheus entrou nessa onda.

De fato o Matheus está “escondido” no meio dos demais garotos.

Meirelles: É ele está ali no meio e passa batido. Não tem a hora do show do Matheus. Ele entra, sai do filme e você nem percebe. Isso é um elogio.

E o que aconteceu com a oficina "Nós do Cinema"?

Meirelles: Depois destes programas irem ao ar em outubro de 2002, a Katia Lund passou a cuidar do "Nós do Cinema", a escola de atores que havia sido remontada depois das filmagens. Esta escola não é um projeto social, mas sim um grupo de pessoas em busca de qualidade em seus trabalhos com dramaturgia.

E os meninos de “Cidade de Deus”?

Meirelles: Alguns garotos já estão se encaminhando para uma carreira de ator. Vou te contar como um final de filme "baseado em fatos":

. Leandro/Zé Pequeno está viajando com a peça “Woyzek, um Brasileiro”, pelo Brasil e vai fazer vestibular em 2003.

. Jonathan/Cabeleira fez um papel importante no longa “Diabo a Quatro”.

. Roberta/Berenice fez um papel no “Diabo a Quatro” também.

 
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