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MERCADO

Breton vai a leilão
Por Marcelo Rezende



Reprodução

A valiosa coleção de objetos de arte do mestre do surrealismo será colocada à venda em Paris

No discreto cemitério parisiense de Batignolles, sobre o túmulo do francês André Breton -escritor, poeta, artista, revolucionário, agitador da cultura e mestre do surrealismo-, uma frase resume sua trajetória no mundo: “Eu procuro o ouro do tempo”. Trinta e sete anos após seu desaparecimento, chegou o momento do resgaste de seu ouro, quando no próximo dia 1o de abril a casa CalmelsCohen iniciar o leilão, e a dispersão, de um dos maiores fetiches artísticos do século 20: a coleção Breton.

De 1922 a 28 de setembro de 1966, data de sua morte, aos 70 anos, André Breton viveu e trabalhou em um apartamento de 80 metros quadrados no número 42 da rue Fontaine, no 9o distrito de Paris.

Lá, mesmo durante curtas ou longas ausências (como o exílio nos Estados Unidos, provocado pela Ocupação alemã durante a Segunda Guerra), funcionou o quartel-geral do movimento surrealista. Do lugar, Breton ditava regras, produzia poemas e romances, colagens e manifestos, excomungava os que saíam da justa linha traçada por ele e, além de tudo, colecionava de maneira determinada. E é essa memória da vanguarda, composta de objetos que se contam aos milhares, que será oferecida aos interessados.

O leilão é resultado do assédio de décadas à família de Breton, como Véronique Guichard, representante da CalmelsCohen, disse a Trópico: “Desde a morte de Breton, Élisa, sua viúva, e Aube Elleouet-Breton, a filha, receberam todo o tipo de oferta pela coleção, mas conseguiram proteger o acervo. Fizeram, durante esse período, doações de algumas peças. Outras foram vendidas. Não muitas. O que restou é ainda muito precioso”. E também numeroso. Serão leiloados 4 mil lotes, compostos de 400 quadros, gravuras e desenhos; 1.500 fotografias, 3.500 livros (em sua maioria com dedicatórias, observações, frases breves para Breton), 5 mil manuscritos, 150 obras de arte primitiva e 300 de arte popular.

Em 1959, Breton preparou por diversão um pequeno texto, em uma paródia do estilo jornalístico, que descreve o apartamento da rue Fontaine: “Nós estamos aqui, em Montmartre, a dois passos da place Blanche. (…) Quando a zeladora nos disse que o senhor Breton vivia no segundo andar e meio, nos perguntamos, inquietos, se seu apartamento não seria uma réplica daquele do célebre poeta Alfred Jarry, autor de ‘Ubu Rei’, com o teto tão baixo que ele não conseguia se manter de pé. (…) Chegando, respiramos aliviados. Uma larga janela dá para uma praça sobre uma avenida cheia de árvores (…) mas não estamos aqui para olhar a janela. Todo um canto do apartamento está acarpetado de livros: obras de poetas, e mais poetas ainda, mas também de Hegel e Freud ‘au grand complet’, sociólogos, muitos e muitos trabalhos de etnologia, alguns ocultistas. Sobre a parede, telas de Chirico, Max Ernst, Picasso, Miró. Um gosto acentuado também por obras ditas ‘naives’. Pelas produções artísticas dos alienados. Uma coleção de objetos etnográficos, mostrando sua predileção pela arte da Oceania e dos índios da América (…)”.

Em cada uma dessas peças há muito da vida de Breton, do surrealismo e da recente história da arte e do comportamento do Ocidente. Para ele, o surrealismo não era -como depois parece ter sido criticamente condenado a ser- uma corrente estética, mas todo um novo entendimento sobre o homem, a sociedade e a política.

A ordem era então revolucionária, pregando a transformação total, radical, e sua coleção são os traços desse manifesto. Mas Aube, sua filha, afirma ser impossível a manutenção do acervo, e como “os poderes públicos franceses não se engajaram na criação de uma Fundação do Surrealismo”, como disse ela à imprensa francesa, tudo poderá se espalhar entre vários proprietários.

Esse é o lado polêmico do leilão: o fato de o Estado francês não ter, ao menos ainda, se mobilizado para que as obras possam ser ofertadas ao público em um museus ou fundação, e não deixá-las serem condenadas a posse daquele que puder pagar mais.

Na última semana, o Ministério da Cultura francês lançou um comunicado afirmando que parte das peças “dessa obra de arte total” pertencem já ao centro Georges Pompidou, o Beaubourg. Na verdade, são pouco mais de 200 delas. Segundo o texto, o Estado seguirá o leilão “com toda a vigilância necessária”.

Para parte de artistas, intelectuais e políticos franceses, “toda vigilância necessária” não é o suficiente. Uma petição contra a venda, com 500 assinaturas (como as do filósofo Jacques Derrida e do escritor Michel Butor), foi entregue ao governo, que alega ter já feito o máximo possível, e não vê como investir 30 milhões de euros -essa é a avaliação para a coleção- a fim de impedir o leilão.

O debate continua, e até abril pode se tornar mais ruidoso, apesar de não ser ele o único. Se a coleção Breton não for vendida, qual será o seu destino? Continuar onde está, todas a partes concordam, é impossível. A outra alternativa seria um museu, e aqui a discussão se torna um pouco mais difícil.

O surrealismo sempre odiou museus. Breton e instituições desse gênero são termos rigorosamente excludentes, e é com essa idéia que a CalmelsCohen procura mostrar que o leilão é um destino mais “natural” do que parece às obras. O catálogo preparado para o evento traz várias frases de Breton sobre seu desapego ao destino dos objetos e sua atração pelas possibilidades do espírito.

Em abril, a casa de leilões promete lançar um CD-ROM e um site, possibilitando que estudantes e curiosos tenham também acesso ao que Breton colecionou por anos. Uma vez mais, isso não tem acalmado os que são contra o fim do “tesouro da rue Fontaine”.

A situação é especialmente confusa, mas há ao menos uma certeza: para os franceses é doloroso se acostumar com a perda, porque existe já um precedente. Quase um trauma. Em 1937, cansada de intermináveis negociações com o Museu do Louvre, a sra. Doucet vendeu aos nova-iorquinos da galeria Seligmann um lote de cinco telas de Pablo Picasso. Entre elas, “Les Demoiselles d’Avignon”, um dos trabalhos que marcam o nascimento do cubismo. A tela partiu em 9 de outubro. Paris começava a deixar de ser a capital das artes.

Agora é a vez de André Breton, e, no seu caso, nenhuma resposta pode ser aceita como correta. Como escreveu em um de seus textos, e que será também vendido, “vivemos todos ainda sob o reino da lógica, mas os métodos lógicos são aplicados hoje apenas na resolução de problemas secundários”. O surrealismo, mais uma vez, é capaz de dar a última palavra.


Data e local das vendas

Hôtel des Ventes Drouot-Richelieu
De 1º a 18 de abril de 2003

CalmelsCohen – Maison de Vente
12, rue Rossini – 75009 Paris
Tel.: 00 33 (0) 1 47 70 38 89
Fax: 00 33 (0) 1 45 23 01 46


Destaques da coleção de pinturas de Breton

Alechinsky, Pierre
Aloïse
Arp, Hans
Baj, Enrico
Benoît, Jean
Bona
Bourdil, André
Bouvet, Francis
Brauner, Victor
Breton, André
Breton, Elisa
Camacho, Jorge
Crépin, Fleury-Joseph Dalí, Salvador
Demonchy, André
Dominguez, Oscar
Donati, Enrico
Duchamp, Marcel
Duvillier, René
Elléouët, Yves
Ernst, Jimmy
Ernst, Max
Fautrier, Jean
Fernandez, Louis
Filiger, Charles
Füssli, Erich
Gironella, Alberto
Gorky, Arshile
Granell, Eugenio-Fernandez
Groux, Henry de
Hantaï, Simon
Hauchecorne, Philippe
Hayter, Stanley-William
Hernandez, Miguel
Hérold, Jacques
Hyppolite, Hector
Jennings, Humphrey
Kamrowski, Gérôme
Klapheck, Konrad
Kopak, Slavko
Krisek
Laloy, Yves
Lam, Wifredo
Lamba, Jacqueline
Lebel, Jean-Jacques
Le Maréchal, Jacques
Loubchansky, Marcelle
Luca, Gherasim
Magritte, René
Maisonneuve, Pascal-Désir
Malkine, Georges
Man Ray
Marcoussis, Louis
Martini, Alberto
Mallo, Maruja
Masson, André
Matta, Roberto
Mesens, E.-L.-T.
Miró, Joan
Molinier, Pierre
O’Connor, Roderick
Onslow-Ford, Gordon
Oppenheim, Meret
Paalen, Wolfgang
Parent, Mimi
Penrose, Roland
Picabia, Francis
Picasso, Pablo
Planells Cruanyes, Angel
Poucette
Rahon, Alice
Reigl, Judit
Ribemont-Dessaignes, Georges
Riopelle, Jean-Paul
Rivera, Diego
Rops, Félicien
Rozsda, Endre
Sage, Kay
Sardou, Victorien
Seigle, Henri et No
Silbermann, Jean-Claude
Skurjeni, Matija
Styrsky, Jindrich
Svanberg, Max Walter
Tal-Coat, Pierre
Tamayo, Rufino
Tanguy, Yves
Toyen
Trouille, Clovis
Vaché, Jacques
Varo, Remedios
Vivancos, Miguel-Garcia
Wilson, Marie
Wölfli, Adolf
Zötl, Aloys


Alguns autores dos manuscritos

Adamov, Arthur
Alexandre, Maxime
Aragon, Louis
Artaud, Antonin
Baron, Jacques
Béarn, Pierre
Bellmer, Hans
Benayoun, Robert
Bounoure, Vincent
Bousquet, Joe
Brauner, Victor
Bravo, Alvarez
Breton, André
Brunius, Jacques
Cabanel, Guy
Cahun, Claude
Canseliet, Eugène
Carrington, Leonora
Carrive, Jean
Césaire, Aimé
Crastre, Victor
Dalí, Salvador
Dax, Adrien
Debout, Simone
Delteil, Joseph
Desnos, Robert
Doumayrou, Guy
Dubuffet, Jean
Duchamp, Marcel
Dupin, Jacques
Eluard, Paul
Ernst, Max
Estienne, Charles
Fry, Varian
Gaillard, André
Giacometti, Alberto
Goldfayn, Georges
Heine, Maurice
Henein, Georges
Höch, Hannah
Huelsenbeck, Richard
Ivsic, Radovan
Jaguer, Edouard
Jouffroy, Alain
Kahn, Simone
Klossowski, Pierre
Lagarde, Robert
Lamba, Jacqueline
Lebel, Jean-Jacques
Lebel, Robert
Legrand, Gérard
Leiris, Michel
Lely, Gilbert
Lévi-Strauss, Claude
Luca, Gherasim
Mabille, Pierre
Maeght, Aimé
Malet, Léo
Man Ray
Masson, André
Massot, Pierre de
Matta, Roberto
Mayoux, Jehan
Molinier, Pierre
Morise, Max
Moro, César
Nadja
Naville, Pierre
Noll, Marcel
Nougé, Paul
Penrose, Valentine
Péret, Benjamin
Picon, Pierre
Pierre, José
Prassinos, Gisèle
Queneau, Raymond
Ribemont-Dessaignes, Jacques
Roditi, Edouard
Rougemont, Denis de
Schuster, Jean
Thirion, André
Unik, Pierre
Valéry, Paul


Alguns autores da biblioteca de Breton

Alexandre, Maxime
Allais, Alphonse
Alleau, René
Alquié, Ferdinand
Apollinaire, Guillaume
Aragon, Louis
Arp, Hans
Artaud, Antonin
Bataille, Georges
Bédouin, Jean-Louis
Blake, William
Blanchard, Maurice
Bonnefoy, Yves
Bounoure, Vincent
Breton, André
Brisset, Jean-Pierre
Bryen, Camille
Cabanel, Guy
Caillois, Roger
Calas, Nicolas
Carroll, Lewis
Cendrars, Blaise
Césaire, Aimé
Chazal, Malcolm de
Chirico, Giorgio de
Corbière, Tristan
Crevel, René
Cros, Charles
Dalí, Salvador
Denon, Vivant
Desnos, Robert
Dubuffet, Jean
Duchamp, Marcel
Duprey, Jean-Pierre
Eluard, Paul
Fabre d’Olivet, Antoine
Freud, Sigmund
Fulcanelli
Genet, Jean
Ghil, René
Gracq, Julien
Guénon, René
Heine, Maurice
Hillel-Erlanger, Irène
Hugnet, Georges
Huysmans, J.-K.
Jacob, Max
Jarry, Alfred
Jean, Marcel
Jouve, Pierre-Jean
Lacan, Jacques
Lafargue, Paul
Lautréamont
Lebel, Robert
Lély, Gilbert
Lênin
Lévi, Eliphas
Louys, Pierre
Maeterlinck, Maurice
Mallarmé, Stéphane
Mayoux, Jehan
Mesens, E.-L.-T.
Moro, César
Naville, Pierre
Nouveau, Germain
Paini , Lotus de
Panizza, Oscar
Paulhan, Jean
Péret, Benjamin
Picabia, Francis
Picasso, Pablo
Pieyre de Mandiargues, André
Prévert, Jacques
Queneau, Raymond
Reja, Marcel
Reverdy, Pierre
Rigaut, Jacques
Rimbaud, Arthur
Rousseau, Henri
Roussel, Raymond
Sade
Saint-Martin, Claude
Saint-Yves d’Alveydre
Savinio, Alberto
Schéadé, Georges
Soupault, Philippe
Saint-John Perse
Swift, Jonathan
Trotski, Léon
Tzara, Tristan
Vaché, Jacques
Valentin, Frei Basile
Vielé-Griffin, Francis
Vitrac, Roger
Walpole, Horace


Alguns fotógrafos da coleção

 
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