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novo mundo
MÍDIA

Blogs: existo, logo publico
Por Giselle Beiguelman



Imagem do blog "biscoito fino"

Os sites pessoais ou comunitários trazem o melhor e o pior da comunicação on line

Blog é uma palavra estranha, sonora, tem jeito de onomatopéia, mas não é. Você pode não saber o que significa, mas certamente já ouviu em algum lugar. Derivada de web log ou weblog (registro de atividades, performance e acessos de um web site), ainda não foi incorporada ao completíssimo Merriam-Webster on line, que reúne 470 mil verbetes.

A despeito disso, a palavra blog está na boca do povo e na pauta do dia e define um site pessoal, ou comunitário, sem finalidades comerciais, que utiliza um formato de diário com registros datados e atualizados freqüentemente.

Estima-se que no ano passado, em 2002, 41 mil novos blogs foram criados a cada mês, segundo Tiffany Shlain, criadora e diretora do prestigioso “Webby Award”, “o” verdadeiro Oscar da internet.

O número é realmente espantoso, se lembrarmos que no início de 1999, antes do lançamento do primeiro sistema de criação e hospedagem gratuita de blogs (o Blogger), naquele mesmo ano, os blogs não passavam de 23.

Entretanto, quem digitou a palavra “blog” no Google, como eu, em janeiro deste ano, recebeu de troco 3.390.000 indicações de sites com esse perfil. Se, hipoteticamente, essa mesma busca fosse realizada em 1997, quando o termo foi cunhado por Jorn Barger, retornaria apenas um link como resultado (o “Robot Wisdom Weblog” de Barger).

Página cyberpunk dessa rápida história dos blogs (dê uma espiadinha no site que você entenderá o que estou dizendo), o blog de Barger não se assemelha, no lay-out e nas funcionalidades, aos de hoje. Contudo, seus princípios continuam orientando as discussões, das mais honestas as mais marketeiras, sobre o tema.

Entre esses princípios, vale lembrar:

1) Todo blog expressa a opinião de seu autor sobre um determinado tema ou sobre vários.

2) O conteúdo deve aparecer retrospectivamente (primeiro, os mais recentes).

3) Blog que faz jus ao nome tem muitos links externos, apontando para os logs (acessos) que seu autor gerou por aí e que, por sua vez, geraram, direta ou indiretamente, a motivação para que escrevesse e publicasse alguma coisa lá no seu blog.

4) Ninguém paga para acessar um blog.

5) Blog baseia-se em independência e compartilhamento e, por isso, é o futuro da comunicação.

Mas não foram esses princípios em si o que certamente fez esse tipo de site se transformar numa verdadeira “web paralela”, conforme prognosticava, em dezembro de 2000, David F. Gallagher, que escreve regularmente para a antenada seção “Circuits” do “The New York Times”.

Foram as funcionalidades interativas, que permitem comentar o escrito pelo autor de um determinado blog, e a produção de ferramentas eficientes, que dispensam conhecimentos de programação somadas ao marketing do “grátis e diretamente disponível para o mundo” os ingredientes dessa receita de sucesso.

Afinal, internet, para milhões de pessoas, ainda é uma grande máquina de encontrar pessoas e, se isso explica o “mistério” da audiência de salas de bate-papo, webcams e grupos de discussão, também complica a interpretação do potencial “memético” dessas coisas todas que envolvem novas práticas culturais, como sexo virtual, compartilhamento de arquivos e, sem dúvida alguma, blogs.

“Memes” são, seguindo a polêmica e interessante tese evolucionista de Richard Brodie, autor de “Virus of the Mind”, idéias contagiosas que se propagam como vírus e que, obedecendo a uma lógica darwinista, se impõem de acordo com processos de seleção natural.

Se a explosão dos blogs e, mais recentemente dos fotoblogs, comprova essa tese, no que diz respeito a sua forma de propagação, é preciso que se matize um pouco o processo de seleção natural que lhe é subjacente.

A priori, explicações como as dadas por Dave Winer, chefão, ou CEO como se diz, da Userland.com que definiu a ferramenta, na “Wired” de maio de 2002, dizendo que os blogs são o marco de um “retorno ao jornalismo amador, criado pelo amor à escrita e sem expectativa de retorno financeiro”, corroboram a tese de Brodie.

Mas, se lembrarmos que a Userland.com é a fabricante de um bom software para edição de blogs, o Radio UserLand, todo esse discurso meio tribalista, à la “eu sou de ninguém/ eu sou de todo mundo/ e todo mundo me quer bem”, fica um pouco relativo.

Infelizmente, pouquíssima coisa pode ser considerada realmente grátis na internet, assim como na chamada televisão aberta. Isso exigiria a formulação de políticas públicas de acesso, que envolveriam não só a garantia dos meios (conexão, computador e eletricidade), mas o direito à liberdade de opção de sistema operacional, provedor, companhia telefônica ou de cabo, equipamento, enfim, tudo que um pagante tem.

Contudo, é inegável, para além do falso romantismo do “grátis e disponível para o milhões de pessoas”, que o sucesso dos blogs aponte para duas questões: sua consolidação no contexto dos reality shows e a emergência de um jornalismo independente que tem chamado a atenção dos especialistas.

A primeira questão exigiria uma análise sociopsicológica (para qual infelizmente não tenho elementos) que se detivesse nessa crença (que se dissemina “memeticamente”) de que a existência mediada pela tela nos transforma em alguém famoso, que ser famoso é ser alguém e, também, sobre as especificidades dos relacionamentos e construção da identidade na web.

A segunda merece que se pense sobre o que se chama informação independente. Argumenta-se, a favor dos blogs, que seu crescimento demonstra a necessidade e vontade dos leitores de acessarem pontos de vista múltiplos sobre as notícias, num mundo em que a concentração dos serviços noticiosos em alguns conglemerados midiáticos abrevia a pluralidade de informação.

O grande contraponto, no entanto é, como diz o CEO do “New York Times on the Web”, que os leitores querem informação triada, apurada e linha editorial coerente, coisa que os blogs não podem oferecer.

O curioso é que respeitáveis órgãos de informação, como o jornal “The Guardian” e a revista “Wired”, entre outras publicações, têm citado blogs, como o “MetaFilter”, entre as fontes declaradas de alguns artigos, e outros, como o de Rebecca Blood, têm se tornado sites de referência sobre jornalismo independente.

Além disso, formatos híbridos, como o do “Blog do Tas”, que traz os ouvintes do programa de rádio para a internet e discute temas relacionados ao programa, apontam para um crescente papel dessa ferramenta no âmbito da convergência das mídias.

Esse posicionamento dos blogs na malha de mídias fica evidente também na literatura, começando a dar corpo a um gênero literário baseado na experiência dos blogs pessoais de seus autores, como é o caso da gaúcha Clarah Averbuck, autora de “Máquina de Pinball” (Conrad, 2002) e do conhecido blog “brazileira!preta”.

Para Komninos Zervos, um dos mais respeitados e-poetas da internet, que lançou recentemente um audioblog, onde arquiva poemas sonoros produzidos por ele antes de 1995, o potencial de transformação da literatura pelos blogs é menos importante que a mudança que implica para a postura do autor.

Comentando o assunto, disse Komninos em entrevista à Trópico:

“Podemos dizer que todo o processo das listas de discussão refere-se a um discurso on line contínuo que flui sem parar. Os blogs são mais ou menos assim, porém se diferenciam dessa estrutura discursiva por estarem baseados em um único autor.

É muito interessante saber que posso entrar nos blogs de outros escritores e saber o que eles estão criando e pensando, diariamente, mas isso transforma o artista numa espécie de transmissor ligado 24 horas por dia, de segunda à segunda.

Pode ser que isso crie problemas, na medida em que a manutenção dessa telepresença on line, que deve ser constantemente atualizada e necessita do ‘feed back’ dos outros para se afirmar, demanda muitas horas diante do computador.

Recentemente foi descrito um novo tipo de dependência, típica de quem usa muito telefone celular, que é a ‘síndrome do contato permanente’. Pode ser que os blogueiros venham sofrer de outra, a da ‘conexão permanente’”.

Komninos, no entanto, acredita que se pode falar na emergência de uma “blog art”. “Os blogs podem ser interessantes para trabalhos colaborativos, em que quatro ou cinco artistas se reúnam para desenvolver conjuntamente um trabalho. Outros projetos, como o videoblog de Adrian Miles, parecem realmente apontar para a viabilidade dessa nova área”, afirmou.

No campo da arte, há ainda que destacar os sites de escritores que acrescentaram um blog às outras seções de seu site, como é o caso do de William Gibson, que traz alguns relatos interessantes sobre livros e leituras, mas não é aberto a comentários, nem necessariamente relacionado a seus projetos em curso.

Em sua grande maioria, (basta conferir um diretório como o do Google sobre o assunto, ou um especializado, como o eatonweb) os blogs são uma mistura de site pessoal com fórum sobre assuntos variados (de arte a celebridades, passando por esportes e mídia) sem se deter em um assunto fixo.

Muitos, como os brasileiros “eu hein?” e o “biscoito fino”, trazem algumas sátiras sobre comunicação de massas bem engraçadas, lembrando, para os mais velhinhos, como eu, do tempo do “Planeta Diário”, produzido pelos atuais “Cassetas”, que era vendido em banca de jornal.

Uma quantidade incontável de cyberlixo é produzida também nesses blogs, fazendo com que se pense que trazem, como a internet no seu todo, o melhor e o pior da comunicação, sem nunca passar pelos meios-termos.

Confira no “link-se” alguns blogs que valem uma clicada (ou mais).

link-se
Biscoito Fino
Blog do Tas
Brazileira!preta
eatonweb portal the original weblog directory
Eu hein?
MetaFilter
Netizen News
Robot Wisdom
Sãoken Word (Komninos Zervos)
William Gibson
Weblogs Google Web Directory
Vog (Adrian Miles)

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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