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Neste esforço monumental e global de modernização e de conversão das diferentes autopoiesis locais ao processo de modernização, resumido no lema “ordem e progresso” (que, de fato, resume a essência das duas caras da concepção moderna do tempo), rapidamente as forças políticas, intelectuais e econômicas congregadas e situadas na vanguarda do processo se deram conta de que só uma transformação radical e total da antiga organização social seria capaz de liberar estas forças da modernização. "Esforços localizados e esporádicos são capazes de modificar muito pouco o quadro geral. É só através de um ataque generalizado através de toda economia na educação, saúde, moradia, alimentação e produtividade que o círculo vicioso da pobreza, ignorância, doenças e baixa produtividade pode, definitivamente, ser quebrado."

Desta forma, "para aumentar a produtividade a ritmos constantes, sociedades inteiras tiveram que ser retificadas. (...) A partir de então, um florescimento de administrações e agências governamentais sem precedentes apareceu para enfocar todos os aspectos da vida -para contar, organizar, intervir e sacrificar sem pensar, tudo em nome do ‘desenvolvimento'. Hoje em dia o cenário se parece mais a uma alucinação coletiva. Tradições, hierarquias, hábitos mentais -a totalidade da textura social- foi dissolvida nos modelos mecanicistas do planejador. Assim, os expertos puderam aplicar a mesma fórmula de reforma institucional em todas as partes do mundo, cuja configuração, na maioria dos casos, refletia o padrão do ‘American way of life’. Não se concebia mais, como no período colonial, deixar as coisas 'amadurecerem durante séculos'. Depois da Segunda Guerra Mundial, engenheiros lançaram-se a desenvolver sociedades inteiras e de realizar o trabalho em poucos anos ou, no máximo, um par de décadas. (...) Esta herança é como um peso que mantém as pessoas circulando sempre em torno do mesmo ponto. Ela impede que as pessoas de Michoacan, Gujarat ou Zânzibar reconheçam o seu direito de não se classificarem de subdesenvolvidos e de desfrutarem sua própria diversidade e credo. O desenvolvimento sempre implica olhar para outros mundos em termos do que lhes falta, ocultando a riqueza das alternativas nativas."

Como testemunho desta miopia do planejador, Stiglitz, a partir da sua experiência como economista-chefe do Banco Mundial, pôde relatar: "Quando o FMI decide apoiar um país, ele envia uma 'missão' de economistas. Estes economistas freqüentemente não têm uma experiência ampla sobre este país. Provavelmente eles têm um conhecimento direto maior dos seus hotéis de cinco estrelas, do que das aldeias que se espalham sobre o seu campo. Eles trabalham duro, analisando números com atenção até altas horas da noite. Porém o seu trabalho é impossível: eles têm dias, no máximo algumas semanas, para desenvolver um programa coerente e sensível às necessidades do país.

“Não é necessário dizer que um pouco de manipulação de números raramente abre uma perspectiva adequada de um projeto de desenvolvimento para um país inteiro. Pior ainda, a manipulação de números nem sempre é das melhores. Os modelos matemáticos que o FMI usa são, freqüentemente, enviesados ou desatualizados. Os críticos acusam o FMI de usar um enfoque de receita de bolo para a economia. E eles estão certos. As equipes são conhecidas por elaborarem um rascunho do relatório antes de visitar o país. Eu ouvi a história de um caso infeliz em que os membros de uma equipe copiaram extensas partes de um relatório para um país e as puseram, inteiras, no relatório sobre outro. Isto poderia ter passado desapercebido, se não fosse o incidente de que o comando 'procurar e substituir' do seu processador de texto não funcionou corretamente, deixando o nome do país original em algumas partes...

“Não é justo dizer que os economistas do FMI não ligam para os cidadãos dos países em desenvolvimento. Os mais antigos que dirigem o Fundo -e eles são quase todos mais velhos- atuam como se tivessem que levar o dever moral do homem branco de Rudyard Kipling nas costas. Os expertos do FMI acreditam que são mais inteligentes, melhor formados e têm menos motivações políticas do que os economistas dos países que eles visitam".

Nesta visão de superioridade intrínseca, não limitada apenas aos expertos do FMI, "do ponto de vista de um economista (...) as pessoas são vistas como vivendo em uma permanente situação de escassez, já que eles sempre têm menos do que desejam. Desta forma, a mais nobre função da política é a de criar as condições para a riqueza material, o que, por seu turno, exige a transformação da sociedade de um conjunto de comunidades locais de subsistência em uma economia nacional. (...) Deste ponto de vista a economia projeta sua sombra sobre o conjunto da realidade: as leis da economia dominam a sociedade e não as leis da sociedade a economia. Esta é a razão pela qual, sempre que um estrategista do desenvolvimento olha para um país vê não uma sociedade que tem uma economia, mas uma sociedade que é uma economia. Assumir como um dado esta conquista da sociedade pela economia é um fardo herdado da Europa do século XIX, que foi transmitido ao resto do mundo nos últimos quarenta anos".

No entanto, como lembra Sachs, seguindo a análise pioneira de Karl Polanyi, "em toda sociedade as coisas são produzidas, distribuídas e consumidas, mas é só nas sociedades modernizadas e ocidentalizadas que os preços e produtos, as condições de propriedade e de trabalho são predominantemente moldadas pelas leis de eficiência econômica. (...) Nas sociedades que não são construídas sobre a compulsão de acumular riqueza material, a atividade econômica não está orientada a engenhar uma produção veloz. Pelo contrário, a atividade econômica, como escolher uma ocupação, cultivar a terra ou trocar bens era compreendida como uma forma de representar o drama social específico do qual os membros da comunidade viam-se como atores. A história deste drama em grande medida define o que pertence a quem, quem produz o quê e como isto é trocado. A 'economia' está intimamente vinculada à vida mas não imprime as suas leis e ritmos sobre o resto da sociedade. É só no ocidente que a economia dita o drama e o papel de cada um nele. (...)

“A transformação da sociedade em uma economia política foi obtida, obviamente, só depois de uma longa luta exigindo muitos sacrifícios. No final das contas, as pessoas não estavam formadas por um ethos comercial: ele não influenciava a forma que eles olhavam o trabalho ou a propriedade, a sua noção de conduta correta ou o seu sentido de tempo. O comerciante ainda não era um empreendedor, a terra não estava à venda, a competição era condenada e a usura indigna, sendo que aqueles que trabalhavam por salários viviam às margens da sociedade. Como resultado, o progresso do capitalismo esteve pontuado por intensas disputas sobre se, e em que medida, a terra e as florestas, os grãos e o dinheiro e os próprios trabalhadores poderiam ser tratados como se fossem mercadorias.

“Nas últimas décadas, mudanças similares se deram em amplas zonas do terceiro mundo, na medida em que a ideologia econômica apertou o seu punho sobre elas. Tradições de auto-suficiência foram postas de lado; relações de troca locais dissolvidas; formas de propriedade coletiva abandonadas e as economias de subsistência eliminadas. Durante muito tempo a linha mestra da política internacional de desenvolvimento foi a de criar sociedades de trabalhadores assalariados e de consumidores em todas as partes. Os expertos escrutinavam os países para identificar os 'obstáculos ao desenvolvimento' que impediam a livre mobilidade dos 'fatores de produção'. Nenhum custo era demasiado elevado e poucos sacrifícios demasiado grandes na busca de se transformar estas sociedades em economias políticas funcionando sem atritos"

Como definiu um defensor do desenvolvimento nos anos 1960, "o desenvolvimento econômico de um povo subdesenvolvido é incompatível com a manutenção dos seus costumes e hábitos tradicionais. Uma ruptura com estes é o pré-requisito para o progresso econômico. O que se necessita é uma revolução na totalidade das instituições e hábitos sociais, culturais e religiosos e, portanto, da sua atitude psicológica, a sua filosofia de vida. O que se requer, na verdade, é uma desorganização social. Infelicidade e descontentamento, no sentido de desejar mais do que se possui, deve ser gerado. O sofrimento e os deslocamentos que podem ser criados neste processo podem ser questionáveis, mas isso parece ser o preço que deve ser pago para o desenvolvimento econômico: as condições para o progresso econômico".

De fato, "transformar as sociedades do sul em competidores econômicos exigia não só a injeção de capital e a transferência de tecnologia, mas sim a transformação cultural já que várias 'formas antigas de vida' se converteram em 'obstáculos ao desenvolvimento. As idéias e os hábitos mentais; padrões de trabalho e formas de saber; redes de lealdade e leis de governo nas quais as sociedades do sul estavam imersas estavam geralmente em contradição com o ethos de uma sociedade econômica. No intento de superar estas barreiras ao crescimento, a fábrica social tradicional foi muitas vezes dissecada e reconstruída conforme os modelos dos livros texto de macroeconomia. Certamente o 'desenvolvimento' teve muitos efeitos colaterais, mas um dos mais insidiosos foi a dissolução de culturas que não estavam construídas em torno da acumulação frenética. O sul, desta forma, foi precipitado em uma transformação que por muito tempo vinha ocorrendo no norte: a subordinação gradual de cada vez mais aspectos da vida social às leis da economia".

Neste processo de expansão da modernidade, podemos observar o que na literatura anglo-saxã se denomina “enclosure of the commons” -que, na continuação, traduzimos por enquadramento dos bens comunais, apesar da dificuldade de se traduzir estes termos (razão pela qual mantivemos a palavra inglesa “commons” ao longo do texto).

O exemplo mais conhecido deste processo foram os cercamentos das terras na Inglaterra pré-industrial, que constituíram, de fato, uma das bases para a Revolução Industrial, porém são um processo que ainda hoje se observa aí onde bens e serviços regidos e controlados coletivamente, são privatizados e colocados sob uma lógica mercantil de exploração e de organização.

"A terra, por exemplo, (...) é dissociada do sistema local e dos processos sociais de criação de auto-suficiência e é redefinida em termos de 'propriedade' ou 'bem imóvel'. As florestas são divididas em espaços rigidamente delimitados -concessões de mineração, de exploração florestal, corredores biológicos e parques nacionais- e são transformadas de provedoras de água, caça, lenha e vegetais em um recurso econômico escasso e aberto à exploração. (...) As pessoas também são enquadradas na medida em que são adaptadas a uma sociedade nova na qual elas têm que vender o seu trabalho, aprender o tempo do relógio e acostumar-se a uma vida de produção e consumo.

“Grupos de pessoas são redefinidas como 'população', entidades quantificáveis cujo tamanho deve adaptar-se para não pressionar os recursos necessários para a economia global. As mulheres são enquadradas ao serem relegadas à periferia 'improdutiva' de um sistema de trabalho industrial no qual elas só podem penetrar adotando valores, hábitos de vida, de pensamento e de atuar 'masculinos'. Os saberes também são enquadrados, da mesma forma que o são os sistemas de conhecimento local associados à relação com a natureza.

“O enquadramento inaugura o que Ivan Illich denominou ‘uma nova ordem ecológica’. Ele desarticula o equilíbrio de poder local que assegurava que a sobrevivência era ‘a regra suprema do comportamento coletivo e não um direito isolado do indivíduo’. Ele despreza a noção de que pode haver ‘formas específicas de respeito comunitário’ por partes do meio que não são ‘nem o lar e nem o mundo selvagem’, mas que estão além ‘do horizonte de uma pessoa ou da sua propriedade’. As florestas e campos, por exemplo, que asseguram a subsistência de uma comunidade, protegem-na das inundações, das secas e lhe dão sentido estético e espiritual.

“Em vez disso, os enquadramentos transformam o meio ambiente em um 'recurso' para a produção nacional ou global, em tantas parcelas quanto possam ser rentabilizadas como mercadorias, dadas como favores políticos ou usadas de outras formas para aumentar o poder. As sanções antes impostas pelo sistema de ‘commons’ para assegurar uma subsistência com a natureza local fiável passam a ser vistas ‘simplesmente como obstáculos a serem eliminados’. (...)

1 - Bird; “The Basis of a Development Program for Colombia”; Baltimore: John Hopkins University Press, 1950, p. XV, citado em Sachs, op. cit., p. 6. Se trata, como descreve o autor na p. 5, da primeira das inúmeras missões enviadas pelo Banco Mundial à Colômbia em 1949, sendo integrada por “14 expertos”.


2 - Ibid., p. 6 e 7.


3 - Joseph Stiglitz; “The Insider: former World Bank Chief Economist Joseph Stiglitz speaks out against the IMF”; in “The Ecologist Report - The World Bank, IMF and WTO - their policies exposed”, parte integral do “The Ecologist”, vol. 30, nº 6, setembro de 2000; p. 30. No contexto desta nossa discussão podemos ver que o uso da palavra “missão” para designar tanto os missionários evangelizadores quanto os “especialistas” em desenvolvimento não é mera coincidência. Ambos seguem a mesma ideologia temporal...


4 - Sachs, op. cit., p. 17. Não é, assim, mera coincidência que no relatório dos expertos do Banco Mundial enviados à Colombia, que vimos acima, se empregue a palavra “economia” para se referir ao “país”...


5 - Ibid., p. 18-19.


6 - J. L. Sadie; “The Social Anthropology of Economic Underdevelopment”; in “The Economic Journal”, nº 70, 1960, p. 302, citado em G. Berthoud; “Market”; in W. Sachs (Ed.) “Global Ecology: Conflicts and Contradictions”; Londres: Zed Books, 1992, pp. 72-73.


7 - Ibid., p. 29.


8 - Assim, "os 'commons' implicam no direito das comunidades locais de definir o seu próprio espaço, a sua própria forma de respeito comunitário pelos cursos de águas, campos e caminhos; de solucionar conflitos à sua própria maneira; de definir o que entra no seu domínio segundo o seu próprio dialeto (...)." “The Commons: Neither Public, nor Private”; in “The Ecologist”, vol. 22, nº 4, julho/agosto de 1992, pp. 125 e 126. Quanto às “enclosures”, “O Dicionário Oxford de Inglês oferece uma definição geral -introduzir em uma moldura. As ‘enclosures’ arrancam as pessoas e suas terras, as florestas, as habilidades, as tecnologias e as cosmologias do seu marco cultural forçando-as para dentro de um novo marco que reflete e reforça os valores e interesses de um novo grupo dominante. Qualquer parte que não se encaixa no novo quadro é desvalorizada e ignorada. Na Idade Moderna, a estrutura deste novo quadro é definida pelas forças de mercado, a ciência, o estado, as burocracias corporativistas, formas patriarcais de organização social e ideologias de administração ambiental e social." “The Encompassing Web - The Ramifications of Enclosure”; in “The Ecologist”, vol. 22, nº 4, julho/agosto de 1992; p. 149.

 
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