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Por toda parte políticos e expertos procuravam identificar os meios de fomentar o desenvolvimento, rapidamente identificado ao mero objetivo de “crescimento econômico”, apesar das ressalvas e distinções acadêmicas que se pudessem fazer entre um e outro. Eles se dedicavam a identificar os denominados “obstáculos ao desenvolvimento” e os “meios para superá-los”. A recém-criada ONU declarará as décadas de 50 e 60 como “as décadas do desenvolvimento” e, com a criação de uma agência especializada (o PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) dedicará o grosso das suas forças e recursos ao “fomento” e à “ajuda” ao desenvolvimento, na busca incessante de “erradicar a pobreza” no mundo.

Na ciência econômica um novo interesse desperta-se pelas teorias do crescimento econômico que, significativamente, tomando a temporalidade mecânica como parâmetro básico das suas equações, vão representá-lo como uma evolução linear, quantificável e progressiva. Assim as famosas “etapas do crescimento” de Rostow (partindo da “criação das pré-condições para o desenvolvimento econômico”, passando pela “decolagem” para desembocar no “crescimento auto-sustentado”, no vôo livre e independente da economia dirigida pelas forças do mercado), refletem e legitimam a necessidade de reconstrução dos espaços nacionais para albergar as novas relações e dinâmicas produtivas.

Apesar de criticarem a miopia histórica dos modelos abstratos e únicos de crescimento econômico elaborados pelos economistas -seguindo, como vimos, o modelo paradigmático estabelecido pela física mecânica-, historiadores econômicos partem do imperativo do desenvolvimento como um dado, procurando identificar as particularidades e peculiaridades dos distintos períodos de desenvolvimento classificados em industrializações “originária” (inglesa), “tardias” (EUA, Europa ocidental e Japão) e “atrasadas” dos países que, com atraso, tentam “embarcar no trem da história”. Porém, também nestas análises parte-se de uma concepção linear e progressiva da história, buscando-se identificar as particularidades e os obstáculos que se colocam para cada momento e assim as formas de contorná-los e superá-los.

Autores como Gunnar Myrdal vão identificar os “círculos viciosos” da pobreza que condenam as sociedades do Sul ao “eterno subdesenvolvimento”, procurando indicar formas de cortar estes círculos e lançar estes países no processo de desenvolvimento. Na América Latina, com os países já formalmente independentes por mais de um século e buscando a sua inserção na arena internacional, a CEPAL (Comissão Econômica Para a América Latina, da ONU) dedicaria todas as suas energias à análise do desenvolvimento e ao desenvolvimento de uma teoria do desenvolvimento alternativa que pudesse guiar e orientar estes países na sua busca de superar o subdesenvolvimento.

A resultante “teoria da dependência” (que deve sua paternidade ao economista argentino Raul Prebisch e que teve em autores como Celso Furtado e Maria da Conceição Tavares alguns dos seus mais ilustres representantes), tentaria identificar as condições estruturais históricas que levariam a uma contínua deterioração dos termos de troca dos países subdesenvolvidos (exportadores de bens primários) frente aos países desenvolvidos (produtores e exportadores de bens industrializados). Além disso, identificando as condições históricas e políticas de uma relação de dependência da “periferia” em relação ao “centro”, estes autores vão advogar por um processo de industrialização e desenvolvimento acelerado, capaz de queimar etapas e retirar estes países de sua condição de subdesenvolvimento a que pareciam estar condenados se continuassem seguindo uma suposta e fictícia vocação agrícola pregada pelos modelos de comércio internacional de cunho neoclássico.

Internalizada em termos da concepção, esta necessidade de “queimar etapas” viu-se confrontada à ausência de uma base financeira e tecnológica sólida. Esta carência levou, então, estes países que se descobriram “subdesenvolvidos” ao se verem refletidos no espelho dos países centrais, a buscarem, por toda parte, o apoio e a participação dos capitais (financeiros e produtivos) internacionais, abrindo novas e imensas áreas para a disseminação e expansão do capital e do processo de modernização em seu conjunto. E este movimento não se limitou aos países da órbita ocidental, atingindo também os países que seguiam a denominada “via socialista” na medida em que, por toda parte, o incremento da produção passou a ser a meta que orientava as distintas autopoiesis sociais, fazendo com que os diferentes países se diferenciassem apenas em função do maior ou menor peso atribuído ao estado ou ao mercado na regulação da atividade econômica e à garantia de determinados direitos políticos formais.

Neste sentido, como lembra Spretnak, a suposta diferença radical que se afirmava entre as economias socialistas e capitalistas dissolve-se se olhamos para estes diferentes sistemas no contexto mais amplo da modernidade. Marx, ao criticar o “caráter anárquico” do mercado e ao apontar a tendência a crises periódicas no processo de acumulação nas economias burguesas, de fato procurou inaugurar "uma tradição política que se vangloriava de levar a cabo o projeto moderno de forma mais racional do que qualquer outro".

De fato, "o marxismo-leninismo foi um dos vários sistemas econômicos que compartia os pressupostos da visão de mundo moderna. Se fossemos situar estes sistemas em um espectro da esquerda para a direita de economias políticas no interior da modernidade, o 'socialismo marxista-leninista' e suas variações situaria-se na extrema esquerda, à direita do qual estaria o 'socialismo democrático', seguido pelas 'democracias capitalistas reguladas', seguidas pelas 'democracias capitalistas de direita do laissez-faire (controladas pelas grandes corporações)', seguidas pelo 'corporativismo fascista de ditaduras quase-militares'. A ideologia moderna afirma que cada uma destas orientações molda a vida de forma totalmente diferente às demais. (...) Esta perspectiva obscurece a base comum compartida por todas estas economias políticas: todas se filiam aos valores seguintes da modernidade:

- O ser humano é considerado essencialmente um ser econômico, homo economicus. Desta forma, a organização das questões econômicas é vista como sendo a fonte da qual o bem-estar ou a infelicidade em todas as outras áreas vai brotar. Expansão econômica (...) é a fonte inquestionada de abundância, bem-estar e evolução da sociedade. Esta evolução é vista como sendo claramente direcional: a condição humana progressa rumo a estados cada vez melhores na medida em que continuamente se constrói sobre e se melhora a herança do passado.

- A socialização moderna estrutura a nossa compreensão do mundo através do objetivismo, racionalismo, a representação mecanicista do mundo, reducionismo e cientificismo. O planejamento e a organização do trabalho nas sociedades modernas estão baseados na padronização, burocratização e centralização. As interações modernas com a natureza são antropocêntricas e guiadas pela razão instrumental. Acima de tudo a cultura moderna define-se como uma força triunfante que progride em oposição à natureza. (...)

- A vida moderna está dividida em diferentes esferas separadas: vida familiar, vida profissional, vida social, vida política, vida amorosa e vida espiritual (...). Nas sociedades modernas, a educação superior também está fortemente compartimentalizada em disciplinas isoladas. Nelas, como na lei e no governo, formas altamente antagonistas de discussão moldam todas as possibilidades. A preferência pela competição e uma dicotomia dominação/submissão como a estrutura básica das relações em todas as esferas da vida moderna refletem a extensão da socialização patriarcal. As sociedades modernas são às vezes chamadas de 'hipermasculinas' já que nelas traços 'masculinos' (...) são valorados mais do que os traços 'femininos', como a empatia".

Desta forma, como no caso da oposição fictícia entre os três blocos separados do mundo orwelliano que justificavam o autoritarismo interno em cada um deles, o denominado período da Guerra Fria estruturou-se sobre uma diferença secundária, de forma, que permitiu reforçar o conteúdo, a essência comum que animava a todos: a disseminação e o aprofundamento em nível global do processo de modernização e de transformação da realidade.

Como sabemos, o Brasil também não escapou à regra, inserindo-se na corrida da modernização e lutando para se posicionar na liderança e na frente econômica e política do bloco dos países subdesenvolvidos, dos G-77, que viria a se formar como contrapartida aos G-7 desenvolvidos. Este objetivo político, no fundo, apenas confirma a internalização de uma concepção de “subdesenvolvimento” que só se define no espelho da noção moderna de “desenvolvimento”. Longe de des-envolver as suas características e potencialidades autônomas, o que vemos no Brasil, como nos demais países que penetraram pela via da modernização, é um processo histórico reflexo e que passa a se manifestar, com suas pequenas matizes locais, em todas as partes do globo.

Desta forma, partindo de uma situação de dependência neocolonial -caracterizada pela imposição do “trade not rule” inglês, pelo qual o país se via confinado à sua “vocação agrícola”, exportando bens primários e importando bens industrializados-, Getúlio Vargas procuraria explorar as brechas abertas pela competição internacional entre as grandes potências para implantar as sementes de uma industrialização autônoma a partir dos anos 30.

Apesar de alguns logros importantes nesta direção, da qual a criação da Usina Siderúrgica de Volta Redonda é o exemplo mais claro, estes esforços estavam limitados por uma tendência à supressão e limitação dos esforços de constituição de processos de industrialização autônomos típicos desta fase anterior de hegemonia industrial inglesa, das quais a efêmera existência do império financeiro e industrial de Mauá (entre sua origem nos anos 1850 e a falência nos anos 1870), a supressão e destruição militar do processo de industrialização paraguaio ou ainda as sucessivas intervenções militares inglesas na Índia e na China, obrigando a abertura dos seus mercados e a desarticulação do seu processo de desenvolvimento autônomo, são alguns dos exemplos paradigmáticos.

É só com o novo cenário aberto no pós-guerra -com a mutação da “vocação civilizadora” em “vocação desenvolvimentista” e com o interesse das duas “superpotências” de promover processos de modernização segundo seu modelo formal -que o Brasil embarcaria plenamente no processo de industrialização e modernização, não mais nas brechas, mas impulsionado pelas tormentas do movimento de modernização global. E foi neste contexto que Kubitscheck, ecoando os ideais da modernidade, pôde declarar os seus famosos “50 anos em 5”.

Desta forma o Brasil, “país do futuro”, portando em sua bandeira o lema positivista de “ordem e progresso” do século XIX, albergaria no seu coração político e geográfico, Brasília, o símbolo e os sonhos da utopia moderna do desenvolvimento acelerado, de uma autopoiesis social voltada, eternamente, à realização futura. Mais ainda, em sua essência Brasília encarna as duas componentes da temporalidade moderna.

Por um lado, pela rapidez e o esforço monumental que representou sua construção, Brasília personifica o ideal de progresso e aceleração do “obrar do tempo”. E, por outro, pela sua falta de organicidade, de raízes e de uma história interna, própria, sendo construída de “cima para baixo”, seguindo um planejamento instrumental, ela reflete o ideal mecânico do tempo, de um tempo exterior e abstrato e a busca de um controle e de uma organização racional da vida social. Além disso, o caráter racional e abstrato do urbanismo proposto por Lúcio Costa e as obras de Niemeyer -expoente, junto com Le Corbusier, da arquitetura moderna- apenas viriam coroar a modernidade de Brasília, “a capital da Esperança”, nas palavras de André Malraux...

1 - A obra clássica de Rostow, na qual se expõe esta visão das “etapas” do desenvolvimento econômico (entendido como crescimento da produção mercantil) é W. W. Rostow; “As Etapas do Desenvolvimento Econômico”; Rio de Janeiro: Zahar, 1964.


2 - Charlene Spretnak; “Modernity Rules, OK?”; in “Resurgence”, nº 186, jan/fev de 1998, p. 12. Se trata de um extrato do seu livro, “The Resurgence of the Real: Body, Nature and Place in a Hypermodern World”; New York: Addison Wesley, 1997.


3 - Ibid., p. 13

 
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