1
dossiê
NOVAS TESES

Das Cruzadas ao desenvolvimento sustentável
Por Andri W. Stahel

A tese de doutorado "Tempos em Crise - A Base Temporal das Contradições da Modernidade", foi defendida em agosto do ano passado no Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas. Teve a orientação do professor Laymert Garcia dos Santos e a banca examinadora foi composta pelos professores Octavio Ianni, Joan Martinez-Alier, João Luiz Hoefel, Leila da Costa Ferreira e Antônio Ribeiro de Almeida Júnior. O trabalho se propõe a analisar a noção e as práticas temporais que se tornaram hegemônicas na organização das sociedades modernas.


"Uma vez em terra, viram árvores muito verdes, águas muitas e frutas de diversos tipos. Logo se juntou muita gente da ilha. Eles andam desnudos como sua mãe os pariu. (...) Traziam novilhos de algodão fiado, papagaios e outras coisas, que seria tédio descrever e tudo davam por qualquer coisa que se desse. Eu ia atento e trabalhava para saber se havia ouro."
Frei Bartolomé de las Casas

"Só existe uma coisa pior do que o fracasso do desenvolvimento convencional: o seu sucesso descontrolado."
Wolfgang Sachs


Como vimos ao longo deste capítulo, as origens da concepção progressiva do tempo e da introdução do princípio da aceleração como elemento central da organização social moderna remontam a bem antes do que, na periodização histórica, convencionou-se denominar a época moderna. Assim como a concepção mecânica do tempo, esta visão começou a tomar corpo e força já nos séculos XI e XII na Europa medieval. "No ano 1000 d. C., (ou pelo menos no século em que caiu este ano), a Europa Ocidental deixou de ser o naufrágio deixado para traz pelo refluxo do Império Romano e começou a ser algo novo e vital. (...) Populações, cidades e o comércio começaram a reviver e, seguindo a sua trilha, vieram as artes, a filosofia e a engenharia. E isso foi mais do que um simples renascimento. A catedral gótica, sublime produto do século XII, era mais do que um sinal de renascimento. Ela marcou o nascimento de uma sociedade de uma energia notável, brilhantismo e arrogância. Sociedades assim são, freqüentemente, expansionistas."

De fato, como vimos na análise de Jünger da catedral gótica no capítulo anterior, o que a catedral gótica expressa é, antes de tudo, um novo sentido da dinâmica: a expansão que rompe com os equilíbrios e a estabilidade, e não mais uma preocupação pela criação de um espaço protegido, de estruturas de equilíbrio.

É neste novo sentido da dinâmica que nós podemos encontrar os germes da concepção moderna do progresso. Porém, enquanto a catedral gótica apontava para um espaço inescrutável, em cujo centro situa-se Deus, fonte e destino do movimento universal, com a secularização desta concepção o progresso aponta para um espaço dessacralizado, material e infinito, à espera da sua transformação e controle pelo homem e seus instrumentos, seja por meio de uma colonização espacial com a qual sonha a ficção científica moderna, seja pela colonização por satélites e armas da atualidade, convertendo o espaço de guia divino em guia de origem humana da autopoiesis terrestre. Ambos os momentos, no entanto, apenas expressam dois estágios diferentes de uma mesma essência.

Foi através das cruzadas que este novo sentido da dinâmica que emerge no Ocidente vai expressar-se por primeira vez no plano da expansão e conquista espacial. Já aí, podemos ver a gradual transição, as tensões e continuidades/complementaridades que se estabelecem desde então entre a raiz cristã e a apropriação burguesa, laicizada, desta temporalidade ocidental. Se, de um lado, a base legitimadora e a motivação inicial é de caráter religioso, reconquistando e reconvertendo os espaços perdidos aos “infiéis”, este movimento segue o renascimento e a expansão do comércio europeu, encontrando nas cidades mercantes italianas (e os seus interesses de expansão comercial e controle das rotas comerciais) o seu principal valedor e financiador. Neste sentido, já desde o começo, a expansão da fé e a expansão do capital caminharam juntas.

Este casamento seguiria no empreendimento colonial, em que o missionário acompanha o conquistador, o padre o colonizador, e o bispo o administrador colonial. Legitimada e culturalmente motivada pela necessidade de expandir a fé ocidental, convertendo os “infiéis” -por bem, ou por mal- à “fé verdadeira”, a expansão colonial das nações européias permite estender os seus domínios territoriais sobre o globo e extrair, a partir de um controle heterônomo das autopoiesis locais, os excedentes econômicos, em uma das facetas do processo que Marx denominou “acumulação primitiva”.

Desta forma, a expansão colonial representou não só a expansão e a imposição da lógica temporal européia ao resto do globo, como também um mecanismo fundamental para a acumulação do capital inicial que -financiando a revolução industrial- permitiria a autonomização do capital industrial e do seu processo de acumulação e reprodução.

Foi no século XVII que o grande ciclo da salvação cristã foi substituído pela reta lançada rumo ao infinito do progresso e, com ela, a missão evangelizadora foi substituída pela missão civilizadora do ocidente como elemento legitimador do seu processo de expansão e subordinação espacial e sócio-cultural de outras realidades autopoiéticas.

O famoso “white men's burden” de Rudyard Kipling, “o dever moral” e a função “civilizadora” do Ocidente, passa a legitimar a segunda onda de expansão colonial européia e a forma pela qual a modernidade se expande para a África e a Ásia, depois de ter europeizado as Américas, a Nova Zelândia e a Austrália.

Apesar de levar na sua esteira, ou seguir, segundo as situações, os interesses econômicos (principalmente comerciais, encontrando mercados para escoar a crescente produção industrial, bem como fontes de abastecimento de recursos naturais para alimentar a crescente potência da sua caldeira produtiva), este movimento de expansão segue animado, no nível dos valores culturais, pelo mesmo imperativo moral de situar os demais povos nos trilhos da história, de convertê-los ao bom caminho, que animou o afã evangelizador dos cristãos.

Porém a mutação na definição do que seja esta “bom caminho” é um indicativo claro da mutação central pela qual passou a concepção temporal ocidental: da conversão à fé no verdadeiro Deus e seus caminhos, passamos à conversão à fé no progresso resultado do trabalho e do processo de desenvolvimento econômico e social humano. Da conversão dos “infiéis” à verdade do Deus único, passamos ao esforço de “civilizar” os primitivos, de trazê-los à verdade única das Luzes do projeto iluminista ocidental.

Foi, depois da Segunda Grande Guerra que esta forma plenamente laicizada da concepção linear e progressiva da história encontrou sua formulação definitiva com a emergência do par conceptual desenvolvimento X subdesenvolvimento econômico, em cuja herança ainda estamos imersos.

Como coloca Sachs, "uma tempestade de vento e neve abatia-se sobre a avenida Pensilvânia, no dia 20 de janeiro de 1949, quando o presidente Harry Truman, no seu discurso inaugural diante do congresso definiu a maior parte do mundo como ‘áreas subdesenvolvidas’. Aí estava, subitamente, um aspecto permanente da paisagem, um conceito pivô que estreitava a imensurável diversidade do sul do globo em uma única categoria: os subdesenvolvidos. Pela primeira vez, a nova visão do mundo foi anunciada: todas as pessoas da Terra estavam movendo-se sobre a mesma pista e aspiravam apenas a um objetivo: o desenvolvimento. E o caminho a seguir estava claro diante dos olhos do presidente: ‘Maior produção é a clave para maior prosperidade e paz’. (...) Segundo esta medida, as nações dividem-se em retardatárias e líderes, sendo ‘os EUA preeminentes entre as nações no desenvolvimento de técnicas industriais e científicas’. Disfarçando o interesse próprio de generosidade, Truman apresentou um programa de assistência técnica criado para ‘eliminar o sofrimento destas pessoas» através de «atividades industriais e um melhor nível de vida’".

"Que Truman tivesse criado este termo novo não foi um acidente, mas a expressão precisa de uma visão de mundo: para ele todos os povos do mundo estavam se movendo sobre a mesma pista, uns rápido, outros mais devagar, porém todos na mesma direção. Os países do norte, em particular os EUA, estavam na dianteira, enquanto que ele via o resto do mundo -com sua renda per capita absurdamente baixa- longe por detrás. Desta forma, uma auto-imagem que as sociedades do norte foram gradualmente adquirindo sobre si foi projetada sobre o resto do mundo: o nível de civilização de um país pode ser medido pelo seu nível de produção”.

Com este passo, e a subseqüente absorção da noção de desenvolvimento pela noção de crescimento econômico, o ideal de progresso foi despido do seu manto cultural e moral, para ser representado como uma mera questão econômica e técnica. Finalmente, "nos tempos presentes, a competitividade toma como discurso o lugar que, no início do século, ocupava o Progresso e, no após-guerra, o Desenvolvimento. Antes, porém, o debate era filosófico teleológico. A noção de progresso, lembra Daniel Halevy, comportava também a idéia de progresso moral. (...) Mas a busca da competitividade, tal como apresentada por seus defensores (...) parece bastar-se a si mesma, não necessita de qualquer justificativa ética, como, aliás, qualquer outra forma de violência. A competitividade é um outro nome para a guerra, desta vez uma guerra planetária, conduzida na prática pelas multinacionais, as chancelarias, a burocracia internacional, e com o apoio, às vezes ostensivo, de intelectuais de dentro e de fora da universidade. Como podemos, mesmo assim, admirar-nos de que, aqui e ali, estourem guerras e corra o sangue, já que a Nova Ordem Mundial que se constrói é baseada numa competitividade sem limites morais?" (...)

Como lembra Sachs, "a idéia de definir o mundo como uma arena econômica (...) seria inteiramente estranha ao colonialismo. Verdade, os poderes coloniais se viam participando em uma corrida econômica, com os seus territórios ultramarinos como fonte de matéria-prima. Porém foi só depois da Segunda Guerra Mundial que estes territórios tiveram que se manter de forma independente e competir na arena econômica global. Para a França e a Inglaterra durante o período colonial, domínio sobre as colônias era antes de tudo um dever cultural que advinha da sua vocação civilizadora. (...) O colonialista vinha como senhor para governar os nativos. Eles não vinham como planejadores para iniciar a espiral de oferta e demanda".

Podemos, desta forma, observar como a inversão dos meios econômicos em fins, que vimos ser inerente à produção capitalista, assim como a substituição das relações de poder diretamente sociais por relações mediadas pelo mercado, vêem-se refletidas em uma nova visão do mundo, uma nova concepção da dinâmica temporal que move os homens e as sociedades. A evolução e o sentido deixam de ser representados por um conceito mais amplo de progresso, para centrar-se inteiramente em uma necessidade crescente de aumentar e acelerar a produção de valores de troca (refletida nos indicadores macroeconômicos como o PIB, criados e desenvolvidos a partir das idéias de Keynes e seus seguidores nos anos 1930).

Agora, "Truman realmente necessitava tal reconceptualização. O antigo mundo colonial se desfez e os EUA, a mais poderosa nação que emergiu da guerra, viu-se obrigada a atuar como um líder mundial. Para isso ela necessitava uma nova visão da ordem mundial. O conceito de desenvolvimento dava a resposta já que apresentava o mundo como uma coleção de entidades homogêneas, mantidas juntas não através do domínio político dos tempos coloniais, mas através da interdependência econômica. (...) Os lideres das nações recém-criadas -de Nehru a Nkrumah, de Nasser a Sukarno- aceitaram esta imagem que o Norte tinha do Sul, e a internalizaram como sua auto-imagem. O subdesenvolvimento converteu-se na base cognitiva comum das nações formadas por todo o Terceiro Mundo". O imperativo de Truman para desenvolver-se significou que as sociedades não eram mais vistas como distintas e incomparáveis possibilidades de organização humana, mas eram situadas em um único caminho progressivo, julgados mais ou menos avançados segundo os critérios das nações industriais ocidentais.

1 - Alfred W. Crosby; “Ecological Imperialism - The Biological Expansion of Europe, 900-1900”; New York: Canto, 1996. Crosby 1996, op. cit., p. 44.


2 - Neste ponto pode ser interessante lembrar que, como mostra Crosby, op. cit., ao longo do seu livro, o processo de expansão européia não representou apenas um processo de expansão da modernidade enquanto forma de organização social, mas também um processo de expansão -e imperialismo- biológico pelo qual não só a raça branca se disseminou pelo planeta, como também os cultivos, o gado e as espécies vegetais e animais do velho mundo em geral se disseminaram no sulco (e muitas vezes antecipando-se e abrindo o caminho) do colonizador. Recriaram-se, assim, nas zonas temperadas destes novos espaços conquistados, o que este autor denomina as neo-Europas, ou seja: espaços nos quais as condições socio-culturais e ecológicas da Europa puderam se expandir e reproduzir.


3 - Sachs, op. cit., p. 3, citando Harry Truman; “Inaugural address”; in “A Decade of American Foreign Policy”; Washington: US Government Printing Office, 1950, p. 1366.


4 - Ibid., p. 28. Como fica claro pela discussão subseqüente de Sachs e pela nossa própria concepção, Sachs se refere aqui apenas à produção para o mercado, já que todo outro tipo de produção de valores de uso que não sejam valores de troca é ignorada e desaparece do campo de visão do economista moderno.


5 - Milton Santos; “Técnica, Espaço, Tempo - Globalização e Meio Técnico-Científico Informacional”; São Paulo: Hucitec, 1994, p. 35.


6 - Ibid., p. 4.


7 - Ibid., p. 5

 
1