4

É o pathos da distância grego que permite evitar o rebaixamento do homem a instrumento do ressentimento, a instrumento da justiça enquanto vingança e representação, como pretendem os fracos: uma tal distância preserva a possibilidade do gosto e da medida, do apreço que o homem teve por si, e que foi pervertido pela modernidade. Se a vivisecção da alma e o conhecimento de si habilitam o homem a um maior aprofundamento, indicam, de outro lado, o quanto os sentidos que se atribui são basicamente interpretações de si.

Para Nietzsche, quando o homem for capaz de afirmar o caráter interpretativo da existência, santificando a vontade de ilusão que tem a seu favor a boa consciência, ele será capaz de afirmar a singularidade e, nisto, expressar o caráter artístico da interpretação, afirmando seu gosto e sua medida, que só aquele que justifica a si mesmo e afirma seu sentido, com toda sua singularidade, pode fazer. É este caráter artístico que, tal como se dava com o modo de avaliação aristocrático, permite ligar criação com interesse e, por conseguinte, com felicidade: é pela experiência do criador, não do terceiro, espectador, que Nietzsche vê a possibilidade de afirmar um contra-ideal e uma contrapartida aos excessos de idealismo, à desmesurada vontade de verdade com sua veneração ao que é tranqüilo, frio, passado e com irritação contra a sensualidade e o hoje.

Só com a afirmação do interesse nas ações a interpretação rompe a dependência da arte à filosofia, à religião e à moral, que, por crerem na verdade, negam e cancelam o si (das Selbst). Esta ação, contudo, não se restringe à mera subjetividade do artista, do intérprete. É apenas enquanto ação conformadora do mundo, enquanto obra, que lhe dá um caráter comunicativo e relacional. Por isso, ao mesmo tempo em que a interpretação expressa um poder pessoal de dominação de si pela estruturação das forças, ela se insere no devir, no embate de interpretações, movendo-se constantemente para uma superação de si.

Ora, estes são os caracteres da justiça: a responsabilidade que demanda domínio de si, um compromisso e uma medição de forças superadora da individualidade que envolve o elemento comunicativo e relacional. O embate de valores é, portanto, um embate de interpretações: afasta-se qualquer pretensão de tomá-lo como expressão da imposição da força física, como também aponta a impossibilidade de expressar uma vontade de aniquilação ou de totalidade, sob pena de contradizer as próprias condições de sua afirmação. Aí expressa-se sua força, em poder tomar-se como interpretação, pois isto implica tolerância para com o opositor.

Ao sentido crítico da vontade de potência soma-se, assim, um sentido ético com a exigência de que cada qual coloque o seu sentido e que é apenas neste embate entre sentidos e poderes, sem um sentido médio, que se dá o jogo da justiça, na inocência de seu devir, como surgimento e perecimento, em uma visão cósmica aos moldes de Heráclito. Contra o perigo que a moral representa, fundada na crença no incondicionado, por se tomar a justiça como justificação por intermédio da crença e da graça, Nietzsche propõe se considerar a justiça como um contraconceito contra toda filosofia e teologia fundada na culpa da existência.

É pela condicionalidade do jogo que o homem torna-se novamente cauteloso, pautando sua conduta não mais por uma ética de fundamentação, mas sim por uma ética de reflexão da própria moral ante outras morais, i.e., por outras interpretações. Daí a necessidade de nobreza, de liberdade e de poder para que cada um consiga manter-se sob controle e ter domínio sobre si para poder perceber as pretensões dos outros, torná-las suas tanto quanto possam ser estranhas, renunciando ao julgamento para liberar o indivíduo à alteridade e a refletir sobre a sua própria moral: trata-se de uma ética da individualidade.

A justiça para Nietzsche, segundo Stegmaier, é a capacidade de compreender a perspectivação da moral e deixar valer suas diferenças, uma capacidade de deixar normas e valores concretos se formarem de acordo com as condições de existência e serem perspectivados por suas condições de existência para permitir a justiça.

Eduardo Rezende Melo
É formado em direito pela USP e mestre em filosofia pela PUC/SP, onde faz doutorado na mesma área. É juiz de direito no Estado de São Paulo desde 1991.

1 - OTTMAN, Henning. Ob. cit., p. 223.


2 - STEGMAIER, Werner. Ob. cit., p. 86/87.


3 - OTTMAN, Henning. Ob. cit., p. 391.


4 - STEGMAIER, Werner. Ibidem, p. 1 e ss.


5 - OTTMAN, Henning. Ob. cit., p. 390.


6 - STEGMAIER, Werner. Ob. cit., p. 2.


7 - STEGMAIER, Werner. Ibidem, p. 3 e ss.


8 - STEGMAIER, Werner. Ibidem, p. 25

 
4