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Ora, a estratégia ascética é de convencer o homem de que sofre por ter pecado e, com isso, ao criar uma nova forma do homem se relacionar consigo mesmo e, mais, ao criar uma nova alma, exige que o homem volte seu olhar a si, procurando conhecer a si. A auto-análise não é apenas uma procura pelos próprios pecados para poder interpretar as próprias dores como pena para lhes dar sentido e fundamento; não é apenas uma fase preparatória que permite o descarregamento de um afeto imediato e o entorpecimento do sofrimento.

Ao voltar para trás a direção do ressentimento, internalizando-o, supera-se a diferença entre a fase da procura de si e do descarregamento dos instintos, pois tanto a procura como a vivisecção de si constituem-se, desde logo, como formas de domínio de si e expressão da crueldade. Tal compreensão não é portanto imediata. A renegação dos sentidos implica uma busca de objetividade que implica a própria renegação do conhecimento, porque renega o exercício de poder e a atribuição de sentido presente em toda interpretação, sob a suposição de que um conhecimento livre de interpretação tenha um valor superior àquele primeiro. Ou seja, esta busca de verdade interna e de sentido se pauta pela confiança platônica na identidade entre verdade e valor. Se Deus é verdade, e a verdade é divina, então a vontade incondicional de verdade é a própria expressão do ideal ascético.

Com isso não se põe em questão as determinantes da avaliação e o valor desse valor, nesta tarefa propriamente genealógica a que se volta Nietzsche. A busca de verdade, tal como colocada pelo ascetismo, pressupõe a renegação desta tarefa e das relações de poder ínsitas ao jogo de luta de interpretações presente no trato inicial entre credor e devedor, comprador e vendedor, para o estabelecimento do valor que permitiria a equivalência propícia ao compromisso.

Por isso, ainda que, para o apagamento de si para o falseamento do caráter interpretativo da condição humana, é preciso apagar, com as interpretações, também os instintos, cuja importância se via desde logo na medição pré-histórica. Há de se apagar, também, o próprio confronto, ainda que ao preço da incapacidade de justificar a condição humana, levando o homem ao cansaço e ao niilismo, porque precisa negar a força, que equivale ao impulso, à vontade, à atividade, ou seja, todas as condições de ação e, por conseguinte, de felicidade do homem: a vitória ascética dá-se pelo estiolamento da confiança do homem na vida, fazendo com que se envergonhe de sua felicidade e de sua capacidade de agir, introduzindo a marca da miséria em sua consciência, porque vê em si o responsável pelo seu sofrimento e, em sua ferida, o que faz o homem continuar a viver.

É nessa vertente anti-sensualista e metafísica, desligada das condições terrenas do homem, de sua origem animal, renegada, que se expressa o falseamento do homem, a mentira que leva à fabricação de ideais. Por tal razão, para Nietzsche, estes ideais, que dirá ascéticos, ligam-se ao desejo normativo de verdade e ao niilismo e a renúncia à interpretação implicará a renúncia a dar sentido e ao exercício do poder, reforçando a alienação. Daí que a identidade da verdade ao valor implica a expressão de uma vontade de nada pelo esvaziamento do próprio valor e do sentido que o homem se dá pela impessoalidade e pela internalização que se opera neste processo.

A estratégia nietzscheana procura resgatar a pessoalidade da avaliação, por sua singularização e multiplicação pelo confronto, por meio da afirmação da interpretação, pois era esta singularização que permitia a avaliação pelo homem nobre das condições de vida em que se via inserido e é esta singularização que diferencia a justiça nobre da fraca. Se esta demanda um caráter absoluto e por isso se funda pretensamente na verdade, a justiça forte, porque pautada pelo confronto, esteia-se apenas na veracidade, fazendo com que a moral reconheça-se como algo criado, e não uma ordem moral universal, relativizando-a e arrancando-a, ao mesmo tempo, à metafísica justamente porque precisa de independência e capacidade de distanciamento da própria moral para que possa considerar a rede de condições em que está o homem inserido, rede esta que é a própria vida.

Se a fé no próprio ideal, a fé em um valor metafísico, o valor em si da verdade, que leva à incondicional vontade de verdade, permaneceu, enquanto valor, inquestionado, embora seja o que fundamenta a moral, a filosofia, a religião, é essa vontade de verdade que demanda uma crítica, devendo ser experimentalmente posta em questão. A isso responde a justiça no pensamento nietzscheano: se a derrocada dos valores transcendentes coloca o homem à frente com o sem-sentido, com o niilismo, ele tem o desafio de justificar-se um sentido, sempre, como aponta Maurer, em uma luta que se apresenta como resistência a monopolizações e absolutizações em nome da verdade ou da moral, buscando ainda alcançar sua segunda inocência, prometida por seu ateísmo e pela morte de Deus.

Podemos conjugar, então, a visão nietzscheana da importância da infração contratual enquanto expressão da faculdade ativa do esquecimento ligada aos instintos e afetos com a possibilidade de ruptura da impessoalidade da avaliação e sua tendência universalizante, mas, ao mesmo tempo, internalizadora e alienante. Nietzsche diz que uma ordem de direito geral e soberana como meio contra a luta, i.e., contra a ação inovadora que apenas o esquecimento permite instaurar, é hostil à vida e por isso os estados de direito são um estado de exceção.

Os compromissos estabelecidos, se enrijecidos e desvinculados das condições de vida, apagam e falseiam as determinantes de poder que o ditam, perdendo, com isso, seu caráter mesmo de compromisso: a justiça vingativa e ressentida, por pautar-se por um excesso de sentimento, não tem limite e procura impor-se como única medida, tornando-se, por isso, imprestável para se estabelecer equivalências, para se atingir o justo. Daí a importância da luta, porque evidencia as relações de poder em jogo e reclama a singularização da avaliação, procurando romper com a alienação do homem e, neste contexto, o direito se mostra como instrumento de uma luta contra os sentimentos reativos, um freio ao insensato influxo do ressentimento e um instrumento de emancipação.


Interpretação e poder: os desafios da justiça

O desafio nietzscheano, em sua crítica à cultura, indicado desde o prólogo deste trabalho, é de superação da alienação pela recuperação da personalidade multifária através do reaprendizado da arte de interpretação. É à análise da arte da interpretação que Nietzsche se dedica ao longo da obra contra o elemento normativo, seja dos genealogistas ingleses, seja da metafísica e do contratualismo.

Daí a necessidade do espírito histórico e da crítica genealógica e problematizante. É esta crítica histórica que permite evidenciar as determinantes de poder presentes a todo acontecimento como Nietzsche revela ao tratar do castigo: sempre há um subjugar e um assenhorear-se pelo qual se afirma uma nova interpretação, um novo ajuste, no qual a “finalidade” e o “sentido” anteriores são necessariamente obscurecidos ou obliterados.

Por isso, todos os fins e todas as utilidades são, para ele, apenas indícios de que uma vontade de potência se assenhoreou de algo menos poderoso e lhe imprimiu o sentido de uma função, formando-se uma cadeia ininterrupta de signos, de novas interpretações e ajustes. Por tal razão que o desenvolvimento de uma coisa, um uso, um órgão é tudo menos seu progressus em direção a uma meta, menos ainda um progresso lógico e rápido.

É neste contexto que se há de entender a ruptura dos compromissos: como a perda de sentido e a morte de uma determinada interpretação. Quando ela não dá mais conta das condições de vida em que se vêem entrelaçadas as forças, impõe-se a necessidade de esquecimento do compromisso em nome da criação de novas formas, interpretações e direções. Ela é expressão do distanciamento próprio à crítica e à resistência. Por isso que a essência da vida se apresenta para Nietzsche como vontade de potência, como atividade, contra a idiossincrasia democrática que tudo domina e tudo quer dominar, retirando-lhe a noção fundamental de atividade e conformação que pressupõe o esquecimento e a ruptura.

Os compromissos, neste quadro, hão de ser lidos tal como Nietzsche nos apresenta o castigo: eles adquirem uma forma, que se apresenta como costume, como um drama e uma certa seqüência rigorosa de procedimentos e que têm um caráter mais duradouro. Contudo, seu sentido, seu fim, a expectativa ligada à realização destes procedimentos é toda fluida, ele apresenta uma síntese de sentidos, insuscetível de definição justamente porque tem história e só é definível, para Nietzsche, aquilo que não tem história.

Uma ordem jurídica formal, esvaziada de sentido em sua generalização e abstração, sobretudo quando se pretende ligada, enquanto valor, à verdade, mascara a luta subjacente de interpretações em busca de predomínio. A luta, em razão disto, é constante, é sempre uma luta de interpretações e a mudança das formas que as abarcam todas é apenas a expressão do esgotamento total de uma estruturação que não reflete mais o combate interno destas interpretações, demandando uma avaliação contínua.

O desafio que se coloca, portanto, envolve o jogo de distanciamento próprio à crítica, mas também da proximidade que permite a afirmação de sentido aos modos possíveis de vida que se abrem ao homem, reclamando, para tanto, um conhecimento de si. Este conhecimento não é aceito sem mais e a modernidade caracteriza-se, como aponta Brusotti, pela desconfiança de sua possibilidade.

Não se trata, por isso, de uma retomada da experiência grega, por mais que ela expressasse uma outra possibilidade de existência, marcada pela liberdade da alma, e não pela violação e auto-crucifixão do homem, mas, pelo contrário, o aprofundamento da experiência moderna que nos revela a história da formação da má consciência, em seu caráter ativo, de tomada de consciência da contradição em si, da mais sinistra doença do homem com o homem, porque esta mesma experiência nos revela o quanto esta história é também expressão de uma tensão, de uma esperança, como se algo se anunciasse, algo se preparasse, como se o homem não fosse uma meta, mas um caminho, um episódio, uma ponte, uma grande promessa.

Porque o homem tem a necessidade de justificação de si em meio à ambigüidade, à contradição e à transitoriedade, porque tendo de afastar-se da transcendência e de toda insignificância, salvando-se do ideal vigente e da vontade de nada, do niilismo, será apenas por meio de sua grande decisão que será capaz de devolver à terra sua finalidade e ao homem sua esperança: aí, vimos em Zaratustra, incide o gládio da justiça e, aqui, compreendemos o quanto esta experiência, esta luta e este desafio são a manifestação profusa de beleza na vida do homem e que permite este jogo de distanciamento e proximidade com o reconhecimento da pluralidade de forças presentes em si.

Este é o caráter trágico da vontade de potência, pelo qual, ao mesmo tempo em que nega o livre arbítrio e o voluntarismo para afirmar a inocência do devir, vê o homem como fatum, como co-responsável por seu destino. A afirmação desta contradição passa por todos os termos em que se coloca a questão nietzscheana em torno da recuperação da singularização da valoração, demandando uma outra espécie de espírito e uma grande saúde, que possa reunir o inumano e o além-humano: trata-se da pergunta sobre a possibilidade do filósofo nos dias de hoje, i.e., da conjugação da vontade de responsabilidade, própria à memória, com a liberdade da vontade, com coragem e ousadia, própria ao esquecimento.

Do mesmo modo que um certo ascetismo é condição à mais elevada sensualidade, enquanto poder e consciência do poder o homem é hybris e impiedade ao pautar sua existência pelos experimentos consigo, pela vivisecção da alma e pelo apoderamento de uma interpretação por outra. É desta contradição do ascetismo, da contradição implicada na vida ascética que o ser moderno toma consciência e que é levada a filosofar: se via antes o erro onde o autêntico instinto de vida situa a verdade, i.e., na corporalidade, na dor, na multiplicidade, no eu e nos sentidos e que a eliminação da vontade e a suspensão dos afetos implicava verdadeira castração do intelecto, seu desafio é de conciliar a possibilidade de um certo ascetismo que implique a elevação da sensualidade, sem desvalorá-la, sem renegá-la por um desejo de ser outro, mas, pelo contrário, reverenciar a pujança da alma e do corpo.

1 - BRUSOTTI, Marco. “Die Selbstverkleinerung des Menschen”, p. 112/115.


2 - Idem, ibidem, p. 113/116.


3 - FERRAZ, Maria Cristina F., “Nietzsche - O Bufão dos Deuses”, p. 91.


4 - STEGMAIER, Werner. Ob. cit., p. 17/23.


5 - MAURER, Reinhart. “O Outro Nietzsche: Justiça Contra Utopia Moral”, p. 172.


6 - BRUSOTTI, Marco. Ibidem, p. 98.


7 - OTTMAN, Henning. Ob. cit., p. 22/29.


8 - BRUSOTTI, Marco. Ibidem, p. 119 e ss..


9 - OTTMAN, Henning. Ibidem, p. 153.

 
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