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Acobertar a morte, neutralizá-la com a imagem da transfiguração dos restos mortais, é uma só coisa com a incapacidade de senti-la, em sua crueza e brutalidade, como violência cometida em vida contra cada particular finito e passageiro, contra cada indivíduo triturado pela marcha progressiva do espírito absoluto na totalidade administrada. Momento dos mais expressivos do materialismo filosófico, a experiência da morte exige assim de nós uma consciência íntegra e não sublimada, capaz de suportá-la sem subterfúgios ou transfigurações, o que significa não sucumbir às analíticas existenciais da morte de todo tipo, inclusive e notadamente a heideggeriana do “ser para a morte” ou do “quando morremos, não resta mais que um cadáver”. Significa reconhecer que somos matéria, essencialmente matéria -e não a matéria indestrutível, transfigurada em conceito intemporal e imutável, que obedece ao célebre primeiro princípio de Demócrito, segundo o qual “nada provém de nada, e nada do que é pode deixar de ser”.

Somos a matéria em que nos decompomos, em que nos degradamos, esta a única realidade, em face da qual a totalidade de nossa existência, o momento de unidade configurado pelo espírito, revela-se mera aparência (cf. “Terminología Filosófica II”, p. 143-4). Somos matéria, morremos como todos os animais e depois não há mais nada: “Que és tu, senão uma caveira?” (Idem, p. 128), eis o momento cínico do materialismo, que se corrige com seu elemento crítico ou, se quisermos, utópico. Pois neste reconhecer que não somos nada além de matéria, nada além de uma caveira, põe-se o anseio da matéria por ser mais do que é, liberando-se do conceito que dela fazemos: “Que, portanto, o material, o temporal, o mundano em sentido exato, é mais do que acreditamos enquanto espírito. Há portanto, no fundo, a esperança de conquistar a vida mais do que de negá-la ou de transfigurá-la em algo superior. O que quero dizer com isto está claramente relacionado com a morte, e constitui a linha de demarcação não somente entre materialismo e espiritualismo, mas também entre as concepções materialistas em geral e as idealistas no mais amplo sentido do termo” (Idem, p. 138).

A experiência da morte é antes, para Adorno, a experiência do cadáver, da decomposição, do animal, e esta frase não deve soar como retórica retumbante: “Penso numa experiência de minha própria infância ao ver passar a carrocinha com um monte de cães mortos e nas perguntas que ocorriam de chofre: ‘Que é isso? Que sabemos nós no fundo? Também nós não somos isso?’. Esta espécie de experiência -que não participa de nenhuma analítica existencial da morte- é precisamente aquela que o materialismo faz recordar. Se ele é um corretivo, o é precisamente por isso” (Idem, p. 134).

Experiência que consiste mormente neste momento, do cadáver, em que a presunção soberana do espírito recebe como que um golpe mortal, em que o primado do espírito, ou do sujeito, parece perder seu fundamento, pois algo então se subtrai à consciência ou, nas palavras de Adorno, algo “cai fora do espírito” (Ibidem). A alma então já não é nada senão o corpo mortificado, e o corpo como que se emancipa por fim de sua subalterna condição de tumba da alma.

Eis o que poderíamos chamar uma restituição in extremis da ultrajada dignidade corporal, uma paradoxal ressurreição da carne no último instante, uma revanche derradeira do que passou a vida toda renegado, do baixo, do degradado, do asqueroso, do doloroso. Daí que diante de um corpo em decomposição, experiência de todo modo dolorosa, o mais insuportável é que ele se nos apresente despido, com o sexo a descoberto e os seios nus. E se acontece de nos parecer simultaneamente asqueroso e doce o odor da putrefação, é pela mesma razão que nos é tanto mais intolerável quanto mais convidativo e familiar o apelo da morte recalcada no curso da civilização, e, analogamente, da vida mortificada que anseia pela redenção. Na imagem do cadáver, Adorno descobre a alegoria mor da natureza oprimida, do mutilado e dissimulado pela civilização. Este é o ponto nevrálgico em que a experiência filosófica autenticamente materialista revela estreita afinidade com a expressão artística. (…)


A imagem é seu cadáver

“A imagem, à primeira vista, não se assemelha ao cadáver, mas bem pode ser que a estranheza do cadáver seja a mesma da imagem” (“L’Espace Littéraire”, p. 344). A que espécie de estranheza se refere Maurice Blanchot? Aquela, justamente, da presença flagrante que se manifesta, paradoxalmente, na ausência absoluta. Contemplar um cadáver é, com efeito, sujeitar-se à exigência de um extremo distanciamento: o que ali está já não é mais deste mundo, ausentou-se, é como uma coisa diante de nós com a qual toda relação já não é mais possível.

Ao mesmo tempo, porém, aquilo que diante de nós se apresenta não é de forma alguma um outro, não é um estranho que não nos diga absolutamente respeito, muito menos uma simples coisa. Aliás, que extraordinária reviravolta experimentamos quando fortes são os laços afetivos que nos ligam ao morto! Por vezes, basta que os despojos mortais sejam os de um conhecido para, diante deles, acontecer de toda nossa existência mergulhar nesta imponderabilidade absurda; a presença do morto nos toca mais do que nunca, sua proximidade é de tal ordem que nosso mundo todo se ausenta, como que fulminado por golpe mortal. Então é ele, o nosso mundo, que sucumbe ao que há de mais irreal e implausível, é ele que mergulha numa presença imponderável e vã, é ele que se vai, e não mais o cadáver.

O cadáver já não é, pois, mera aparência de um ser ausente, imagem do que já não vive. Nas palavras de Blanchot, “o cadáver é sua própria imagem” (Idem, p. 347), o que quer dizer que ele não representa nada de outro além dele mesmo: “O cadáver não é mais deste mundo. Ao mesmo tempo, porém, em que o morto mais se aproxima da condição de coisa, em que mais sua presença é aquela de algo desconhecido, mais ele começa a parecer semelhante a ele mesmo, isto é, àquilo que era quando estava vivo. Neste momento em que se partem as relações inter-humanas, em que nosso luto, nossas preocupações, nossas paixões mais imperiosas recaem pesadamente sobre nós” (Idem, p. 346).

Paradoxal reviravolta. Só agora vem à luz, com sua morte declarada, o indivíduo que de certa forma desaparecia no comércio de nossas relações cotidianas, que desaparecia como desaparecem os objetos na usura de seu caráter meramente instrumental. Deixando de ser algo ao nosso dispor, existente somente para nós, ressurge agora como um ser esquecido, abandonado e inutilizado: “Sim, é ele, o querido vivente, mas é também mais do que ele, ele é mais belo, mais imponente, já monumental e tão absolutamente ele mesmo que está como que duplicado por si, unido à solene impessoalidade de si mesmo pela aparência e pela imagem” (Ibidem).

Ora, esta beleza que emana dos despojos mortais se deve, é certo, a uma soma insuspeita de afetos -sentimentos inconfessos, desejos irrealizados, sonhos esquecidos- acumulados ao longo da vida e que só agora vem à tona. Donde a impressão da mais extrema proximidade ocasionada pela visão do cadáver; donde a constatação de que viver algo em imagem, muito antes de vivê-lo de forma distanciada, desinteressadamente, possa significar vivê-lo na força e na profundidade de nossas paixões, quando as coisas e os seres despertam como reflexo da consciência -acusando a paranóia de toda relação, cognitiva ou não, de caráter eminentemente instrumental.

É possível que a natureza de toda imagem, enquanto algo que carrega a vida na morte e nela se mantém, não apenas se revele emblematicamente na imagem do cadáver, como tenha sua própria origem indissociável da imagem do cadáver. Se fosse legítimo conceber as formas de representação em geral, artísticas e conceituais, como um prolongamento desta parecença mortal das imagens, então deveríamos dizer que todo idealismo encontra sua verdade primeira na crueza do fato da morte, mais ainda, na materialidade do cadáver: “E que este idealismo não tem, no fim das contas, outro garante que um cadáver, isto bem pode demonstrar o quanto a aparência espiritualizada, a pura virgindade formal da imagem está originalmente ligada à estranheza elementar e à informe gravidade do ser presente na ausência” (Idem, p. 347). Eis, assim, as formas sublimes de idealismo descobrindo sua verdade mais profunda no momento mesmo em que se precipitam na materialidade corpórea mais inerte e pesada, mais queda e inanimada.


Referências bibliográficas

ADORNO, Theodor W. “Gesammelte Schriften” (org. por Rolf Tiedemann & Gretel Adorno), 20 vols. Suhrkamp Verlag, Frankfurt, 1970-1986.

ADORNO, Theodor W. “Minima Moralia: Reflexões a Partir da Vida Danificada” (trad. Luiz Eduardo Bicca), Ática, São Paulo, 1993 (“Minima Moralia: Reflexionen aus dem beschädigten Leben”).

ADORNO, Theodor W. “Palavras e Sinais: Modelos Críticos 2” (trad. Maria Helena Ruschel), Vozes, Petrópolis, 1995 (“Stichworte: Kritische Modelle 2”).

ADORNO, Theodor W. “Teoria Estética” (trad. Artur Morão), Martins Fontes/Edições 70, São Paulo, 1988 (“Ästhetische Theorie”).

ADORNO, Theodor W. “Terminología Filosófica I” (trad. Ricardo Sánchez Ortiz de Urbina), Taurus, Madri, 1976 (Philosophische Terminologie: Zur Einleitung).

ADORNO, Theodor W. “Terminología Filosófica II” (trad. Ricardo Sánchez Ortiz de Urbina), Taurus, Madri, 1977 (Philosophische Terminologie: Zur Einleitung).

BLANCHOT, Maurice. « L’Espace Littéraire », Gallimard-Folio/Essais, Paris, 1955.

HORKHEIMER, Max. « Gesammelte Schriften » (org. por Alfred Schmidt e Gunzelin Schmid Noerr), 18 vols. Fischer Taschenbuch Verlag, Frankfurt, 1985-1991.

Maurício Garcia Chiarello
É doutor em filosofia pela Unicamp e autor de "Das Lágrimas das Coisas" (Editora da Unicamp/Fapesp), um estudo sobre Max Horkheimer.

1 - Por vez primeira se insinua, nesse estudo, o tema da morte como linha de demarcação, aqui entre as concepções genuinamente materialistas e as idealistas em geral. Mas esse tema que remonta à célebre formulação benjaminianaina presente no “Drama Barroco Alemão” -segundo a qual a morte se afigura como incisiva linha de demarcação entre physis (sensível) e significação (supra-sensível)- reaparecerá mais adiante sob outras variações. Veremos, por exemplo, no estudo sobre a “Teoria Estética”, que a figuração da morte inscreve, nas obras de arte, a linha de demarcação entre aparência e expressão.

 
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