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Giselle Beiguelman: Nesse trabalho, uma intervenção do público não alterava o resultado da intervenção do outro. O que ela fazia era alterar o processo. Cada um mandava uma resposta. Algumas pessoas com quem trabalhei se convenceram de que eu estava louca pensando que ia propor uma situação de experimentar um sujeito pós-subjetivo e poder pautar o que esse ser faria a cada dia. As pessoas, de fato, não correspondiam à pauta que eu passava. As pessoas realmente respondiam muito mais de acordo com a proposta conceitual de pós-subjetividade e de identidades múltiplas do que eu, num momento traiçoeiro, quis, no autoritarismo do projeto, acreditar.

Então eu acho que o papel do emissor, em determinadas situações, como esta do “Egoscópio” -que era um projeto híbrido entre comunicação, arte, intervenção urbana, teleintervenção-, o emissor é instável. O emissor por um momento era eu, por outro momento era o público simultaneamente participando, por outro momento era até o banco de dados, que travava o processo.

Agora, sobre autoria e museu, me parece que a melhor alternativa até agora está sendo elaborada dentro do Guggenheim por John Ippolito, que é a proposta do Instituto das Mídias Variáveis. O problema de montar arquivos é que as velocidades de conexão mudam, e guardar programas, computadores e trabalhos online pode não adiantar. As condições de conexão e as configurações podem ser totalmente diferentes. Então a idéia do Instituto das Mídias Variáveis de trabalhar com a emulação me parece a única pertinente -se formos pensar novas estratégias de memorização para uma mídia desmemoriada por natureza.

Esther Hamburger: Eu queria voltar ao “Egoscópio” para colocar uma questão que me chama atenção: ao mesmo tempo em que um trabalho como este questiona uma série de noções, como as de original, cópia e autoria, há uma dimensão em que, em certa medida, ele é irreprodutível. Ao mesmo tempo em que questiona a reprodutibilidade, na medida em que é digital, ele é irreprodutível, porque ele se esgota na experiência.

Ele é uma experiência, não um objeto, justamente porque possui esse caráter de rede, o que a Giselle enfatiza bem. Ele é uma interação. Nesse sentido, se a gente for pensar nas categorias de tempo e espaço -que são fundamentais para pensar– ele elimina barreiras geográficas, mas se refere a um momento muito bem delimitado no tempo. E o falar sobre ele a posteriori é uma outra experiência. Que é diferente dele.

 
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