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CONEXÕES

Trópico na Pinacoteca 5: arte online

Saiba como foi o debate entre a mídia-artista Giselle Beiguelman e o crítico Ivo Mesquita

Em certo sentido, as proposições da arte online condensam dilemas da arte, da filosofia e do pensamento social contemporâneo. Mas o que é arte online? Pode-se exigir um status de arte para trabalhos realizados para a mídia digital? E como conceber experiências artísticas para dispositivos dessa ordem?

Essas e outras questões foram tratadas no quinto encontro “Trópico na Pinacoteca”, realizado no dia 30 de novembro, em São Paulo, promovido pela Pinacoteca do Estado e por este site. Giselle Beiguelman, professora da PUC-SP, mídia-artista e editora da seção Novo Mundo de Trópico situou seu trabalho. O crítico de arte e curador Ivo Mesquita trouxe o referencial modernista para a discussão.

O debate foi mediado pela antropóloga Esther Hamburger, professora da ECA-USP e editora de Trópico, que definiu o objetivo do evento como o de especular sobre o estatuto da arte online em relação a outras formas de arte, além de tematizar as conexões entre arte online e questões que estão na ordem do dia na vida contemporânea, como a subjetividade, a interatividade e a transnacionalidade.

A força estética de trabalhos que assumem essas características esteve em cheque. Foi mencionado um novo paradigma de criação em que o emissor é instável e a "interação é a mensagem". Paradoxos postos pelas novas formas salientaram a insipiência do instrumental analítico disponível sugerindo possíveis colaborações.

Cultura Nômade

Giselle Beiguelman abriu sua exposição salientando que o caráter virtual da arte online é adequado a uma sociedade que dispensa referências fixas no espaço e se abre para a organização em rede. O computador, como objeto, estaria assim destinado a perder a posição central que ocupa hoje na arte e na vida cotidiana.

A artista situa o que denomina “mística Apple-Microsoft” como uma circunstância conjuntural, a ser superada na medida em que os equipamentos tenderiam a se tornar cada vez mais adequados ao deslocamento permanente que caracteriza a organização em rede, resolvendo uma antinomia da nossa época. “Temos necessidade de ver e-mails ou de conferir informações, mas ao mesmo tempo participamos de uma cultura absolutamente nômade.”

Para Giselle, essa situação de deslocalidade permanente se opõe ao computador, ao desktop, à necessidade de voltar sempre para nossas casas ou escritórios, situados em pontos físicos fixos, para baixar e-mails.

“A tendência é que nós passemos a experimentar e vivenciar essas situações de rede a partir de instrumentos nomádicos, como os celulares, os palms, os pocket PCs”, observou Giselle. “Toda essa população de novos objetos passa a fazer sentido na medida em que as redes nos permitem pensar num mundo wireless.”

Esses dispositivos nomádicos atenderiam seres multitarefas, envolvidos em atividades simultâneas e em estado de trânsito permanente -situações não adequadas a pausas do olhar e do pensamento.

O trabalho de conceber experiências artísticas para dispositivos dessa ordem não é elementar. “Dentro das nossas tradições culturais, a arte está associada a momentos de concentração, algo que é incompatível com a natureza de instrumentos destinados a uso momentâneo e fragmentado.”


Arte para dispositivos nomádicos

Em seguida Beiguelman apresentou alguns de seus trabalhos recentes que procuraram justamente romper com os limites da arte criada para o computador como objeto, como "Wop Art" (2001), feito para telefones celulares, ou o "Egoscópio" (2002), que envolve acesso público e alimentação de painéis eletrônicos pela internet.

Concebido para a primeira geração de celulares que admitia conexão com a internet, “Wop-Art” tomou como paradigma a op-art, que para Giselle é fundamental para quem trabalha com mídias digitais: “A op-art acontece na medida em que você virtualiza a imagem que não está lá. Aquilo que você vê não está onde você vê, e é fruto de uma interação entre o observador e a obra”.

O título do trabalho já carrega a combinação de arte, internet e mobilidade que a obra, no debate, exibida em um notebook, pretende ressaltar: “O ‘wop’ aqui, é de op-art, e o ‘W’ vem do ‘Wap’, o sistema ‘wireless application protocol’, que é o que faz a internet funcionar no celular”.

Já no caso da teleintervenção “Egoscópio”, a artista propôs que qualquer pessoa, de qualquer lugar, acessasse, através de uma programação específica de banco de dados, o site do trabalho e enviasse o que quisesse para painéis eletrônicos comerciais durante uma faixa de horário específica.

“O Egoscópio lidou com uma dinâmica que me parece particular a esse momento de cultura nômade e ‘desobjetualidade’ total da obra de arte, que é o envolvimento não só de identidades múltiplas”, frisou. “O trabalho propunha uma situação genérica envolvendo seres do qual não se sabia gênero nem idade nem sexo nem altura nem gosto nem localidade; eram seres que só se realizavam pela mídia.”

O projeto lidava com o leitor distribuído e convidava a explorar um hibridismo particular da cultura digital: a da interface com a mensagem. “Era muito difícil para quem estava na rua ou acompanhando online pelo retorno da webcam do projeto o que estava acontecendo no painel, diferenciar o que era uma inserção do ‘Egoscópio’ e o que era uma inserção de propaganda comum. Era necessário que se soubesse o contexto para que a interface se realizasse.”

Nesse sentido, o contato com a mensagem não é a mesma coisa que o contato com o projeto, o que, para Beiguelman, pede uma atualização do pensamento de McLuhan. “O meio não é mais a mensagem”, afirmou a artista.

Napster, MP3, e o original de segunda geração

O “Egoscópio”, segundo Giselle Beiguelman, deu visibilidade ao hibridismo de categorias como meio e mensagem, cópia e original. Ao lidar com um tipo de mídia que prescinde e é independente do suporte, enfrentamos um problema inédito: a dificuldade de distinguir o original da cópia. Até a xerox e o vídeo analógico, o diferencial do original e da cópia era a perda. Cada vez que algo é copiado nesses suportes, perde-se algum elemento no processo. Com o advento das mídias digitais, a diferença entre original e cópia perde o sentido, e surge uma nova questão, a do original de segunda geração.

Giselle Beiguelman citou como exemplo da cultura atual da sampleagem e da remixagem, o caso Napster, combatido pelas gravadoras ameaçadas, não pelo MP3, mas pela radicalidade dos mecanismos de criação, circulação, publicação e apropriação propostos.

A artista finalizou sua intervenção com a descrição de um trabalho recente, “Os Dez Comandamentos”, lançado na Bienal de Buenos Aires em parceria com o mídia-artista e autor de ‘hypertext fiction’ Mark Amerika.

O desafio aqui é o de trabalhar com código aberto, participar de uma cultura de reciclagem e apropriação, lidar com identidades múltiplas e com a recusa permanente e inequívoca da relação objetual. A obra é pensada para uma experiência de rede.

“Tudo indica que vamos trabalhar em breve com ‘wearable computers’, computadores vestíveis. O fundamento da internet 2 não é ser mais veloz, mas sim permitir conexão a partir de qualquer superfície, ou seja, será um processo que tem na sua base uma emulação do espaço e do real que com certeza vai colocar por terra uma série de pré-requisitos com os quais lidamos, do ponto de vista crítico e criativo”, concluiu.

A experiência fenomenológica do objeto de arte

Ivo Mesquita iniciou sua exposição fazendo uma ressalva: “Estou sendo convidado para uma coisa que não é muito a minha praia, mas tomei o convite como uma provocação”.

Considerando-se uma “ameba”, por não ter intimidade com os computadores, Ivo deixou claro que, quando o tema é arte e tecnologia ou arte na rede, ele tem uma postura modernista. “Eu acredito na perspectiva da experiência fenomenológica do objeto de arte, acho que ele é fundamental e a reprodução dele não é ele”, advertiu.

Ivo ressaltou que, apesar da pouca experiência em informática, acabou se envolvendo com mídia digital por questões profissionais. Além de aprender com orientandos de mestrado, como Sarah Cook e Jennifer Crow, assina publicações digitais como a “Rhizome” e passa horas por dia navegando na internet. Mas, apesar de ter descoberto um mundo novo, ainda tem suas dúvidas e questionamentos. “Eu sempre fico mais fascinado pelo cara que fez o programa do que propriamente pelas imagens que estou vendo ou pelas coisas que estou aprendendo ali”, explicou.

O crítico especifica sua objeção. “A rede oferece uma dimensão instrumental para o trabalho que é fundamental. Mas como criação acho que a coisa ainda é muito precária, como os vídeos dos anos 70. A rede é muito recente ainda. Acho que a ainda não se conseguiu equilibrar arte e técnica na rede.”

Ivo Mesquita vai mais longe no seu questionamento. Para o crítico cabe indagar sobre a propriedade de se denominar de arte os trabalhos de mídia digital. Ele sugere uma comparação da mídia digital com a fotografia, na época de seu surgimento, na virada do século XIX para o século XX. A fotografia teria se apoiado nos princípios da arte para criar suas categorias, para depois se libertar e criar um campo autônomo. “Se o avanço tecnológico rompeu com tanta coisa, desconstruiu, desmaterializou, se é tudo virtual, por que a gente quer chamar isso de arte? Por que essa necessidade?”, insistiu.

Mesquita citou como exemplo um trabalho do artista americano Alan McCollum, que criou um site para a exposição “The Museum as Muse”, no MoMA (Nova York), onde qualquer pessoa podia colocar o seu trabalho. Durante os quatro meses em que esse site funcionou, em 1999, apareceram desde quadros de cachorrinhos e retrato de filhos até obras de artistas conhecidos não contemplados nas exposições do museu.

“É interessante que, desse jeito, Alan McCollum criou um espaço transgressivo ou de desvio dentro de uma instituição tão sólida quanto o MoMA”, observou Ivo. “Mas esses trabalhos na verdade não estão no MoMA; estão num site criado dentro do MoMA, não se materializam na coleção do museu. Quatro meses depois, eles desapareceram. Então me parece que é importante pensar essa questão da transitoriedade. O que nos remete também à questão do autor.”


Um mundo de ventríloquos?

Para Ivo Mesquita, outro ponto a ser levantado se refere à pretensa democracia que existiria na rede. “Evidentemente que você tem acesso a milhões de pessoas e de lugares. Mas isso tem um custo. Milhões de pessoas têm acesso, num universo de quase 7 bilhões, mas acho que ainda é muito pouco. Isso está mais perto de uma utopia.”

Voltando ao problema da autoria, o crítico salientou ainda o que considera um paradoxo da rede, que “ao mesmo tempo possibilita a disseminação indiscriminada de coisas, que então se imiscuem e se perdem, mas vêm também estimulando uma reivindicação por autoria. A questão do autor, do artista, da obra única, do indivíduo, do criador surge com insistência”.
br> Mesquita abordou ainda a vocação de arquivo dos museus e da internet. “Há uma discussão toda sobre a atividade de coletar. Neste sentido, eu fecho com o pessoal do ‘Rhizome’, que eles são arquivo. E é isso: eles guardam aquilo, até porque, como eles mesmos afirmam, várias coisas já desapareceram, não estão mais lá, e já foram tão surrupiadas, simuladas, emuladas”.

O crítico concluiu indagando se não estaríamos vivendo no que denominou “um mundo de ventríloquos”. “Nós nunca estamos falando, há sempre alguém que já falou e que está falando de novo”, disse. E resumiu sua postura como a de alguém que não é “tão otimista”.

Leia trechos do debate

Giselle Beiguelman: Eu concordo com o questionamento de Ivo Mesquita sobre a natureza artística do que estamos discutindo. Não porque me pareça que disposto em uma linha histórica de tempo talvez um dia esse trabalho se torne arte, mas talvez porque essa categoria não seja pertinente às especificidades que estão em jogo nesse sistema.

Em determinados casos, eu concordaria com você que a tecnologia é a parte mais original de um trabalho. Em outros, não. Há casos em que há ação combinada. O que me encanta no “Egoscópio” é que é impossível dizer para quem você daria o primeiro lugar: para a Giselle, que andando num congestionamento, resolveu fazer isso desse jeito? Para o cara que construiu o banco de dados? Ou para o público que fez aquilo funcionar? Essa experiência desconcerta porque questiona o referencial. Então é reverso daquilo que você falava: será que isso não é só design? A mídia é híbrida e é por isso que eu digo que a interface é a mensagem.

Ivo Mesquita: Você tem a questão do emissor. O artista, no caso, é aquele que manda uma mensagem. A resposta do público não altera...

 
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