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novo mundo
CYBERCAFÉS

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Por Giselle Beiguelman

A paradisíaca Pipa, no Rio Grande do Norte, tem praias incríveis e o melhor cybercafé do mundo

Aterrissei em Pipa (RN) acreditando que a versão pós-moderna de “caminhando contra o vento…” seria uma coisa meio tipo “viajando para o Nordeste, sem laptop e sem celular”. Tudo o que tinha em mente era respirar o sol de cara para o mar, ali, na esquina do Brasil, onde o mapa faz a curva e o país começa a ficar bem mais devagar.

Fui sonhando com os golfinhos que nadariam comigo e delirando com idéia de ver a desova das tartarugas que deveria ocorrer aos meus pés, na Praia das Minas, onde me instalei imbuída de sentimentos pré-históricos, acentuados pela curiosa geologia que cravou pedras e pedras (e mais pedras, ainda) na costa do Rio Grande do Norte.

O lugar é paradisíaco, mesmo, os golfinhos estão lá, as tartarugas são realmente lindas e tão grandes que deixam a areia da praia sulcada como se tivesse sido atravessada por tratores.

O encontro permanente das dunas com as falésias e com o Atlântico, mais as brisas tufosas e águas mornas-frias, faz a gente realmente pensar que está no além tudo e também no Além-mais.

Os restaurantes, nem todos tão bons como se diz, mas com dois excelentes e mais um, a cerca de 3 ou 4 km da vila, são mesmo de arrasar e confirmam essa hipótese esquisita sobre o além tudo e o Além-mais.

Entrego o ouro. Eles são: O Cruzeiro do Pescador (endereços diurnos e noturnos, ok? São dois lugares, o primeiro muito melhor, lembre-se, mas basta perguntar pelo nome que todo mundo sabe o quê e quando) e o La Provence (que tem magret com molho de jaboticaba, javali e outra caças, tudo delicioso, lindo e com preços que parecem calculados em euros).

Isso, em Pipa.

E aí tem o Típico’s -com sua bela vista para a lagoa de Guaraíras e apóstrofe, of course-, que fica em Tibau do Sul, e não em Pipa “em si” -e tem surpresas diárias do chefe Marcílio, orgulhoso, com razão, de sua presença no “Guia 4 Rodas” e outros mais.

Todas essas coisas foram se revelando aos poucos, entre mergulhos nas piscinas naturais que aparecem e desaparecem em todas as praias, seguindo a dança louca das marés. Encontrei, depois e ao longo dos dias, novos e velhos amigos, e isso sempre é o melhor. Mas não sabia que estava indo para a Búzios do sertão, uma cidade que chegava, com uns certos 30 anos de atraso, a um circuito de turismo semi-alternativo que quando se realizou já era global...

Acredite se quiser. Em menos de 200 metros você tem quatro cybercafés, um dos quais com banda larga e LAN house (é, uma daquelas casas de games que estão pasmando São Paulo, mas minúscula e sem ar), outro num predinho esquisito com créperie dançante, boutique e galeria de arte (sic) no piso superior e mais outra no Pipa Praia Shopping (horror absoluto na sua mais completa tradução).

Tudo isso na tal da rua principal, a “avenida” dos Golfinhos.

Falta um cybercafé, eu sei que só falei de três. O quarto é unique et comme il faut... É o Bookshop da Cintia, uma gaúcha sem idade que tem o mapa astral tatuado nas costas, sempre exposto e queimado, entre fendas de camisetas rasgadas estrategicamente, e frentes-únicas de gosto duvidoso.

Tá bom, já havia percebido, antes de conhecer a Cintia e seu bookshop, que Pipa era globalizada, quando me dei conta que qualquer praia erma na região tem barzinho com ótimas caipirinhas, cerveja geladíssima, Marlboro de caixinha (vermelho e branco), esticadeira, chuveiro, banheiro limpo e, por vezes até, esteira...

Mas ser global não quer dizer ser inteligente, sabemos. Miami, Brasília e Punta del Este não nos deixam mentir.

Não é o caso de Pipa. Lá no Bookshop da Cintia, pode-se alugar livros (R$ 3,00 por semana) e trocá-los. Nada se vende, exceto acesso à internet a R$ 0,25 por minuto. É o melhor cybercafé do mundo. Você acessa seus e-mails soterrado por livros pendurados no teto com cordas como se tivessem sido cruelmente enforcados.

Há quadros e cadeiras por todo lado. Prateleiras cheias e bem organizadas, devidamente etiquetadas (english, french, danish, deutsch, español), são interceptadas por retratos a óleo de Oscar Wilde, Saramago, Hitchcock e gente, muita gente circulando, para ver a pintura que do último quarto ilumina as ante-salas daquele bordel do século 37 depois de Cristo.

É lá, bem em cima de um sofá, que uma mulher nua em pose ginecológica desdenha de tudo e põe à prova a polêmica sobre sua identidade. Parece Cintia, não é Cintia, é Cintia figurada e figurativa, com bigodes que não tem e com um corpo que não é exatamente o seu.

Vê-se o quadro da rua, sem supor que abriga um computador meia-boca, com acesso discado, funcionando muito bem, obrigada, sob sua coxas abertas como uma página do Galeano, que sacrilégio, cantando as nossas tão secas veias da América Latina.

Enxerga-se tudo e não se descobre nada, do lado de fora, pisando os paralelepípedos coloridos com guache barata, vislumbrando as mesas, submersas sob revistas “Cult” (da época áurea e só devotadas à literatura), diversas “National Geographic”, livros de Camus, Schopenhauer, obras sobre o projeto Genoma, tarô e tantos outros desconhecidos.

A iluminação fraca e a quantidade de apelos, mais os incontáveis e-mails que se acumulam em nossa caixa postal quando visitamos um lugar desses, onde só se tem vontade de ouvir Fernanda Porto, cantando “De Costas pro Mundo”, não ajudam a destrinchar de um golpe só aqueles mistérios abrigados sob as forcas da cultura.

Não é todo dia que acontece de você ter aquela sede insuportável de conferir seus e-mails e se ver debaixo de um teto coalhado de livros amarrados com cordas, nas fissuras das telhas, contemplando inúmeros outros dispostos em estantes curiosas, onde se empilham, dispensando o conforto das prateleiras.

Foi depois de algumas tentativas bem sucedidas e outras frustradas de checar meus e-mails que comecei a entender o que diferencia um livro de outro. Confesso, leitor, que não sabia, antes de visitar Pipa e conhecer o Bookshop da Cintia, o que fazia um livro merecer um enforcamento, numa cidadezinha povoada por 87% de analfabetos.

A entrada de uma holandesa gordinha e charmosa foi o estopim da lição fundamental. Ela queria um livro de história do Brasil, em holandês. Encontrou um escrito pelo tradutor de Guimarães Rosa para seu idioma natal.

Queria trocá-lo por um seu, do “Paulo Coelo (sic)”. Cintia riu enfurecida: “Paulo Coelho? Não vai dar. A forca está lotada. Não tenho onde colocá-lo”. Foi aplaudida pelo povo frenético que movimenta seu espaço surreal e resolveu o enigma que me intrigava tanto.

O Bookshop da Cintia oferece ainda noitadas de sarau onde tomei conhecimento do grande Miró, poeta pernambucano, autor de “Eu Amo São Paulo Mesmo Andando de Ônibus” e outras pérolas.

Descobri diversas curiosidades nesse lugar, histórias emboladas, como a do jegue Tito que foi criado com cachorros, não pastava, não servia para a lida, mas abria porteiras, virava latas e comia apenas ração canina. Bagunceiro e atrevido, virou modelo em um restaurante mexicano local, onde trabalhou posando para fotos com turistas que o montavam com sombreros até dar um coice com as duas patas traseiras em uma freguesa.

Mas esse já é outro capítulo e fica para outra vez. O importante é você saber que, se ficar muito tempo em Pipa e esquecer para que serve um laptop ou uma geringonça chamada celular, nem tudo estará perdido. Basta alugar um livro e reconectar.

link-se
Praia de Pipa - http://www.pipa.com.br/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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