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Não é por acaso que o racismo, pensado em sentido discriminatório amplo, seja um elemento persistente da política do presente, para além do seu extremismo nazista. Num contexto histórico biopolítico, afirmou Foucault, não há Estado que não se valha de formas variadas de racismo como justificativa para exercer seu direito de matar em nome da preservação, intensificação e purificação da vida: é o racismo que institui o corte no todo biológico da espécie humana, estabelecendo a partilha entre “o que deve viver e o que deve morrer”.

Na medida em que os conflitos políticos do presente visam a preservação e intensificação da vida do vencedor, eles não expressam mais a oposição antagônica entre dois partidos, segundo o binômio do amigo-inimigo, pois os inimigos deixam de ser opositores políticos para ser considerados como entidades biológicas: não podem ser apenas derrotados, têm de ser exterminados, pois são perigos internos à raça, à comunidade, à população: “A morte do outro não é simplesmente a minha vida, na medida em que seria minha segurança pessoal; a morte do outro, a morte da raça ruim, da raça inferior (ou do degenerado, ou do anormal), é o que vai deixar a vida em geral mais sadia; mais sadia e mais pura”.

Em Sobre a Violência, encontram-se algumas reflexões esparsas nas quais Arendt parece antecipar estas teses foucaultianas, ao afirmar que “nada poderia ser mais perigoso do que a tradição do pensamento organicista em assuntos políticos, por meio da qual poder e violência são interpretados em termos biológicos. (...) As metáforas orgânicas que permeiam a totalidade de nossas discussões atuais destes assuntos (...) só podem, por fim, promover a violência. (...) Além do mais, a partir do instante em que se começa a falar em termos biológicos, não políticos, os glorificadores da violência podem apelar ao fato inegável de que, no seio da natureza, destruição e criação são as duas faces do processo natural, de modo que a ação violenta coletiva, deixando de lado a sua atração inerente, pode parecer tão natural enquanto um pré-requisito para a vida coletiva da humanidade, quanto a luta pela sobrevivência e a morte violenta em nome da continuação da vida no reino animal. O perigo de se deixar levar pela plausibilidade enganosa das metáforas orgânicas é particularmente grande onde o tema racial está envolvido. O racismo... é por definição repleto de violência porque contesta fatos orgânicos naturais... que nenhuma persuasão ou poder podem muda; tudo o que se pode fazer, jogadas as cartas, é exterminar seus portadores”.

A modernidade tardia e o presente trouxeram a subordinação e a funcionalização da atividade política à atividade econômica, a submissão da liberdade à necessidade vital, a substituição da fabricação pelo trabalho, da durabilidade pelo consumo e da ação e do discurso pelos imperativos da violência.

No curso destas transformações que moldaram o mundo contemporâneo, a violência na política já não se esgotou mais em suas manifestações instrumentais e localizadas, pois, a partir de agora, ela não se limita apenas a destruir para construir novas formas de sociabilidade política, nem se restringe à instância de simples meio para alcançar objetivos delimitados: o que se observa é que o que antes era meio se transformou em fim, de sorte que a violência se tornou uma exigência contínua da cena política, pois apenas ela pode garantir o contínuo processo de produção da abundância e de preservação da vida.

Daí a afirmação arendtiana de que, no presente, tudo se passa “como se a própria vida, a vida imortal da espécie, alimentada, por assim dizer, pela morte contínua de seus membros individuais, estivesse em ‘expansão’ e fosse realizada na prática da violência”. Ao distinguir entre poder político e violência, Arendt visou compreender esse complexo processo de obscurecimento da liberdade em meio à transformação da violência em exigência constitutiva da comunidade política, a fim de vislumbrar as frágeis alternativas que ainda nos restam para tentar reverter ou transformar este dilema.

André Duarte
É professor de filosofia da Universidade Federal do Paraná e autor de "O Pensamento à Sombra da Ruptura" (Paz e Terra), sobre Hannah Arendt.

1 - Foucault, M. "Em Defesa da Sociedade", op. cit., pág. 304.


2 - Foucault, M. "Em Defesa da Sociedade", op. cit., pág. 305.


3 - Arendt, H. "Sobre a Violência", op. cit., pág. 55.


4 - Arendt, H. "Sobre a Violência", op. cit., pág. 51.

 
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