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A controvérsia desencadeada por alguns dos ensaios dessa época pode ser encarada como preparação para o turbilhão em que a pensadora se veria envolvida a seguir. Seu Eichmann em Jerusalém - Um Relato Sobre a Banalidade do Mal, escrito a partir da cobertura do julgamento de Adolf Eichmann para a revista americana “The New Yorker”, provocou reações adversas nos Estados Unidos, na Europa e em Israel.

As acusações endereçadas a ela pareciam atacar basicamente dois pontos: sua crítica à atuação dos conselhos judaicos e a escolha do subtítulo do livro. No que se refere à banalidade do mal, Hannah Arendt empenhou-se em esclarecer que a expressão dizia respeito a seu caráter superficial, em contraposição ao bem, este, sim, profundo e radical.

Ainda em Jerusalém, inicialmente ela se recusou admitir que o mal daquele homem, e o mal genericamente tomado, pudesse ser banal. Contudo, o próprio Eichmann cuidou de mitigar a resistência de Arendt com incessantes demonstrações de sua incapacidade de exercer as faculdades da razão e da linguagem.

Em carta a Gershom Scholem, ela escreve: “Minha opinião é de que o mal nunca é ‘radical’, é apenas extremo e não possui profundidade nem qualquer dimensão demoníaca. Ele pode cobrir e deteriorar o mundo inteiro precisamente porque se espalha como um fungo na superfície. Ele é ‘desafiador-do-pensamento’, como eu disse, porque o pensamento tenta alcançar alguma profundidade, chegar às raízes, e o momento em que se ocupa do mal é frustrado porque não há nada. Essa é sua ‘banalidade’. Apenas o bem tem profundidade e pode ser radical”.

Artigos e cartas vieram a público em reação ao “relato” de Arendt, tendo ela respondido apenas a alguns, dada a falta de qualidade dos argumentos, resultantes a seu ver, de interpretações equivocadas. Quanto às acusações relativas à sua crítica à atuação dos conselhos judaicos, referiam-se à traição e à falta de “amor ao povo judeu”.

Sua réplica assumia sua incapacidade de amar outros que não os seus amigos, isto é, em oferecer seu amor a qualquer povo ou coletividade.Tal afirmação teria sido feita, pela primeira vez, em resposta a Scholem, que a acusava de não cultivar “amor pelo povo judeu”. Seu testemunho encontra-se nos seguintes termos: “Eu nunca amei, em toda a minha vida, qualquer povo ou coletividade, quer se tratasse de alemães, franceses ou americanos, ou mesmo a classe operária ou seja lá o que for. De fato, só amo os meus amigos e sou absolutamente incapaz de qualquer outra forma de amor. Mas, levando em conta o fato de que sou judia, é antes de mais nada o amor aos judeus que me pareceria suspeito”. As implicações que a aborreceram mais seriamente, contudo, foram a súbita transformação em figura pública -este status de “celebridade” colidia com seu modo de viver, seu apreço pelo silêncio e por pequenos grupos- e o desgaste do relacionamento com amigos muito estimados, sobretudo com Blumenfeld, laço que ela jamais conseguiu refazer. A “razão prática” de Arendt salta aos olhos em meio a essas animosidades, e ela aplicou à realidade aquilo que defendera em teoria: lealdade, humanismo e, especialmente, recusa a ser coagida.

Eichmann impulsiona, por outro lado, um processo de cura e reconciliação com um mundo no qual ela finalmente se sentia à vontade, auxiliada por seu “mundo particular”, que, segundo ela, tão somente a amizade permite erigir. Esse estado de ânimo levou-a, então, a inclinar-se para a biografia de figuras que, no seu entender, haviam marcado o século 20. Os vários textos acerca dessas personagens foram reunidos e publicados em 1968, sob o título Homens em Tempos Sombrios. Nesse período, Hannah Arendt voltou-se, igualmente, à revisão de Origens do Totalitarismo e de Sobre Revolução, por ocasião do cinqüentenário da Revolução Russa e dos movimentos que ocupavam a cena política nos Estados Unidos e na Europa, tendo os estudantes como protagonistas.

A Responsabilidade Pessoal Sobre a Ditadura constitui tema relevante em suas reflexões nessa época, sob o estímulo de três palestras em 1964. Com isso, ela assentava as bases para se lançar ao desafio de investigar a relação entre pensamento e ação, assim como de formular sua filosofia moral.

A reaproximação da filosofia, que se vinha operando lentamente, tornou-se definitiva com a morte de Jaspers e Blücher, em curto intervalo de tempo. A despeito da permanência dos demais membros de seu grupo e da companhia dos alunos, Hannah Arendt sentia a perda dos dois homens que a deixavam tão à vontade no mundo, pela confiança inabalável, por compartilharem de sua crença na “lealdade como o sinal da verdade” e por experimentarem, com ela, a liberdade e o diálogo racional.

Heinrich Blücher, nascido em 1889, numa família de “classe trabalhadora” em Berlim, era, conforme retrato traçado por um amigo na ocasião de sua morte, em 1970, um “anarquista, tanto em espírito como em temperamento”. Sua ajuda à elaboração de As Origens do Totalitarismo fora imprescindível, tanto pelo empenho na organização do material, como pelas experiências práticas transmitidas e incentivo às leituras de sua esposa sobre o marxismo.

Com seu casamento e o nascimento daquele “mundo próprio” entre os dois, ele transformou-se no “lar portátil” de Arendt, conforme descrição feita em carta a Jaspers. Um companheiro que compartilhava de sua paixão pela conversação e que reconhecia, como ela, a necessidade do ser humano ver-se refletido no “outro”.

Arendt enfatizava a dimensão política dessa necessidade, enquanto Blücher se ocupava de trilhar o caminho que conduziria à consciência de nós mesmos e à liberdade. Quanto à falta que sentiria de Jaspers, basta relembrar que, para ela, amizade e política constituiriam elementos centrais para a atividade filosófica e integram-se na “responsabilidade ética humana”, em que duas personalidades livres se voltam ao desenvolvimento uma da outra.

Hannah Arendt passaria, a partir de então, até sua morte, em 1975, a desfrutar da companhia dos amigos e dos filósofos que lhe eram caros, concentrando suas forças na edição dos manuscritos que se tornariam o inacabado A Vida do Espírito - O Pensar, o Querer e o Julgar. A retirada para o “reino do pensamento”, em resposta à degradação de seu “mundo particular”, parecia atender, finalmente, à sua intenção de religar filosofia e política.

Cláudia Perrone-Moisés e Renata Reverendo Nagamine


Cláudia Perrone-Moisés é professora da Faculdade de Direito da USP e coordenadora do Grupo Hannah Arendt do Departamento de Direito Internacional dessa faculdade.

Renata Reverendo Nagamine é aluna da Faculdade de Direito da USP e pesquisadora do Arquivo Hannah Arendt, do Departamento de Direito Internacional.

1 - "A Dignidade da Política", Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2002, pág. 137.

 
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