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dossiê
HANNAH ARENDT

A dimensão política de uma vida
Por Cláudia Perrone-Moisés e Renata Reverendo Nagamine

Somente nos últimos dois anos, quatro colóquios foram realizados no Brasil para discutir a obra de Hannah Arendt: “Colóquio Hannah Arendt” (Unicamp, 2000); “Hannah Arendt – 25 anos depois” (PUC-Rio, 2000); “Origens do Totalitarismo – 50 anos depois” (Universidade Federal do Ceará, 2001) e “A banalização da violência - a atualidade do pensamento de Hannah Arendt” (Universidade Federal do Paraná-Curitiba, 2002).

Além disso, muitas teses, artigos e livros de historiadores, filósofos e juristas vêm sendo produzidos aqui desde os anos 80. O encontro de Curitiba foi o primeiro colóquio internacional realizado no Brasil e contou, além da participação brasileira, com estudiosos franceses e alemães.

Os textos de Cláudia Perrone-Moisés e André Duarte, publicados neste dossiê de Trópico sobre Hannah Arendt foram apresentados no colóquio de Curitiba. O artigo a seguir foi elaborado especialmente para este dossiê. Trata-se de uma breve biografia da filósofa, cuja obra tem-se revelado cada vez mais importante para o entendimento de nosso tempo.

Hannah Arendt nasceu em 14 de outubro de 1906, em Hannover, cidade do norte da Alemanha, no seio de uma rica família de imigrantes judeus provenientes da Rússia, filha única de Paul e Martha Arendt. Como desde a infância desse mostras de talento intelectual, sua mãe, estimulava seus progressos e festejava suas habilidades. A insaciabilidade de Martha, contudo, transmitia a Hannah Arendt a sensação de “opressão materna” que a acompanharia pela vida e encontraria manifestação no seu pavor de falar em público. A falta de confiança em si foi outro traço da personalidade de Hannah Arendt na juventude, bem como a introspecção, que ela mais tarde condenaria em termos genéricos, como uma "perda do mundo", no livro Rahel Varnhagen – A Vida de uma Judia Alemã na Época do Romantismo. Este livro (publicado no Brasil pela ed. Relume-Dumará) é considerado por muitos como uma espécie de "autobiografia" da filósofa.

A volta de Hannah Arendt ao convívio social aconteceu de maneira gradual, com as reuniões de um pequeno grupo de amigos para estudos de grego ou para sessões de teatro. O abandono da introspecção foi igualmente facilitado pelas reuniões dos amigos social-democratas de Martha, promovidas em sua casa, o que permitiu que ela desviasse a atenção de si mesma para a situação política da Alemanha.

Nesses anos, Hannah Arendt teve uma vida escolar conturbada, tanto em razão de seu temperamento quanto de sua independência intelectual. A mãe adotava postura mediadora em relação à escola e procurava tornar seus horários mais flexíveis, apoiando suas reivindicações.

Para fazer seus estudos universitários, Arendt partiu para Berlim, onde freqüentou os cursos de sua preferência na universidade local. Sua opção foi pelo latim, grego e pelas palestras do teólogo Romano Guardini, que definiram a teologia como área de concentração, uma vez matriculada na Universidade de Marburg, em 1924.

Os cinco anos passados em Marburg foram marcados pela companhia dos antigos amigos, bem como pelo despertar do amor pela filosofia, sob o impacto do assombro experimentado e da reverência a Heidegger. O talento e a força da oratória do filósofo alemão logo transformaram aquela admiração em “devoção inquebrantável a alguém sem igual”, que lhe ensinara o “pensar apaixonado”, a sintetizar o “pensar” e o “estar vivo”.

A impossibilidade de tornar público seu amor, a resistência de Heidegger em aceitá-lo plenamente e a solidão em que vivia em Marburg explicavam a rivalidade entre maturidade intelectual e timidez infantil que se observava no comportamento de Arendt.

No momento em que decidiu deixar a cidade para estudar um semestre com Husserl e se afastar de Heidegger, Hannah Arendt deparou com a perda de sua inocência juvenil, que cedia lugar a uma “nova compreensão” e que, aos poucos, seria substituída por uma “inocência propositalmente preservada” -traço que ela tanto prezaria nos futuros amigos, já nos Estados Unidos.

Desses tempos, Arendt levaria consigo o amor pela poesia compartilhado com Heidegger, mas também um “mal-estar” em relação à condenação do indivíduo ao isolamento, característica de sua filosofia.

Às voltas com sua tese de doutorado, sob o título de O Conceito de Amor em Santo Agostinho, Arendt decide, com Heidegger, pela inconveniência de realizá-la sob a orientação dele. Ele escreve a Jaspers, então professor de filosofia na Universidade de Heidelberg, recomendando-a ao amigo.

A partir de 1926, os dois expoentes da filosofia alemã do século 20 passam a dividir responsabilidades no que se refere à formação de Arendt. Por sua vez, ela, que fora inspiração de Heidegger na elaboração de seu Ser e Tempo, acompanhava, agora, o desenvolvimento da Filosofia, de Jaspers, servindo-lhe de interlocutora.

As reuniões promovidas na casa de Karl e Gertrud Jaspers, bem como a admiração de Arendt pela razão prática, confiança e independência intelectual do filósofo, a levariam a sentir-se mais tarde retornando ao lar sempre que visitava o casal. Em carta a Kurt Blumenfeld, amigo sionista e seu mentor em assuntos políticos, expressou sua alegria diante da satisfação de Jaspers com ela e com seu trabalho, revelando que era como um sonho que se realizava. A gratidão por esse vínculo de amizade era mútua, e ambos chegaram a declará-la publicamente.

Em discurso que proferiu por ocasião da entrega do Prêmio da Paz conferido a Jaspers, Hannah Arendt declama uma bela e comovente “Laudatio”, em que realça a humanitas a que o filósofo se alçara, assim como expõe o que a fascinava a seu respeito: sua capacidade de renovar-se permanecendo igual a si mesmo.

Arendt atribuía tal habilidade à edificação de um “mundo novo” a que Jaspers e a esposa dedicavam-se desde sua união. Para ela, nesse “mundo próprio”, ele aprendera o diálogo, a atenção e a paciência no “ouvir”, a análise de si, a coragem em se expor, enfim, tudo o que há de imprescindível nos assuntos humanos.

Jaspers, em contrapartida, admirava a visão cosmopolita adquirida por Arendt sem o comprometimento de seus valores mais íntimos e celebrou, em sua autobiografia, a amizade estabelecida com a antiga aluna, dizendo que poucas pessoas permitiram que ele se entregasse a um diálogo tão franco. O esforço comum em fazer a filosofia “retornar a suas origens”, ou seja, em conferir-lhe concretude e praticidade, a apreensão da comunicação como elemento essencial e a crença na lealdade sustentaram essa amizade ao longo de mais de 40 anos.

No entanto, as tentativas de seu professor de dissuadi-la quanto à intenção de deixar a Alemanha, apelando a uma suposta “essência alemã”, resultaram frustradas. Em 1933, diante da ascensão dos nazistas e do recrudescimento da tensão política e social no país, Hannah Arendt e Günther Stern, seu primeiro marido, seguem em direção ao exílio na França. Sua estada no país prolonga-se até 1939, quando sairá novamente em fuga, provocada pela expansão do nazismo, rumo aos Estados Unidos.

Os 18 anos vividos na condição de apátrida são marcados pela excepcional atividade política e pelas reuniões com seu grupo de amigos. O primeiro, na França, era formado por estrangeiros judeus e não judeus que se encontravam no apartamento de Walter Benjamin para discutir a política judaica que, possivelmente, emergiria da crise mundial que se instaurava. Esse grupo de pares e, em especial, o segundo casamento, com Heinrich Blücher, foram decisivos tanto para que ela adentrasse a esfera da política, quanto para a aquisição de uma visão politicamente cosmopolita.

Desprovida de qualquer espaço onde suas ações tivessem relevância e suas palavras, significado, Hannah Arendt encontrou, nesse círculo, a amizade e o amor que confirmavam suas verdadeiras crenças. Esses amigos, aliás, acompanhariam os Blüchers por toda a vida e, mesmo nos Estados Unidos, continuariam a se reunir para discussões acaloradas sobre poesia, política e temas dos mais diversos. Tal experiência ainda lhe determinaria a posição acerca da consagração dos direitos humanos.

A abordagem de Arendt a respeito desses direitos primava pela ênfase dada às vicissitudes advindas de sua fundamentação na dignidade inata ao homem. O fundamento dos direitos humanos e o “direito a ter direito” constituíram, afinal, um dos aspectos tratados por ela na primeira obra publicada nos Estados Unidos, em 1951, As Origens do Totalitarismo. Revelador do esforço de compreensão que dará o tom do enfoque da pensadora acerca dos problemas políticos contemporâneos, o livro justificaria, além disso, a recusa em reconciliar-se com um mundo no qual se deveria coabitar com tamanho mal.

As Origens do Totalitarismo foi fruto da reunião de ensaios publicados por Arendt, nos anos 40, a respeito dos temas do imperialismo e anti-semitismo, e de uma terceira parte, acerca do totalitarismo, acrescentada àquelas duas na composição da obra como a conhecemos hoje. A relutância de Hannah Arendt em conceber a história como um movimento calcado na lógica de causalidade explicaria sua apresentação do nazismo como resultado da “cristalização” dos elementos envolvidos no imperialismo e no anti-semitismo. A emergência de um regime como o nazista acenava, em sua opinião, para a urgência em se construir um novo conceito de humanidade, a partir do reconhecimento do “outro” e da avaliação positiva da pluralidade humana.

Em seus estudos para a redação daquela terceira parte, Arendt havia percebido o papel essencial e distintivo desempenhado pelos campos de concentração nos regimes totalitários e, em função desse fator, fez convergirem nazismo e comunismo. Essa visão constituiu, ao lado da metodologia adotada, o fulcro das críticas dirigidas ao livro. Ela reconhecia os pontos frágeis da obra, patentes no desequilíbrio entre as informações sobre o regime nazista e aquelas sobre o regime comunista, e, com o intuito de dar prosseguimento à análise, encaminhou um projeto de pesquisa à Fundação Guggenheim com a proposta de se dedicar mais profundamente ao estudo do marxismo.

O trabalho não veio a ser concluído, entre outras razões pela dimensão que ia atingindo à medida que ela se dedicava ao tema. Seu empenho, porém, não foi em vão: o material recolhido e os artigos escritos ao longo da década de 50 serviriam à concepção de algumas obras relevantes em sua bibliografia.

Neste rol se inserem A Condição Humana, Entre o Passado e o Futuro e Sobre a Revolução. Arendt passaria então a ocupar-se da teoria política, destinando sua preocupação à restauração da dignidade dessa esfera, na qual têm curso os assuntos humanos. Em 1953, como conseqüência do impacto de As Origens do Totalitarismo, recebe seu primeiro convite para uma palestra na Universidade de Princeton. A partir de então, seria convidada para conferências, seminários e cursos nas principais universidades norte-americanas: Harvard, Yale, Columbia, Cornell, New School for Social Research, entre outras.

A Condição Humana, sua principal obra na opinião de muitos, veio a público em 1958, trazendo à luz a destruição das condições de existência do homem no mundo, operada pelo consumismo da sociedade moderna. A incursão de Arendt era orientada pelas categorias do labor, do trabalho e da ação, componentes da vita activa, em seus próprios termos.

Subjazem, aqui, os frutos de seus estudos do marxismo, e despontam alguns temas que lhe serão caros: a crise da tradição do pensamento ocidental, a violência como instrumento inábil à construção, a esfera pública como espaço destinado ao aparecimento do ser humano, o poder como um agir conjunto, a liberdade como razão de ser da política e, finalmente, a consagração da capacidade humana de empreender milagres, um conceito fundamental em seu pensamento.

Os ensaios compilados em Entre o Passado e o Futuro consistiram em aprofundamento de alguns desses temas, enquanto outros seriam desenvolvidos apenas ao final da década de 60 e reunidos em Crises da República. Naquela primeira coletânea, seus escritos ainda são nitidamente permeados pela experiência totalitária, ao passo que nos artigos de Crises da República, Arendt firma seu ponto de partida em acontecimentos atuais, que a impeliam à compreensão, não mais em um esforço de reconciliar-se com o mundo, mas, sim, como uma tentativa de alertar para os riscos em que se pode incorrer e para a necessidade de se vislumbrarem perspectivas novas.

1 - E. Young-Brueh, "Hannah Arendt – Por Amor ao Mundo", Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1997, pág. 221. Certas passagens deste artigo foram baseadas no livro de Elizabeth Young-Bruehl


2 - "Karl Jaspers - Uma Laudatio", in "Homens em Tempos Sombrios", São Paulo, Companhia das Letras, 1987, pág. 67 e ss.

 
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