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CÁUCASO

A fugaz notoriedade da Tchetchênia
Por Márcio Senne de Moraes

A comunidade internacional voltou a fechar os olhos para um conflito que já matou 55 mil

A tomada de reféns num teatro de Moscou por rebeldes tchetchenos, em outubro, deu repentina _e efêmera_ atualidade ao conflito na Tchetchênia, que caíra em esquecimento desde os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono e do início da guerra ao terrorismo liderada pelos EUA. O episódio trágico refletiu tanto o desespero dos tchetchenos quanto a tensão criada pela incapacidade da administração russa em encontrar uma solução para uma guerra inglória, reiniciada por Vladimir Putin há três anos (quando ocupava o posto de premiê) e da qual ele se serviu para eleger-se presidente.

Na república caucasiana da Tchetchênia, a população civil vive numa terra sem lei e arruinada pela brutalidade da ofensiva militar da Rússia. Esta aniquilou a maior parte da infra-estrutura produtiva da região, incluindo as poucas fábricas e a indústria petrolífera, e causou o êxodo de centenas de milhares de refugiados (a população tchetchena era cerca de 1,2 milhão de pessoas antes do início do conflito).

Em sua segunda ofensiva (recente) na Tchetchênia, as forças russas têm sido muito mais duras do que na primeira, realizada entre 1994 a 1996. Elas utilizam artilharia pesada e realizam intensos bombardeios aéreos, além de "operações de limpeza" para encontrar suspeitos. Com isso, já conseguiram empurrar os guerrilheiros para as montanhas, onde eles se escondem atualmente. Porém, apesar de todas as violações aos direitos humanos já perpetradas por ambas as partes, o problema ainda não foi resolvido.

Os métodos empregados pelos militares russos reabriram feridas do passado no imaginário da população tchetchena. Afinal, em 1944, sob o sangrento regime de Josef Stálin, centenas de milhares de tchetchenos, acusados de colaboração com os nazistas, foram deportados para a Sibéria e para o Cazaquistão.

Em 1996, os militares russos deixaram a Tchetchênia derrotados ou, mais do que isso, humilhados. Entretanto, desde o início da nova ofensiva, lançada após uma série de atentados em território russo (cuja autoria ainda não foi descoberta) e a invasão do Daguestão por rebeldes tchetchenos, Moscou só conseguiu estabelecer um controle precário sobre a república secessionista.

Em três anos de combates, cerca de 5.000 soldados russos e mais de 50 mil tchetchenos, a maioria entre a população civil, já morreram, segundo organizações de defesa dos direitos humanos. Para elas e para qualquer pessoa de bom senso que se interessa por geopolítica, a comunidade internacional deve agir para pôr fim às atrocidades, das quais os rebeldes também não estão isentos de culpa, pois são autores de inúmeros sequestros e de atos terroristas contra bases russas e de ações criminosas.

Ademais, os números reais são certamente bem mais elevados do que os que conhecemos, já que a contabilidade russa não é transparente. Por exemplo, cabe mencionar que os militares russos feridos na Tchetchênia são transferidos para outras regiões, deixando, portanto, de serem considerados "baixas do conflito tchetcheno" caso morram.

Para complicar ainda mais as coisas, geopoliticamente, a questão é muito delicada. A Tchetchênia é uma república russa (que se autoproclamou independente em 1991, após o colapso da União Soviética), e os países desenvolvidos querem evitar qualquer ingerência em questões internas do país, chamando o conflito de "assunto doméstico russo". De fato, se os direitos humanos pudessem ser negligenciados, estaríamos diante de um problema que, politicamente, envolveria apenas a Rússia e a Tchetchênia. Afinal, aos olhos do direito internacional, a segunda permanece parte da primeira.

Além disso os russos acreditam ter suas razões. Ciente de que a Rússia, como a extinta União Soviética e a Iugoslávia de Tito (Josip Broz), é uma colcha de retalhos, reunindo inúmeras etnias, credos e culturas, Putin teme que a independência da Tchetchênia provoque um efeito dominó, uma sucessão de movimentos independentistas, o que enfraqueceria Moscou internamente e na esfera internacional. Vale ressaltar, entretanto, que a administração russa já conseguiu fazer acordos com outras regiões que tinham veleidades independentistas, oferecendo mais autonomia em troca de fidelidade à bandeira.

Desde o Tratado de Westfália, em 1648, até o conflito em Kosovo, em 1999, o princípio da não-ingerência em assuntos domésticos pautava as relações internacionais. Isso não é mais um dogma, como demonstraram as intervenções em Kosovo e no Afeganistão. Contudo, no caso tchetcheno, em razão de imperativos geopolíticos (sobretudo após os ataques terroristas de 11 de Setembro, visto que a anuência de Moscou à guerra ao terrorismo é crucial), a não-ingerência e a omissão internacional continuam imperando.

A situação dos tchetchenos agravou-se sensivelmente depois dos atentados contra os EUA. Até então, vez por outra, as potências internacionais ainda criticavam a crueldade das forças russas na república separatista. Atualmente, como Washington precisa da aprovação de Moscou a seu combate ao terrorismo, Putin tem liberdade para agir. Os tchetchenos tornaram-se, portanto, terroristas "ligados à Al Qaeda", de acordo com o establishment internacional, e as reações das potências ocidentais se resumem a uma condenação retórica cada vez menos frequente e mais complacente.

É verdade que o radicalismo islâmico também existe entre os guerrilheiros tchetchenos. Porém, concretamente, ele é marginal no que se refere à maioria da população da república secessionista. Na realidade, nos últimos anos, ele tem-se exacerbado por causa da falta de perspectiva provocada pela guerra. É por isso que o Ocidente tem de separar os terroristas, como Shamil Basayev, dos tchetchenos que têm legitimidade política e, portanto, poderão negociar com os russos, como o ex-presidente Aslan Maskhadov. Ele nunca apoiou o terrorismo e já declarou que estaria disposto a negociar embora Moscou afirme o contrário.

À luz dessas constatações, a triste conclusão é que os terroristas tchetchenos atingiram (brevemente) o objetivo que tinham antes da invasão do teatro em Moscou e da tomada de centenas de reféns inocentes: levar de volta à pauta das relações internacionais o sangrento conflito travado há quase uma década entre militares russos e guerrilheiros locais na república caucasiana.

O desfecho da tomada de reféns em Moscou mostra que os militares russos se encontram desnorteados. Além dos 41 sequestradores, mais de 120 reféns inocentes morreram asfixiados por causa do gás utilizado pelas forças russas para neutralizar os tchetchenos (e porque o nome do gás usado demorou a ser revelado em razão do "caráter confidencial da ação").

Ora, se algo assim é possível na capital russa, não é nem bom imaginar as atrocidades cometidas por ambas as partes nos confins do Cáucaso, onde não há Estado de Direito. Na região, deserções e abusos entre os militares russos também se tornaram corriqueiros. Uma coisa é certa: enquanto Moscou não separar o joio do trigo, os moderados dos terroristas, a questão tchetchena permanecerá sem solução. Por enquanto, infelizmente, este é o cenário mais provável.

Márcio Senne de Moraes
É pós-graduado em ciência política com especialização em relações internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris e trabalha no caderno "Mundo" da "Folha de S. Paulo".

 
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