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dossiê
SONHO TROPICAL

A carta de Claude d'Abeville:"Partimos rumo à ilha do Maranhão, onde estavam as pedras preciosas que procurávamos: os selvagens"
Por Claude d'Abeville

Leia a carta do capuchinho Claude d'Abeville, que participou da aventura francesa no Maranhão, em 1612

Meu querido e muito amado irmão, que a paz de Deus esteja convosco. Demorei para escrever-vos porque aguardava a partida do senhor de Rasilly, que em breve retornará à França para buscar novas provisões. Procurarei, no entanto, colocar-vos inteiramente a par dos detalhes da viagem, das coisas que vimos no mar e daquelas que encontramos ao desembarcar neste país e mundo novo. Ficarei, por hora, contente se conseguir aproveitar bem a oportunidade que se me apresenta para informar-vos de tudo com presteza.

Pelas cartas que enviei, deveis saber que partimos do porto de Plymouth, onde tínhamos buscado abrigo em razão do mau tempo, na segunda-feira de Páscoa. Ao deixarmos o porto, fomos beneficiados por um vento tão favorável que rapidamente alcançamos as Canárias. Navegando sempre nas proximidades da costa da Barbaria, ultrapassamos o cabo Bojador e demos com o cabo Branco. Deus auxiliou-nos muitíssimo, pois ultrapassamos a linha equinocial sem nenhum problema, apesar de estarmos numa estação do ano pouco favorável para a viagem. Depois de cruzarmos a linha, alcançamos Fernando de Noronha, uma pequena ilha com cerca de 5 léguas de contorno, que por obra e graça de Deus é um verdadeiro paraíso terrestre. Encontramos no lugar 1 português e 17 ou 18 índios selvagens, todos escravos, abandonados nessa ilha pelas gentes de Pernambuco. Depois de termos fixado uma cruz bem no centro de uma capela que tínhamos erguido para rezar a santa missa e de termos abençoado devidamente o lugar que nos abrigaria por 15 dias, batizamos uma parte desses homens. Recusamos, porém, batizar os demais na ilha, adiando a cerimônia até que tivéssemos alcançado o nosso destino. Embora tenhamos, para grande contentamento de todos, libertado os selvagens e o português, decidimos levá-los conosco, juntamente com o algodão grosso e com outras mercadorias que possuíam.

De Fernando de Noronha, continuamos nossa rota e chegamos ao cabo das Tartarugas, no país dos Canibais, local que, segundo conta Eusébio em sua história, foi visitado pelo apóstolo Mateus. Fizemos vela do cabo de Tartaruga depois de 15 dias e alcançamos a ilha do Maranhão no dia da gloriosa Santa Ana, mãe da Virgem Maria. Jamais esquecerei que nesse dia, tão apreciado por mim, chegamos ao lugar que tanto desejávamos.

No domingo seguinte, pusemos os pés em terra borrifando água benta e cantando o Te Deum laudamus, o Veni Creator e as ladainhas de Nossa Senhora. Findada a cantoria, seguimos em procissão do ponto de desembarque ao local que havíamos escolhido para colocar uma cruz, a qual foi carregada pelo senhor de Rasilly e por todos os principais de nossa companhia. Uma vez abençoada a terra, o senhor de Rasilly e o senhor de Ravardière batizaram-na de terra de Santa Ana, em virtude tanto de termos aí aportado no dia da referida santa, quanto de a condessa de Soissons, parente do senhor de Rasilly, ter esse nome. O terreno em que a cruz seria fixada foi devidamente abençoado e ao pé dela enterramos um pobre homem da companhia, tanoeiro de profissão.

Terminada a cerimônia, que trouxe grande contentamento para todos, partimos rumo à ilha do Maranhão, onde estavam as pedras preciosas que procurávamos: os selvagens. Com a graça de Deus, lá chegamos com boa saúde e bem dispostos. Vestíamos os nossos hábitos de sarja cinza -muito finos e apropriados para esta zona tórrida- e ainda, por cima do hábito, um bom sobrepeliz branc; levávamos na mão os nossos bastões e, no pescoço, os crucifixos. Descemos todos do navio e entramos numa canoa -uma pequena embarcação construída pelos índios com uma única peça de madeira. Na praia, íamos nos juntar aos selvagens que estavam em companhia do senhor Rasilly e aos muitos franceses -parte dos quais pertencia à nossa tripulação e parte à tripulação do senhor Manoir e do capitão Gerard, formada por homens que estavam instalados no lugar antes da nossa chegada. Ao aproximarmo-nos, muitos selvagens nadaram em nossa direção e escoltaram a nossa canoa. Pusemos, então, os pés em terra, onde o senhor Rasilly e todos os franceses nos aguardavam de joelhos -uma honra totalmente inesperada. Em meio a muitas saudações e abraços, tive a alegria de entoar o Te Deum laudamus -segundo a tradição da Igreja-, enquanto caminhávamos em procissão com todos os franceses, que choravam de contentamento e alegria, seguidos pelos índios. Assim, tomamos posse, por Jesus Cristo e em seu nome, desta terra e deste mundo novo, com planos de abençoar o lugar e aí fixar uma cruz num dia previamente escolhido para tal.

Deixei de lado, aqui, como podeis notar, todos os demais detalhes da expedição, concentrando-me somente na viagem. Não devo, no entanto, omitir que no domingo, 12 de agosto, dia de Santa Clara, celebramos (os quatro padres) a primeira missa neste país. Deus quis que exatamente no dia em que se festeja uma santa Virgem de nossa ordem, santa que trouxe uma nova luz para o mundo, começássemos a espalhar a luz do Santo Evangelho neste novo mundo. Os pobres selvagens, asseguro-vos, manifestaram uma alegria indescritível com a nossa presença. É um povo já completamente seduzido e conquistado, um povo aberto à verdade e que nos ama e admira infinitamente, ao ponto de nos chamarem de profetas de Deus e de Tupã.

Recebemos algumas boas novas desde que estamos aqui. Soubemos que no Pará, uma região situada entre este lugar e o Amazonas, há um outro povo, estimado em 100 mil homens, que gostaria muito de nos ter por perto para que os instruíssemos. Infelizmente, a obra é grande demais para ser realizada por tão poucos trabalhadores. É preciso dizer, no entanto, que é evidente a necessidade de missões nesta parte do mundo e que é chegado o tempo de Deus ser reconhecido e adorado por aqui.

Por hora é tudo que vos posso adiantar sobre a missão, pelo menos até o retorno do senhor Rasilly, após o que mandar-vos-ei outras notícias. Quanto a mim, com a graça de Deus, nunca me encontrei em melhor estado, não obstante o fato de ter passado quase somente a água. Na França, se realizasse a milionésima parte das atividades que realizo aqui, penso que certamente há muito já teria morrido -o que me leva a crer que nem só de pão vive o homem. Uma temporada nestas plagas seria ideal para os franceses de constituição mais fraca.

Agradeço a Deus não ter contraído, durante a viagem, nenhum dos males próprios do mar, o que grande espanto causou em todos. Somente depois de estarmos instalados nesta terra quente, situada exatamente sobre o Trópico de Câncer, com o sol ascendente, tive dois ou três acessos de febre, acessos que rapidamente passaram, com a graça de Deus.

Deixo tudo mais para contar-vos numa outra oportunidade, pois o tempo é curto e os deveres reclamam a minha presença. Espero que esta carta vos satisfaça, bem como satisfaça ao meu irmão e a todos aqueles a quem eu deveria escrever. Pedi a Deus por mim, se desejeis, e por todos os da companhia, pois nunca necessitamos tanto da Sua graça -sem a qual nada poderemos realizar. Se fizerdes isso, ser-vos-ei eternamente grato.

Claude d'Abeville

Tradução de Jean Marcel Carvalho França

 
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