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Creio que nós talvez consigamos encontrar algum metal nessas plagas. Afinal, a 50 léguas rio acima, os portugueses encontraram prata e cobre. A terra circundante é cortada por belos riachos de água doce, água das mais salubres que eu já bebi. O ar é temperado, tendendo mais para o calor que para o frio. O verão começa no mês de dezembro, quando o sol está sob o trópico. Durante essa estação, todas as tardes chove e troveja durante três horas; no restante do dia faz, como dizem os nativos, o mais belo tempo do mundo. Eis o que tenho a dizer sobre a fertilidade da terra e sobre a salubridade e disposição do ar. Resta falar dos habitantes, das suas condições de vida e dos seus costumes.

Tudo me leva a crer que esses nativos são o povo mais bárbaro e estranho que existe sobre a Terra. Eles vivem sem conhecimento de nenhum deus, sem inquietude de espírito, sem lei e sem nenhuma religião. Tal como os animais, estão à mercê dos seus instintos. Tanto os homens como as mulheres andam completamente nus. A língua que falam é muito rica em sons, mas desprovida de numerais. Assim, quando eles querem expressar cinco, mostram os cinco dedos da mão.

Essa nação mantém-se em estado de guerra com outras cinco ou seis. Quando faz um prisioneiro, oferece-lhe como esposa a mais bela jovem da tribo; essa relação é mantida por um certo número de luas, número previamente indicado através de uma corda fixada no pescoço do inimigo. Expirado esse tempo, os nativos fazem uma grande quantidade de vinho de milho e bebem-no até à exaustão com os amigos convidados para a cerimônia. Nessa ocasião, o prisioneiro é espancado até à morte com um porrete de madeira e, posteriormente, dividido em pedaços, que são assados na brasa e comidos com grande prazer.

A alimentação regular desses selvagens é composta por serpentes, crocodilos, sapos e lagartos, os quais são tão estimados por eles como os galos, lebres e coelhos o são por nós. Seus domínios têm a extensão de cem léguas e seus principais inimigos são os Ouitachas, os Ouyamas, os Margais, os Taliarbas e os portugueses.

No referente às uniões, os homens são livres para se ligarem a quantas mulheres desejarem e estas para deixarem os seus maridos quando lhes aprouver. Eles gostam muito das nossas vestimentas, das nossas armas e de tudo o mais que vem do nosso país, desprezando, porém, o ouro, a prata e as pedras preciosas, tão estimados por nós. As armas que utilizam são o arco e a flecha com ponta de osso. Para navegar, servem-se de umas canoas de 30 ou 40 pés de cumprimento. A possibilidade de essas pequenas embarcações virem a naufragar não os preocupa, pois são exímios nadadores. Os bens que mais valorizam são: uns colares brancos feitos com pequenos moluscos, a plumagem de alguns pássaros (com a qual ornam o corpo) e o pau-brasil, utilizado para fazer as referidas embarcações. As árvores dessas plagas crescem até uma altura inacreditável e têm uma folhagem semelhante à dos buxos. Cheguei a ver árvores de cem pés de altura e seis de diâmetro.

Creio que, se Deus não tiver piedade desses selvagens, eles dificilmente serão convertidos ao cristianismo, e isso sobretudo em razão do seu detestável hábito de comerem-se uns aos outros. Eles vivem em comunidades de 500 a 600 membros e constroem cabanas compridas, denominadas mapalia, onde habitam de boa vontade todos aqueles que pertencem a uma mesma linhagem. O algodão é aqui muito utilizado, sobretudo para a confecção de uns leitos suspensos muito confortáveis. Nesse tipo de leito, que parece feito de plumas, temos dormido desde a nossa chegada. Em cada aldeia, tem mais valor aquele que tiver capturado e matado o maior número de inimigos. Tudo entre esses homens é comum, porém, quando eles nos trazem alguma coisa, é necessário dar algo em troca, caso contrário, ficam extremamente sentidos.

Eis meus irmãos, o que pude, até essa data, recolher e registrar da nossa viagem.

Nicolas Barré

Tradução de Jean Marcel Carvalho França

 
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