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dossiê
SONHO TROPICAL

Duas cartas de uma desastrada aventura colonial no Brasil
Por Jean Marcel Carvalho França

Em 1609, o advogado e escritor calvinista Marc Lescarbot, no seu História da Nova França, livro muito bem sucedido do ponto de vista editorial e seriamente comprometido com a defesa de um projeto colonizador francês para o Novo Mundo, arrematava a sua descrição da desastrosa aventura da França Antártica com as seguintes considerações: “De que serve ir conquistar uma região se não se tem a intenção de ocupá-la inteiramente? E para possuí-la, não é necessário fixar-se em terra e cultivá-la decentemente? Como é possível estabelecer-se num lugar sem nada para garantir a sobrevivência? Enfim, no referente àqueles que comandaram a empresa, se não estavam realmente seguros de poderem guiar e controlar os colonos, era loucura aventurar-se e arriscar-se a tantos perigos. Há prisões para todos na França, não é necessário buscá-las em lugar tão remoto”.

A mordaz crítica de Lescarbot a um dos malogrados empreendimentos colonizadores franceses estava longe de ser uma voz isolada na sociedade do período. Ao contrário, predominava então entre os franceses o forte sentimento de que suas disposições naturais os incapacitava para a aventura ultramarina, aventura que tanto proveito e glória vinha trazendo para os países vizinhos e concorrentes.

De fato, se comparados aos portugueses, espanhóis e ingleses nas suas investidas no Novo Mundo, os franceses -certamente por razões outras (políticas, econômicas e culturais) que não as tais disposições naturais- não foram lá muito bem sucedidos nas suas empresas colonizadoras, especialmente na América Austral.

Todavia, as duas tentativas da França de implantar colônias na costa brasileira -a França Antártica (1555-1559), na baía de Guanabara, e a França Equinocial (1612-1615), na Ilha do Maranhão-, ainda que curtas e tragicamente encerradas, desempenharam um papel sobremodo importante para a colonização portuguesa das respectivas regiões e, como bem demonstram autores como G. Atkinson ( As Relações de Viagem no Século XVIII e a Evolução das Idéias, 1922) e Afonso Arinos de Melo Franco ( O Índio brasileiro e a Revolução Francesa – 1937), causaram enorme impacto no pensamento francês dos séculos XVI, XVII e XVIII. Nunca é excessivo, pois, conhecer um pouco mais de detalhes sobre essas que foram experiências muito breves (e controvertidas) mas que deixaram marcas profundas nos dois lados do Atlântico.

É sabido que os franceses, desde de muito cedo, olharam com enorme cobiça e interesse para o recém-descoberto Brasil. Recordemos, a título de exemplo, a célebre passagem de Binot Paulnier de Gonneville pela costa de Santa Catarina, em 1504, ou a enorme dor de cabeça que as embarcações gaulesas deram para as armadas guarda-costas de Cristóvão Jacques.

Em outubro de 1550, quando tal interesse já ganhara proporções significativas, os homens de negócio da França Atlântica organizaram, na cidade de Rouen, uma grande festa brasílica para receber o rei Henrique II e sua esposa Catarina de Médicis. Determinados a despertar nos monarcas o interesse pela América austral, esses ricos comerciantes e armadores não mediram esforços na preparação do exótico festim, chegando a importar dos trópicos cinco dezenas de Tamoios, a fim de recriar uma tribo indígena em solo francês. Ferdinand Denis, no seu Uma Festa Brasileira Celebrada em Rouen em 1550 (1850), narra-nos minúcias dessa pitoresca recepção, recepção, diga-se de passagem, não de todo estranha às cidades costeiras da França -as quais mantinham um contato estreito com os habitantes da costa brasileira e não raramente promoviam celebrações do gênero.

O evento, reforçado por uma feliz conjunção de fatores -entre os quais a pressão de poderosos comerciantes normandos, a necessidade de desenvolver o recém-criado porto de Havre e o desejo de expandir a marinha francesa-, rapidamente produziu bons resultados.

Em 1551, Henrique II enviou o cartógrafo Guilherme Le Testu e o cosmógrafo André de Thevet para explorarem a costa brasileira. De volta à França, em 1552, Thevet não cansou de destacar o quão estratégica era, comercial e militarmente, a posição da baía da Guanabara, insistindo nas vantagens de se colonizar o lugar.

O apelo do cosmógrafo não caiu no vazio. Em julho de 1553, a causa ganha um importante defensor: o cavaleiro da Ordem de Malta, Nicolau Durand de Villegagnon. Próximo do rei, amigo do almirante Coligny e detentor de excelentes relações com destacados membros da nobreza, Villegagnon não teve dificuldades para angariar um vasto leque de contribuições para financiar a empresa -contribuições do rei inclusive. Essas dádivas permitiram ao cavaleiro de Malta armar uma esquadra de três navios de 200 toneladas, recrutar cerca de 600 homens -muitos dos quais nas prisões de Rouen e Paris- e partir rumo ao Brasil.

No dia 14 de agosto de 1555, após sério percalço inicial -uma violenta tempestade obrigara o cavaleiro de Malta a buscar abrigo na Inglaterra e, dias depois, a fazer reparos no porto de Dieppe, onde houve inúmeras deserções-, os navios fizeram vela em direção ao Rio de Janeiro. No dia 10 de novembro, as embarcações entraram na baía de Guanabara e com elas o projeto de se edificar nessa parte do globo a “França Antártica”.

A história da frustrada execução desse projeto é bastante conhecida, sobretudo a querela religiosa entre católicos e calvinistas que eclodiu no meio dos colonizadores -querela exaustivamente descrita por Jean de Lery, André Thevet, Jean de Crespin e, mais tarde, no século XIX, por Paul Gaffarel.

Importa aqui destacar, contudo, que dentre os 600 homens recrutados pelo cavaleiro de Malta, estava o piloto Nicolas Barré, um protestante convicto, apoiante de primeira hora da empresa colonizadora idealizada por Villegagnon. Barré enviou a alguns amigos em Paris duas cartas narrando as suas aventuras na França Antártica, ambas publicadas pela primeira vez em 1557 (Cópias de Algumas Cartas Sobre a Navegação do Cavaleiro Villegagnon, Paris: Martin, le Jeune), antes, pois, das narrativas de Thevet e Lery.

A primeira, referente ao período de 12 de julho de 1555 a 1 de Fevereiro de 1556, dá notícias da travessia do Atlântico e descreve as primeiras impressões da terra e dos nativos; a outra narra as desavenças entre os católicos e os reformados da França Antártica. Tais missivas, uma das quais o leitor poderá apreciar neste dossiê de Trópico, são das primeiras notícias da França Antártica a circularem no Velho Mundo.

Quanto à aventura francesa no Maranhão, além de menos conhecida, ela é um pouco mais tardia, posterior, inclusive, à publicação do mencionado História da Nova França. Tudo começou em março de 1612, quando partiu do porto de Cancale, na Bretanha, com destino à Ilha do Maranhão, uma pequena frota de três navios (Régente, Charlote e Saint-Anne), comandada por um outro entusiasta da colonização francesa do Novo Mundo: Daniel de La Touche (senhor de la Ravardière), um nobre que, oito anos antes, andara pelas costas da Guiana em companhia do renomado navegador Jean Mocquet. Tinha, assim, início a “França Equinocial”, nova tentativa francesa, depois da traumática e malograda ocupação da baía de Guanabara, de instalar uma colônia na América Portuguesa -agora no extremo norte da sua costa.

O empreendimento durou até 1615, quando os aventureiros, mal conduzidos pelo seu líder e desamparados pelo seu país, foram liquidados, juntamente com os indígenas seus aliados, pelas tropas portuguesas comandadas por Jerônimo de Albuquerque. Os detalhes de tal aventura, acerca da qual não restaram muitos documentos portugueses, ficaram conhecidos graças, sobretudo, às cartas e aos relatos deixados por Yves D’Evreux (diretor da missão), Claude d’Abeville, Arsène de Paris e Ambroise d’Amiens -capuchinhos franceses engajados na empresa colonizadora- e também à menos conhecida História Verdadeira do Que Se Passou de Novo Entre os Franceses e Portugueses na Ilha do Maranhão ou País dos Tupinambás (1616), de autoria desconhecida.

Neste dossiê, junto da carta de Nicolas Barré, é publicada uma tradução do primeiro desses documentos a vir a público na Europa. Trata-se da Carta do Reverendo Padre Claude d’Abbeville, Predicador Capuchinho, ao Senhor Foullon, Padre Secular, e ao Seu Irmão Martial, Irmão Capuchinho, datada de 20 de agosto de 1612 e publicada em Paris, por Abraham Le Febvre, no final do mesmo ano.

A missiva, que o historiador José Honório Rodrigues, no seu História da História do Brasil, um pouco exageradamente chama de “a carta de Caminha dos franceses”, descreve a viagem da pequena frota entre Cancale e a Ilha do Maranhão e o primeiro mês de estadia dos franceses no mundo novo, com especial destaque para os contatos iniciais com os indígenas da região.

Jean Marcel Carvalho França
É professor do Departamento de História da UNESP-Franca e autor, entre outros, de "Literatura e Sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista" (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999) e "Outras Visões do Rio de Janeiro Colonial" (José Olympio, 2000).

1 - Um fragmento dessa missiva encontra-se no meu livro "Visões do Rio de Janeiro Colonial - 1531-1800" (José Olympio, 1999).


2 - A tradução da carta de Claude d’Abbeville, bem como a tradução de uma série de outras narrativas sobra a França Equinocial estarão no meu próximo livro "O Brasil nas Relações de Viagem dos Séculos XVI, XVII e XVIII" (a ser lançado pela José Olympio).

 
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