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novo mundo
BURRICE ARTIFICIAL

Agentes não tão inteligentes

Seres virtuais começam a proliferar no Brasil em serviços bancários e de informações

Quem viu o filme Minority Report - A Nova Lei, de Steven Spielberg (baseado na história homônima de Philip K. Dick) deve se lembrar da cena: fugindo de seus perseguidores, o personagem de Tom Cruise entra em uma loja de shopping e é instantaneamente saudado por um “vendedor virtual”, que o chama pelo nome e enumera suas preferências como se ele fosse um cliente de longa data.

A cena, que é rápida e não desempenha grande papel no enredo do filme, serve como pano de fundo para mostrar a possível evolução de um mecanismo que já está presente no cotidiano de quem utiliza a internet: os agentes inteligentes.

Também conhecidos como “knowbots”, esses mecanismos já estão sendo amplamente utilizados em sites de livrarias como a Amazon e a Livraria Cultura. Cada compra realizada no site de uma dessas livrarias alimenta os agentes inteligentes com dados sobre o perfil do usuário -o que permite que a livraria, no ato da compra, faça sugestões adicionais de livros com base nas compras anteriores.

Essa criação de um perfil personalizado é uma das características mais conhecidas dos agentes inteligentes, mas não é só para isso que eles servem. O agente inteligente pode servir como um filtro na internet, separando aquilo que o usuário deseja da imensa quantidade de informações disponíveis na rede. Mecanismos de busca como o Google podem ser considerados agentes inteligentes, de acordo com esse raciocínio.

O Brasil tem presenciado nos últimos meses o surgimento de uma série de agentes virtuais apresentados como formas de inteligência artificial. A característica comum a todos é uma forma humana ou humanóide. Essa antropomorfização tem a finalidade de atrair usuários e fazê-los se sentirem mais à vontade com sistemas informatizados.

É o caso da agente virtual Anatela, implantada em alguns dos caixas eletrônicos do Bradesco. Aparentemente baseada na apresentadora virtual do site de notícias Ananova.com, a Anatela funciona como um complemento aos menus que aparecem no monitor do caixa eletrônico.

Ela se movimenta (vira a cabeça e gesticula) enquanto surgem de sua boca balões como os das histórias em quadrinhos, com instruções para o cliente, do tipo “pode inserir o seu cartão agora”. Enquanto as instruções estão sendo seguidas, Anatela aproveita para fazer um pequeno comercial, anunciando serviços do banco ou apoiados por ele, como o Visa Electron.

Esse não é o maior problema. Na prova de São Tomé, uma experiência nos caixas eletrônicos do Bradesco da Avenida Paulista, retirando dinheiro de um caixa com a Anatela e de outro convencional, sem a agente, a coisa se complicou.

Da inserção do cartão na leitora até a retirada do dinheiro, passaram-se 24 segundos para executar todas as operações no caixa convencional e 46 segundos para o mesmo processo no caixa com a Anatela. Há uma maneira de evitar todo esse tempo no caixa -basta não esperar os balões da Anatela e sair apertando os botões do menu à medida que eles aparecem na tela. Executando esse “bypass”, o tempo do processo cai para cerca de 35 segundos.

Resultado da avaliação: a Anatela pode ser “user-friendly” no quesito simpatia, mas quando se pensa que o mais importante nessa situação seria melhorar a eficiência e rapidez de um dispositivo básico do cotidiano, é preciso confessar que essa mocinha não ajuda nada....

Outro bom exemplo é o Chip, também do Bradesco. É aquele simpático ratinho que aparece no site do banco. Segundo o comercial de TV veiculado na época de seu lançamento, ele foi criado para avisar o usuário quando o tempo de permanência deste no site expirasse.

O resultado do teste aqui foi ainda mais decepcionante. Na experiência feita, acessando o site quatro vezes em dois computadores diferentes além do tempo de permanência (15 minutos), o Chip não apareceu nenhuma vez!

Recentemente observou-se quase a mesma coisa no site do último vestibular da PUC-SP, com a figura insólita do Puquinho. Ele era chamado no próprio site de “inteligência artificial”, mas uma rápida olhada em qualquer uma das quatro telas que o apresentam revelava que a coisa não era bem assim.

As telas apresentavam uma criatura infantilóide em forma de ovo, com olhos imensos e braços e pernas curtos, em diversos ambientes do campus da PUC, na rua Marquês de Paranaguá, célebre por ter projeto arquitetônico de Rino Levi e paisagismo de Burle Marx.

No lado esquerdo, um campo em branco convidava os vestibulandos a digitar perguntas para o agente. Perguntas que contivessem as palavras “vestibular”, “horário” e “prova” recebiam respostas. Quaisquer outras questões (sobre disciplinas e cursos específicos, por exemplo) recebiam a seguinte resposta: “No momento não tenho essa resposta, me indique seu email que estarei entrando (sic) em contato em breve!”.

Fora o erro de português grave, pode-se concluir mais coisas a partir dessas experiências. Em todos os casos nota-se a preocupação em atrair o usuário por meio de agentes com formas “engraçadinhas”.

A despeito das questões de gosto, tamanha preocupação não se justifica. Afinal, tanto o site do Bradesco quanto o do vestibular da PUC-SP têm como público-alvo adultos, supostamente em busca de soluções rápidas. Além disso, os agentes não cumprem as funções às quais se propõem.

Um exemplo mais atual -e elegante- é o novo serviço que a Gradiente oferece aos usuários de telefones celulares: a Mediz. Anunciada em outdoors e cartazes de propaganda como uma assistente virtual, a Mediz (retratada como uma mulher branca de cabelos negros e olhos verdes nos cartazes e no seu site) seria um agente virtual para fornecer informações aos usuários de serviços de telefonia celular.

Entre os serviços anunciados no site estão previsão do tempo, astrologia, esportes, cinemas, fofocas, loteria e notícias diversas. É ali, também, que o usuário tem acesso à relação de números telefônicos da Mediz, de acordo com a região do país e a operadora de telefonia celular.

Uma ligação para a Mediz custa entre R$ 0,33 e R$ 0,43 por minuto, se for feita via celular, dependendo da operadora, e pode durar cerca de 4 minutos. Inicialmente, é uma voz feminina que atende (supostamente a Mediz) e oferece um extenso menu de opções, que o usuário deve escolher verbalmente. Feita a escolha (optamos pela seção de Esportes), a Mediz sai de cena, e o usuário passa a ouvir locutores transmitindo as notícias. E é só.

Apesar do rótulo de “assistente virtual”, a Gradiente é bastante honesta quando se trata de dar nome aos bois: na página “Quem é a Mediz”, você pode encontrar a relação dos profissionais que compõem a equipe por trás da pseudo-agente.

É uma redação completa de profissionais de jornalismo, com um editor, três editores assistentes, cinco repórteres e mais de uma dezena de parceiros de conteúdo como Pele.net, E-pipoca, Abril e Reuters, entre outros. Só não consta da lista o nome da locutora que dá sua (bela) voz à Mediz -que, ao fim e ao cabo, é apenas isso: um elegante sistema de telemensagens com uma locutora-apresentadora.

“Knowbots” são coisas bem diferentes: constituem-se basicamente de rotinas de programação e não precisam assumir forma alguma para desempenhar bem suas funções -nem uma forma física nem uma voz incorpórea. Será mesmo que existe necessidade de dar formas humanas (ou de bonecos) aos agentes inteligentes para facilitar a comunicação com as pessoas? Aliás, a pergunta mais importante é: ter forma humanóide confere necessariamente ao agente virtual status de inteligência artificial? A julgar pelos exemplos citados acima, não.

link-se
Chip www.bradesco.com.br
Puquinho - http://www.vestibular.pucsp.br/puquinho/
Mediz - http://www.gradiente.com/mediz/index.asp

 
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