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novo mundo
TECNOROMANTISMO

A Amazônia bela e sublime
Por Giselle Beiguelman



Detalhe de "Amazing Amazon"

Projeto de José Wagner Garcia faz pensar nas armadilhas românticas da arte tecnológica

José Wagner Garcia é aquele tipo de criador em novas mídias que se pode considerar radical porque nunca se contentou em explorar essa nossa tecnologia fast food, pautada por computadores domésticos e programas acessíveis em lojinhas virtuais.

Não se trata de mais um parnasiano high-tech, desses que se satisfaz em criar sistemas inacessíveis e desprovidos de conceitos, fruindo um pacto banal de delírio em si e por si com a técnica e as vicissitudes das máquinas.

Pelo contrário, Wagner é um investigador acima de qualquer suspeita, justifica e racionaliza cada um dos programas, ações e parâmetros que utiliza. Foi assim que trabalhou, nos anos 80, quando atualizou a land art de Robert Smithson na escala dos satélites, hibridizando a astrofísica e arte, e é assim que formatou e realizou “Amazing Amazon”, em parceria com a Petrobrás, o MIT e a Nasa.

Projeto complexo, “Amazing Amazon” não só envolveu essas instituições peso-pesado no processo, como também chegou a resultados que puderam ser confrontados na exposição que ocupa a sala Paulo Figueiredo, do Museu de Arte Moderna de São Paulo, e um auditório inflável implantado no parque do Ibirapuera.

Para tanto, utiliza interfaces on line, imagens de satélite que retratam o rio em 1992 e atualmente, expostos na sala do museu, mais um sistema de projeção em 10 telas distintas que ocupam um espaço circular, o auditório inflável, em que se é convidado a assistir as imagens deitado.

Tudo isso é feito para que os visitantes remotos e locais da mostra participem (ou contemplem?) do objetivo central do projeto: “Tratar o rio Amazonas como uma escultura geológica, estabelecendo uma estética de sua morfogênese”.

Percorremos os 7 mil quilômetros das águas amazônicas em imagens videográficas aéreas, terrestres e processadas por satélites como JERS-1, que fazem parte de projetos internacionais de mapeamento dos recursos naturais e são utilizados para finalidades diversas, como, por exemplo, controle de cheias.

A habilidade que Wagner demonstra em desfazer as compartimentações que permitiam diferenciar campos disciplinares científicos e artísticos, reconfigurando as funcionalidades desses mapeamentos, é invejável. Contudo, a preocupação exclusivamente estética corrói os seus méritos, redundando num paisagismo “pós-pós-moderno”.

Se a natureza não é só representação, mas mediação, como afirma o próprio artista, o que pode justificar que “Amazing Amazon” se contente apenas em retratar uma profusão de formas e volumes geológicos que se desenham na dinâmica do tempo, prefigurando nada mais que um estética do espaço-tempo, ou “evolucionária”, de acordo com a sua categorização?

Perigosa concepção de tempo se evidencia aí, haja vista que idealizado como algo em si abole qualquer indício da ação do homem nesse processo, que se revela, traiçoeiramente, um agente inerte frente a uma missão do rio que se realiza a cada dia: “Carregar, incansavelmente sedimentos desde a nascente, por quase 7 mil quilômetros, até a foz”.

Nessa literalmente “amazing” Amazônia não há biopirataria, os satélites não vasculham, as câmeras são olhos inocentes, as águas não sofrem os efeitos da mineração, a população ribeirinha não sofre, a mata não se relaciona com a água.

Subitamente o esforço multidisciplinar subjacente ao projeto torna-se redundante. As interessantes e arrojadas projeções que retratam o rio em diferentes planos e escalas não trazem mais que uma bem sucedida atualização das noções de belo e sublime que há muito deixaram de interessar na produção artística contemporânea.

A arrojada idéia de trabalhar o rio como um rio pensante se esvaece em formalismo puro, pois isso exigiria que se operasse o diálogo entre sua densidade geológica e os sistemas ecológicos, geopolíticos e sociais de diferentes durações com os quais interage.

Talvez fosse bom lembrar que Braudel, o eminente historiador francês, autor de La Mediterranée et le Monde Mediterranéen a L'Époque de Phillipe II (1949), notabilizou-se com essa obra porque conseguiu transformar as águas de um mar em um dos protagonistas centrais da modernidade, desfazendo a oposição romântica entre natureza e história.

Sem isso, a aposta numa diferente forma de criação que consiga reconfigurar as especificidades da ciência e da arte dificilmente nos liberará do desconcertante fantasma de Thomas, personagem do antológico Blow-up, de Michelangelo Antonioni (1966), quando, obsessivamente inicia o processo de ampliação das fotos que produzira em um parque deserto, sem saber que acidentalmente fotografara um crime.

Muito da tensão dessa cena residia no fato de que ao serem sucessivamente ampliadas, as imagens perdiam os contornos humanos e, aos poucos, se tornavam apenas um conjunto de pontos, revelando a sua unidimensionalidade formal: um punhado de grãos de nitrato de prata sobre o papel.

A leitura dessas fotos, por isso, demandava um olhar inquiridor, capaz de restituir à imagem aquilo que transcendia o seu caráter técnico: as contradições que surrupiam, felizmente, a linearidade das paisagens.

link-se
Amazing Amazon Web site: http://www.aliveriver.com.br
Museu de Arte Moderna de São Paulo http://www.mam.org.br

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

1 - "Amazing Amazon", de José Wagner Garcia. Sala Paulo Figueiredo. Museu de Arte Moderna de São Paulo. Endereço: Parque Ibirapuera, portão 2 e 3 – Fone: (11) 5549.9688. De 7 de novembro a 15 de dezembro.

 
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